Guerra contra o terror divide eleitores e candidatos dos EUA

John Yaukey

Desde os ataques terroristas de 11 de setembro, David Clark, um morador de Wisconsin, está mais ciente da presença da Usina Nuclear de Point Beach, a 24 quilômetros de sua casa, e seu apelo potencial para os terroristas. E há a usina nuclear Kewaunee a cerca de 50 quilômetros de distância.

"Morar perto de duas usinas nucleares cria uma sensação de desconforto", disse o supervisor de 36 anos. "Eu penso em um ataque terrorista perto de Manitowoc."

Clark não é diferente das pessoas que vivem nos Estados Unidos desde os ataques. Entrevistas com mais de cem pessoas em mais de duas dúzias de comunidades -de Nova York a Bellingham, Washington- revelam uma ampla diversidade de pensamento.

Muitas pessoas se sentem vulneráveis, e elas vêem o presidente tanto como a causa como a cura. Outros não temem o terrorismo, pelo menos em suas próprias comunidades, mas elas ainda assim têm fortes opiniões sobre como o presidente Bush está protegendo a nação. Algumas temem que o governo está se intrometendo demais em suas vidas e gostam do plano do senador John Kerry de restaurar parte das proteções à privacidade. Outros preferem o estilo duro de segurança interna de Bush.

Alguns policiais, bombeiros e outros responsáveis por atendimento de emergência se ressentem dos fardos financeiros impostos pela segurança interna federal sobre suas comunidades, enquanto outros se perguntam por que algumas proteções não estavam implementadas antes dos ataques terroristas.

Faltando cerca de cinco meses para a eleição de novembro, os eleitores estão se perguntando se o histórico de Bush em segurança interna os tranqüiliza. Ou, se não, o que Kerry, o virtual candidato democrata de Massachusetts, tem a oferecer.

A pergunta tem especial ressonância após os recentes alertas do governo federal de que a Al Qaeda provavelmente possui células latentes nos Estados Unidos, aguardando por ordens para executar um ataque terrorista de grande escala neste verão.

Clark disse que se o terror atacar perto de casa, Bush cairá ainda mais no seu conceito. "George Bush criou uma ameaça mais séria à segurança interna ao invadir o Iraque com base em inteligência ruim, planejamento ruim e falta de responsabilidade", disse ele.

Dana Miller, moradora de Rochester, Nova York, apóia Bush em parte porque ele não hesitou em agir. "O presidente Bush fez um trabalho razoável", disse a gerente corporativa de 47 anos. "Ele tem a tendência de tentar ser muito ousado, muito predeterminado. Bush vai traçar uma linha na areia e dizer que isto é o que vamos fazer."

Terror e guerra

Os fatores na equação da segurança interna são muito assustadores para muitos eleitores, e cada um poderá mudar drasticamente antes da eleição.

Os terroristas não atingiram nenhum alvo em solo americano por quase três anos, uma consideração importante para alguns. Será que outro ataque faria as pessoas apoiarem Bush ou provocaria uma rejeição de sua abordagem de uso da força contra o terrorismo?

"Se eu votar, eu votarei em Bush", disse Duchess Hardy, uma coordenadora de recursos humanos em Reno, Nevada. "Eu acho que ele demonstrou sua capacidade como presidente durante tempos de crise."

Se a guerra de guerrilha continuar no Iraque, Bush poderá sofrer nas mãos de eleitores como Clark, que sentem que sua incursão no Oriente Médio colocou em risco os americanos em casa ao fomentar o terrorismo.

Bush já está lutando com os piores números de pesquisa de sua presidência, com índices de aprovação de 42%, uma queda provocada em grande parte por causa da insurreição aparentemente interminável no Iraque.

"Eu acho que devíamos estar prestando mais atenção na Al Qaeda do que no Iraque", disse Jon Ray, um motorista de táxi de 30 anos de Phoenix.

Custos para a comunidade

Quando chegar o dia da eleição, Bush poderá dizer aos americanos que estabeleceu o grande Departamento de Segurança Interna, da estatura de Gabinete, e estabeleceu o padrão para a vida em uma era de terrorismo com uma agenda de segurança interna que envolve virtualmente cada policial, bombeiro e funcionário de emergência do país. E ele terá um bocado de ouvidos favoráveis.

"Ele é o presidente -ele supervisiona", disse o contador aposentado Stephen Tucciarone, de Bernards, Nova Jersey. "Kerry não tem plano."

Kerry responderá alegando que grande parte do crédito pela segurança interna na esfera da comunidade não cabe à Casa Branca, mas à capacidade dos Estados e localidades. E ele também não terá um público pequeno.

Após os ataques de 11 de setembro, autoridades estaduais e municipais foram atingidas com uma carga esmagadora de mandados de segurança interna para levantamento de alvos potenciais, a proteção deles e a disposição de equipamento e treinamento para estabilizá-los caso fossem atingidos. Em muitos casos, Kerry tem acusado, o dinheiro federal prometido por Bush para pagar por tudo isto não se materializou.

Um estudo realizado no final do ano passado pela Conferência dos Prefeitos dos Estados Unidos revelou que 90% das cidades não receberam sua parcela dos US$ 1,5 bilhão alocados para as comunidades pelo Departamento de Segurança Interna.

