Falta de política social leva onda do "trabalho em casa" aos EUA

Stephanie Armour

Depois que seu filho nasceu, Melissa Kimball pediu a sua empresa para trabalhar meio período. Quando disseram não, ela disse adeus. "Não queria largar o emprego. Adorava meu trabalho", disse Kimball 36, arquiteta em Washington, D.C., que deixou o emprego em abril para ficar com sua filha Chance, de 20 meses. "Mas eu achei que, se eles não davam valor o suficiente ao meu trabalho para adotarem políticas que me permitissem mais tempo com minha família, então não devia ficar lá."

As empresas que antes anunciavam benefícios para a família agora os estão cortando. Com o mercado de trabalho em baixa, programas que deixavam os funcionários trabalharem meio período, dividirem trabalhos, tirarem dias de folga para ficar com suas famílias ou trabalharem em casa foram cortados. A reversão está tendo profundo impacto especialmente para as mães, que agora estão divididas entre o emprego e a família.

A participação de mães com 15 a 44 anos de idade na força de trabalho com filhos com menos de um ano caiu de 59% em 1998, para 55% em 2002, a primeira queda desde que o censo começou a registrar o número, em 1976. Apesar de algumas dessas mulheres estarem encontrando outras formas de trabalhar, alguns especialistas suspeitam que também estejam deixando a força de trabalho -ao menos temporariamente- porque não encontram a flexibilidade que procuram.

"As mulheres estão indo para casa em parte porque as organizações não estão correspondendo" às suas demandas, diz Lisa Levey de um grupo de pesquisa e consultoria em Nova York, Catalyst.

Poucos programas em benefício da família estão sobrevivendo. O número de empresas que oferecem dias de folga para questões pessoais caiu de 27% em 2001 para 23% no ano passado, de acordo com uma pesquisa com quase 600 membros da Sociedade de Gerenciamento de Recursos Humanos. As que oferecem horário de trabalho flexível caíram de 64% em 2002 para 55% em 2003. A oferta de trabalhos compartilhados caiu de 26%, em 2001, para 22%, no ano passado.

Um outro estudo, da CCH, com mais de 400 empregadores, também revelou que os programas em prol da família estão sendo cortados, com trabalhos compartilhados caindo de 37%, em 2002, para 30%, em 2003. O trabalho a partir de casa caiu de 47% para 45% na mesma época. E os que permitem que os funcionários façam suas horas em quatro dias ao invés de cinco, caíram para 40% no ano passado, de 49% em 2002.

Nem todas as empresas estão cortando os benefícios. Alguns especialistas dizem que os cortes não serão profundos, porque os programas são muito valorizados pelos funcionários. Mesmo assim, as mudanças deixaram algumas mães se sentindo espremidas.

Depois de ser despedida de seu emprego em vendas, há dois meses, Krista Sweeney, 33, decidiu que não agüentava mais a falta de flexibilidade do trabalho. Em vez de procurar outro emprego, lançou um site na Web, chamado MomsVoice.com, que vende apólices de seguro de saúde. Assim, trabalha em casa e pode passar mais tempo com seus filhos Tyler, 10, e Stephan, 1.

"É muito mais flexível. Posso estar presente para meus filhos", diz Sweeney de Redmond, Washington. "Não tenho que pedir folga quando estão doentes, não tenho que me preocupar com as férias, posso ir aos jogos de meus filhos -coisas que não podia fazer antes. Assim, eles vêem que a família é importante, e não o dólar".

Corte de custos

As empresas estão diminuindo seus programas de benefícios, em parte, porque estão tentando cortar custos. Além disso, alguns empregadores acham que os programas não beneficiam todos os funcionários igualmente.

Mas muitos desses programas não custam muito, e o corte de custos não é a única justificativa. Nesse ambiente empresarial competitivo, em que é crítico estar acessível aos clientes, algumas empresas percebem uma necessidade maior de ter todos os funcionários presentes no escritório.

Outras experimentaram os programas, mas dizem que não funcionam: Mais de 25% dos supervisores dizem que o trabalho em casa pode prejudicar o desempenho dos funcionários, de acordo com um estudo de 2001 da firma Office Team de Menlo Park, Califórnia.

Alguns patrões não se sentem confortáveis com os benefícios. Eles acham que alguns funcionários vão abusar de arranjos que permitem o trabalho em casa e que tantos vão querer esse tipo de arranjo que não será possível adotá-lo como norma.

"Em uma era em que os patrões estão com força, há poucas vantagens em políticas pelo bem das famílias. Nos anos 90, essas políticas pareciam necessárias. Houve uma grande mudança", diz Steven Friedman, advogado nova-iorquino que dirige o setor de benefícios da firma de advocacia Littler Mendelson.

