Com "Shrek 2", Spielberg quer ser feliz para sempre

Susahn Wloszczyna

Digamos que a história começa assim: "Eram duas vezes". "Shrek 2" mais uma vez se entrega às questões próprias dos contos de fada, enquanto o seu ogro cor de limão, recém-casado, se vê às voltas com uma situação verdadeiramente digna de um conto de Grimm: uma visita aos seus desgostosos sogros reais.

A fórmula típica ainda está presente na continuação do sucesso de 2001 da DreamWorks, o estúdio do diretor Steven Spielberg, que conquistou o primeiro Oscar dado a um desenho animado, além de US$ 480 milhões nas bilheterias de cinema do mundo todo.

Uma amostra da segunda parte, que chega aos cinemas norte-americanos na próxima quarta-feira: um pôster de um certo "Sir Justin" está pendurado na parede do quarto de infância da mulher de Shrek, Fiona, cuja voz é feita por Cameron Diaz - em uma referência ao queridinho de Diaz, o ídolo pop Justin Timberlake.

Mas, à medida que a ação computadorizada, com cores vivas de pirulitos, se desloca para a terra de Far, Far Away, com as suas butiques brilhantes (Joust, em vez de Polo) e mansões encantadas, a comédia também zomba de forma inteligente dos valores fúteis de Beverly Hills.

O que significa que a Fada Madrinha não é apenas uma entidade mágica esvoaçante que atende a desejos. Como uma Mary Kay com um plano de vôo, a intrometida com ar de matrona (cuja voz é feita pela engraçada Jennifer Saunders) atende aos desejos mais extremos com um movimento rápido de sua vara de condão e armazena potentes poções de beleza em quantidade suficiente para envergonhar a maior parte das clínicas de botox.

"Com um gesto de mão e um brilho ligeiro,/ surgirá um príncipe cheio de dinheiro", gaba-se ela.

Na verdade, o mesmo estúdio que modificou a aparência dos personagens de desenhos animados com "Shrek", cuja sofisticação visual em terceira dimensão contribuiu para a queda da popularidade dos desenhos feitos com técnicas tradicionais, está precisando ele próprio de uma reforma.

Digam à Fada Madrinha para não se preocupar com o tal príncipe. A DreamWorks, fundada há dez anos, já possui o seu rei do desenho - o sócio-fundador Jeffrey Katzenberg, que anteriormente gerenciou a ressurreição dos desenhos animados da Disney, de "A Pequena Sereia", de 1989, ao "Rei Leão", de 1994. Conforme diz Kelly Asbury, diretora de "Shrek 2": "Jeffrey está para a DreamWorks assim como Tom Landry está para os Dallas Cowboys".

Mas, príncipes à parte, um monte de dinheiro seria uma boa, especialmente ao se considerar que o estúdio não teve nenhum sucesso no campo da animação desde o "Shrek" original. E nem sequer um modesto destaque com personagens de outro tipo, desde a antiquada brincadeira "Old School", há mais de um ano.

Também está na pauta da companhia a possível oferta ao público, para venda, das ações da sua unidade de animação no final deste ano.

Um novo dia está prestes a nascer, e "Shrek 2" dá o sinal desse alvorecer com uma confiante mudança de estilo. Saem de cena trabalhos como a ópera eqüina ultrapassada de 2003, "Spirit - O Corcel Indomável" e o naufrágio do ano passado, "Sinbad - A Lenda dos Sete Mares". Entram o humor "shrekiano" e uma sensibilidade mais contemporânea.

"São capítulos no nosso passado", diz Katzenberg, referindo-se a "Spirit" e a "Sinbad". "Considerando que os desenhos animados demoram cerca de quatro anos para ficarem prontos, esses filmes já estavam em estágio avançado de produção quando "Shrek" foi lançado. Sabíamos que demoraria alguns anos até que encontrássemos um novo rumo".

Essa hora chegou. "Este é um momento de definição para o setor de animação da DreamWorks", diz ele. "'Shrek' disse de fato como poderíamos encontrar um nicho único e popular junto às platéias".

O efeito "Shrek" é visível nos futuros lançamentos do estúdio, incluindo a comédia mafiosa submarina "Shark Tale" (lançamento em 1º de outubro de 2004), o travesso "Madagascar" (maio de 2005), "Wallace & Gromit Movie" (setembro de 2005), da equipe que fez "Fuga das Galinhas", e a paródia suburbana "Over the Edge" (2006).

