Histórico de Kerry no Senado demonstra posições liberais

Jon Frandsen
Em Washington

O histórico de votações de 19 anos do senador John Kerry é de um liberal assumido, não de uma pessoa tão fácil de estereotipar quanto a campanha de Bush gostaria.

Desde que assumiu a cadeira no Senado, em 1985, o candidato Democrata tem votado lealmente em favor de importantes questões liberais, como direito de aborto, proteção do meio ambiente e gastos com uma série de programas de saúde e educação.

Kerry, entretanto, desde o início desenvolveu o hábito de fugir da esquerda do partido em algumas questões centrais, inclusive comércio, disciplina fiscal e defesa.

"Não acho que tem muito significado tentar estereotipar John Kerry", disse Mark Mellman ao USA Today. Mellman faz pesquisas de opinião para o candidato. "Uma das primeiras coisas que fez ao chegar (ao Senado), foi assinar o projeto de lei Gramm-Rudman-Hollings", que cortou os gastos do governo e criou regras estritas de orçamento para reduzir o déficit federal, disse Mellman. "Que rótulo você daria isso?"

O verdadeiro teste para ver se os Republicanos conseguem rotular Kerry será na área da defesa, que parece ser uma das questões que os eleitores usarão para medir os candidatos.

O vice-presidente Dick Cheney criticou a oposição de Kerry ao projeto que aprovava os gastos no Iraque no ano passado. Criticou também sua forma de votar em programas de defesa e de orçamento para inteligência.

"Em seus anos de Washington, o senador Kerry foi um voto em cem no Senado dos EUA e, felizmente em assuntos de segurança nacional, geralmente estava na minoria", disse Cheney, no dia 26 de abril.

De fato, Kerry é veterano de combate no Vietnã que se tornou ativista contra a guerra. Ele venceu sua primeira disputa ao Senado em 1984, pregando o congelamento dos arsenais atômicos e o corte do orçamento do Pentágono. Na primeira década de sua carreira, ele recebeu notas consistentemente altas -incluindo alguns 10- do grupo de controle de armas e antiguerra Peace Action.

No entanto, no final dos anos 1990, houve uma clara mudança. Scott Lynch, do Peace Action, diz que a postura mais dura em questões militares era compartilhada por muitos Democratas na época. Então, o presidente Clinton empurrou o partido para o centro e tentou exorcizar a imagem anti-defesa associada ao partido desde a campanha contra a guerra desenvolvida por George McGovern, em 1972. Em 1997, o Peace Action deu nota 5,8 a Kerry e, nos anos seguintes, 4.

"As circunstâncias mudam e o mundo muda, e ele sempre se soube se ajustar aos fatos", disse a gerente de campanha de Kerry, Mary Beth Cahill.

Para o desagrado de muitos, as acusações contra Kerry perderam força com as declarações de dois colegas Republicanos. Os senadores John McCain, do Arizona, e Chuck Hagel, de Nebraska, também veteranos do Vietnã com históricos pró-defesa impecáveis, disseram que era injusto acusar Kerry de ser "frouxo" com a defesa.

Mas Gregg Hilton, do Conselho de Segurança Americano, que não pertence a nenhum partido, disse que Kerry vem dizendo recentemente "coisas que o pessoal da comunidade de segurança nacional gosta de ouvir" e que, claramente, não está na extrema esquerda do partido. Mesmo assim, disse ele, muitos especialistas militares têm profundas reservas a respeito de suas posições.

Hilton observou que Kerry opôs-se à guerra do Golfo Pérsico em 1991, votou sete vezes nos anos 90 para cortar o orçamento do Pentágono e fez oposição a vários sistemas de armas, inclusive a Iniciativa de Defesa Estratégica antimísseis.

Hilton também salientou que Kerry defendeu o uso de militares na Bósnia e Kosovo, para deter a "limpeza étnica", quando muitos Republicanos conservadores se opuseram.

Jeffrey Berry, cientista político da Universidade de Tufts que observou Kerry em sua carreira, disse que a posição do senador em favor da ação nos Bálcãs salientava o que poderia ser uma das suas forças de campanha.

"Ele sempre foi visto como líder em questões de guerra e paz, da necessidade de construir uma comunidade internacional", disse Berry.

"Isso lhe permitiu fazer as críticas muito eficazes, acusando Bush de não ter sido capaz de construir uma coalizão no Iraque e ressaltando que a influência americana caiu" desde que Bush tornou-se presidente, disse Berry.

Kerry não é identificado com uma causa ou questão famosa, como muitos congressistas -McCain, por exemplo, com a questão de financiamento de campanha, ou o falecido senador William Proxmire, Democrata de Wisconsin, e seus prêmios infames ao desperdício no governo.

Mas Kerry fez nome chefiando algumas investigações no Senado, no final dos anos 80 e início dos anos 90. Algumas deram frutos, outras não. Uma das mais significativas foi no comitê especial do Senado, para determinar se prisioneiros de guerra americanos, ou MIA, tinham sido abandonados no Vietnã, onde Kerry forjou sua amizade com McCain. O comitê concluiu que era improvável que os vietnamitas ainda mantivessem americanos vivos.

Kerry construiu sua reputação de internacionalista trabalhando junto a McCain para estabelecer relações diplomáticas com o Vietnã, cerca de duas décadas depois da guerra.

Ambientalistas dizem que ele pode igualar-se ou até suplantar o ex-vice-presidente Al Gore, em seu conhecimento de questões ambientais complicadas. Entretanto, ele se especializou em uma área que recebe pouca atenção de outros congressistas e do público em geral: a saúde dos oceanos, questão crucial para o Estado portuário e de pesca de Massachusetts.

De fato, Berry, da Tufts, disse que Kerry tem reputação de legislador "cerebral", que freqüentemente lida com assuntos complicados, sem graça, porém importantes.

Esse é um traço que o prefeito de New Bedford, Massachusetts, Frederick Kalisz, disse ter rapidamente identificado em Kerry. Logo após sua eleição, em 1996, ele convidou, além de Kerry, o senador Edward Kennedy e o representante Barney Frank, Democratas de Massachusetts, para uma reunião para discutir os problemas de sua cidade.

Para maior eficácia, os três congressistas decidiram dividir responsabilidades. Kerry escolheu desenvolvimento econômico e questões envolvendo o aeroporto local. Cruciais, sim, mas não particularmente cativantes -ou geradoras de manchetes.

"Alguns de seus assuntos não são muito compreensíveis para as pessoas nas ruas, mas cruciais para uma cidade como a minha", disse Kalisz. Ele deu crédito a Kerry por ajudar a transformar uma seção há muito abandonada da costa de New Bedford em um centro de processamento de pesca, que será inaugurado em breve. O centro vai "contribuir com US$ 100 milhões (em torno de R$ 300 milhões) à indústria local e criar entre 150 e 175 empregos."

Berry diz que esse tipo de crédito era incomum para Kerry até recentemente -um problema que poderá atrapalhá-lo na campanha para presidente.

"Ele nunca foi amado aqui no Estado de Massachusetts. Ele foi respeitado, mas não amado", disse Berry. "Ele nunca colocou seu escritório no Senado à disposição das demandas dos seus eleitores e seus problemas", acrescentou. "Se você tiver algum problema, não procure John Kerry, vá ver Ted Kennedy ou seu representante local." Candidato democrata à presidência dos EUA também tem atuação no setor de defesa Deborah Weinberg

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