Uma série de especialistas acredita que as empresas vão expandir os programas, quando a economia melhorar. Outros dizem que a saúde da economia está tão incerta que sua volta vai demorar. Enquanto isso, as mães que trabalham dizem que é frustrante fazer decisões de vida com base em benefícios que podem desaparecer tão rapidamente quanto ganhos no mercado financeiro.

A questão, entretanto, não afeta só as mães. Pais e funcionários que não têm filhos e querem passar menos tempo no escritório também dizem que estão enfrentando maior resistência.

Foi uma dura lição para Robert Smith, 30, pai de quatro filhos, todos com menos de 9 anos. Em 2002, sua mulher trabalhava em uma empresa de telemarketing, e os filhos freqüentavam uma creche. Smith tinha um cargo de relações públicas, mas teve que faltar muitas vezes ao trabalho, quando seus filhos ficaram doentes. A empresa permitia 12 faltas por razões pessoais ou doença em um ano. Na 13ª falta, Smith foi despedido.

"As empresas dizem que são amigáveis à família, mas isso é retórica. Só são a favor da família se nada dá errado", diz Smith, de Rockford, Illinois, onde abriu sua firma de relações públicas, Robert Smith & Associates PR. "Eu estava roendo as unhas, me perguntando, 'Como vamos comer?'"

Os cortes também afetam funcionários sem filhos que querem passar menos tempo no escritório.

Krista Boughey, 28, de Lemoore, Califórnia, largou o trabalho em fevereiro, quando não deixaram que trabalhasse meio período. Ela quis modificar suas horas de trabalho para poder passar mais tempo com seu marido, que tinha voltado do serviço na Marinha no Oriente Médio. Ela aceitou outro emprego na Califórnia Business Furnishings, que permitiu tal arranjo.

As empresas conseguem fazer cortes de benefícios porque o mercado de trabalho apertado significa que há uma abundância de candidatos para cada vaga. Esse tipo de estratégia, no entanto, poderá criar problemas significativos de recrutamento e retenção de funcionários, quando as contratações acelerarem.

"É uma verdadeira preocupação. Há uma demanda contida por mudança de emprego e não estou vendo as empresas reagirem com estratégias de retenção", diz Robert Morgan, presidente de soluções de emprego da Spherion, de Fort Lauderdale.

Nem todos especialistas estão preocupados. Alguns dizem que, apesar dos cortes, muitas empresas continuam a oferecer flexibilidade. Tais programas, dizem eles, são valorosos demais para serem descartados. E, apesar de alguns acreditarem que os cortes serão permanentes, outros não esperam perdas maciças de benefícios ou um êxodo das mães da força de trabalho.

"As organizações precisam fazer mais, mas o mundo realmente mudou. Isso é normal de hoje", diz Levey da Catalyst, acrescentando que muitos benefícios permanecem.

As empresas que cortaram muito podem ter problemas. Os empregadores precisam segurar as mães, muitas das quais querem arranjos flexíveis. Cerca de 30% das mulheres na força de trabalho com filhos de menos de um ano trabalharam meio período em 2002, segundo o censo.

É uma questão importante para muitos. Cerca de nove em cada 10 trabalhadores dizem que sua prioridade no trabalho é um equilíbrio com a vida privada, de acordo com um estudo de 2003 da Spherion. Somente 35% disseram que ter sucesso e subir na carreira eram suas prioridades.

"As mulheres não estão fugindo do trabalho, mas de seu formato excessivamente exigente. Muitas dessas mulheres estão abrindo suas próprias empresas. Não estão trabalhando menos. Querem apenas maior controle", diz Ellen Galinsky, presidente do Instituto de Família e Trabalho de Nova York.

"Sou uma mãe melhor"

Diane St. James, 46, não trabalha menos. Mas, agora que deixou seu emprego e abriu sua própria firma, ela trabalha em seus próprios termos -e isso significa tempo para a família.

Há quatro anos, ela pediu para trabalhar em casa, porque estava cansada de viajar uma hora até o escritório e queria estar mais perto de seus filhos. Ela é agente hipotecária e já tinha trabalhado em casa, que está equipada com três linhas telefônicas e fax.

Eles disseram não.

Então, St. James, mãe de dois, pediu para trabalhar ao menos alguns dias da semana em casa. Eles disseram não novamente. St. James disse que não teve escolha -entregou o aviso prévio. Os colegas perguntaram se estava maluca.

Agora, faz o mesmo trabalho em sua própria firma, em casa, e tem tempo para suas filhas, Danielle, 16 e Stacey, 12. Quando Stacey quis entrar para um time de beisebol, há vários anos, St. James teve que dizer não. Não havia como levá-la aos jogos e práticas. Mas com seu novo trabalho, sua filha pôde entrar para o time.

"Sinto-me uma mãe muito melhor. Estou muito mais acessível", diz St. James. "Ainda por cima, no ano passado, fiz mais dinheiro trabalhando em casa do que jamais fiz no escritório". Empresas negam a profissionais alterações na rotina para concliar vida familiar Deborah Weinberg

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