Tom Ridge, o secretário de Segurança Interna, reconheceu recentemente aos senadores que entre US$ 8 bilhões e US$ 9 bilhões em fundos federais alocados desde 2002 não chegaram até as agências de linha de frente que visavam ajudar, apesar dos apuros financeiros que muitas estão enfrentando agora.

"Há um problema lá", Ridge admitiu recentemente ao Comitê de Assuntos Governamentais do Senado, acrescentando que consertá-lo é uma alta prioridade de segurança interna.

Os coordenadores e trabalhadores de emergência geralmente dizem que estão melhor preparados para o terrorismo e perigos em geral do que antes dos ataques de 11 de setembro, especialmente quando se trata de compartilhar informações vitais entre vários departamentos. Mas muitos acrescentam que estão sob um fardo insustentável.

"O governo federal falou muito sobre aumentar os recursos para as agências locais de emergência", disse Ed Jirsa, do Corpo de Bombeiros de Bellingham, Washington. "Mas como departamento, nós estamos vendo uma redução do orçamento e um aumento da carga de trabalho."

Victor Loo, chefe de polícia de Ithaca, Nova York, disse que a missão adicional de segurança interna deixou seu departamento "necessitando de mais treinamento, equipamento e mais oficiais preparados".

Grandes em dificuldades

Monroe County, no Oeste de Nova York, tem lutado para realizar as atualizações de segurança obrigatórias em aeroportos e instalações públicas, incluindo reservatórios, e pagar aos policiais as horas extras associadas ao trabalho adicional de segurança interna.

"Mas não estamos vendo a entrada de dólares para arcar com o que estamos fazendo localmente na frente de segurança interna", disse Mary Louise Meisenzahl, administradora de emergência de Monroe County.

Algum dinheiro federal disponível para apoio do policiamento da comunidade -cultivando relacionamentos em bairros problemáticos- foi desviado para a segurança interna, deixando os chefes de polícia carentes de recursos para patrulhas onde freqüentemente são necessárias.

"Há muitos recursos financeiros empregados na segurança interna, o que cria um vácuo no policiamento local", disse o chefe de polícia Robert White, de Louisville, Kentucky. "Dinheiro que vai para a segurança interna, eu gostaria de vinculá-lo diretamente a um bom policiamento comunitário, o que tem um impacto sobre a segurança interna."

Para ajudar a aliviar o fardo, Kerry propôs a contratação de 100 mil novos bombeiros e o financiamento de uma Corporação de Segurança Interna, dando para as comunidades os recursos para contratação de especialistas em coordenação de serviços de emergência. Ele também tem defendido um fundo especial para reembolsar as comunidades pela hora extra e outros custos quando aumenta o nível de ameaça nacional.

Em seu orçamento de 2005, Bush propôs US$ 3,6 bilhões para apoiar a resposta de emergência em comunidades de maior risco.

Privacidade e guerra

Ambos os candidatos concordam que a melhor forma de proteger o país é vencer a guerra contra o terror. Mas a que custo? Algumas das questões mais delicadas de segurança interna envolvem os poderes de policiamento doméstico concedidos pela Lei Patriota, aprovada em peso pelo Congresso logo após os ataques terroristas de 11 de setembro.

A Lei Patriota, grande parte da qual precisará ser renovada pelo Congresso no próximo ano, após a eleição, dá instrumentos agressivos para as autoridades de manutenção da lei para grampear telefones sem mandados e deter suspeitos de terrorismo sem acusações.

Bush deseja veementemente que a lei seja renovada. Kerry propôs uma redução para artigos que facilitem o uso de escutas, mandados de busca e maior acesso à informações pessoais. A privacidade é um tema recorrente onde há bastante diferença entre Bush e Kerry, e que tem grande apelo junto aos eleitores.

Velda Glover, moradora de Nova York, é fortemente contra um programa atualmente suspenso do governo Bush que exige que homens de países do Oriente Médio, Ásia e África se apresentem às autoridades de imigração para entrevistas, coleta de impressões digitais e fotografia. "Eu realmente não gosto disso", disse ela. "É uma espécie de perseguição."

Willie Gardner, morador de Asheville, Carolina do Norte, gostaria de ver maior investigação dos estrangeiros que entram no país. "Nós permitimos que imigrantes ilegais demais entrem no país", disse Gardner, um militar aposentado de 48 anos.

Vincent Garcia, um democrata registrado, vê muita diferença entre Bush e Kerry na segurança interna. Mas ele disse que não importa muito.

"Por enquanto, eu não votaria em nenhum deles", disse o maquinista de 42 anos de Reno, Nevada. "Eu acho que John Kerry não é confiável. (...) Eu nunca tive a impressão de que Bush tem uma visão para a segurança interna. Eu sabia quando ele foi eleito que ele defendia o petróleo, as grandes empresas. Mas então ele afrouxou as leis de imigração. (...) Ele precisa ser mais severo nas nossas fronteiras para tornar nosso país seguro." Americanos debatem eficácia da invasão no Iraque e de medidas de segurança interna George El Khouri Andolfato

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