Os personagens de todos esses desenhos são animais. Todos, exceto "Wallace & Gromit", têm grandes astros do cinema fazendo as dublagens, de "Shark Tale", com Will Smith, a "Hedge", com Jim Carrey. E, o mais importante, todos eles são engraçados.

"Alguns deles consistem em paródias, mas todos são um pouco subversivos e sofisticados", diz Katzenberg. "Eles são narrados sob o ponto de vista de um adulto, sendo, entretanto, feitos para funcionar com as crianças, e não o contrário".

Os amantes dos desenhos animados, que têm sofrido com os cortes drásticos promovidos pela Disney, com a provável ruptura com a Pixar, e também com os problemas vividos pela DreamWorks, podem finalmente respirar aliviados.

"Eles descobriram uma fórmula que funciona", diz Jerry Beck, especialista em animação. "Não se trata tanto de uma mudança na DreamWorks, mas de uma alteração nos gostos e atitudes da audiência. O estilo Disney, que Katzenberg revitalizou e poliu tão bem, não está mais na moda".

A boa notícia é que em "Shrek 2" praticamente tudo deu certo. Isso inclui o retorno de um elenco fantástico de atores encarregados da dublagem - Mike Myers, como Shrek; Eddie Murphy, como o Burro; e Diaz, como a Princesa Fiona -, que receberam US$ 10 milhões cada um.

"Não havia dúvidas de que eu voltaria", afirma Diaz. "Me senti estranhamente possessiva quanto a Fiona, de uma maneira fantástica. Nunca pensei em mim como uma pessoa que faria a voz de um personagem de desenho animado, e o fato de presenciar tal coisa e ver o impacto que isso teve sobre as pessoas foi um verdadeiro presente".

E presentes é o que não faltam. Os animadores contrapuseram o engraçadíssimo burro tagarela, dublado por Murphy, com um personagem que é um rival para conquistar a afeição de Shrek, assim como a da platéia: o Gato de Botas, um gato fanfarrão, que conta bravatas, com sotaque hispânico na voz do próprio Zorro, ou Antonio Banderas. Shrek pergunta ao bichano: "Quantos gatos são capazes de usar botas?".

"Eu tenho gatos, e a performance desse aí é incrível", garante Diaz, que é fanática por gatos. "Eu literalmente ri tanto que caí no chão".

E não se preocupem com a sua espada. O Gato de Botas desarma os inimigos quando faz uma interpretação de gatinho triste, com os olhos úmidos do tamanho de pires.

Até mesmo Banderas foi conquistado pelo seu outro ego felino. "Quando visitou o estúdio pela primeira vez, Jeffrey me mostrou paredes cheias de desenhos do gato", conta o ator. "Eu estaquei quando vi os seus olhos úmidos e as orelhas abaixadas. Foi amor à primeira vista".

O reino de obras vinculadas a "Shrek" e de seqüências planejadas continua a se expandir, incluindo uma possível produção teatral.

"Sam Mendes (diretor de "Beleza Americana") me procurou há cerca de um ano e mostrou estar louco para tentar adaptar Shrek para ser apresentado na Broadway. É algo realmente guiado pelo seu interesse, e a sua idéia é transformar a coisa em um musical. Provavelmente será a história do primeiro filme, com partes do segundo", diz Katzenberg.

Quanto a "Shrek 3", ele diz: "Estamos avançados na produção. Começamos seis meses atrás".

Um vigoroso bebê-ogro é uma provável novidade. Essa parece ser a progressão natural para o diretor Andrew Adamson, que trabalhou no original e na segunda parte. "No primeiro 'Shrek', ele aprendeu a amar. No segundo, aprende a amar a si próprio. Assim, sob o ponto de vista temático, e considerando que eu próprio passei por isso, uma criança exigiria dele que dissesse, 'Sinto-me suficientemente confortável para ser um mentor'". E um "Shrek 4" também está em fase de planejamento.

A DreamWorks não está se concentrando apenas na sua identidade no campo da animação ao fazer esse trabalho. "Shrek 2" marca a estréia de uma logomarca personalizada de animação, que cintila na tela antes do início do filme, enquanto ouvem-se trechos da trilha sonora do grandalhão esverdeado.

Embora aquela silhueta da criança na lua seja o símbolo oficial do estúdio, não seria absurdo afirmar que o ogro nervoso é a verdadeira mascote da companhia, representando as suas futuras aspirações no campo da animação.

Conforme diz Asbury, "Shrek é o Mickey Mouse da DreamWorks".

Ademais, em Hollywood o verde combina com tudo. Continuação da bem sucedida animação estréia na próxima quarta nos EUA Danilo Fonseca

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