Spielberg e Hanks curtem seus papéis dentro e fora do estúdio

Claudia Puig

É só passar algum tempo com os amigões e colaboradores Tom Hanks e Steven Spielberg, e você já é capaz de parafrasear uma sentença que não pertence a nenhum dos filmes destes mega-talentos: "Cada um completa o outro".

"'Completar' é um termo bem adequado", diz o diretor de fotografia Janusz Kaminski, que já trabalhou com Spielberg em oito filmes, três deles com Hanks, incluindo o novo "The Terminal", que estréia sexta-feira (18/06) nos Estados Unidos. Spielberg dirige Hanks, que vive Viktor Navorski, um turista do leste europeu que, devido a uma instabilidade política em seu país de origem, fica retido durante meses no aeroporto JFK em Nova York.

O envolvimento de dois dos maiores pesos-pesados de Hollywood levanta expectativas celestiais em relação a um filme ambientado num aeroporto. Ainda mais porque todos querem conferir os próximos lances de Hanks, cujo "Matadores de Velhinhas" ("The Ladykillers") foi recebido com frieza, e da empresa de Spielberg, a DreamWorks, que finalmente está saindo de uma maré negativa com o sucesso espetacular que "Shrek 2" alcançou mês passado nos Estados Unidos. Spielberg ainda estava editando "The Terminal " há apenas duas semanas. Para qualquer outro diretor, isto seria sinal de encrencas na produção. Mas para Spielberg isto faz parte do processo.

Ao encontrar esta dupla admirável, uma coisa fica clara desde o início: estes dois aclamados vencedores de Oscars parecem ser pessoas absolutamente comuns.

O primeiro trabalho deles juntos foi "O Resgate do Soldado Ryan" (1998). Depois veio a série para a HBO "Band of Brothers" (2001) e, em 2002, "Prenda-me se For Capaz" ("Catch Me if You Can"). Spielberg e Hanks já são amigos há uns doze anos, assim como ficaram amigas suas esposas, respectivamente, Rita Wilson e Kate Capshaw. "Rita e Kate se conheceram por intermédio das crianças," diz Hanks. "Foi aí que começamos a sair e a fazer alguns programas juntos. Morávamos bem perto uns dos outros."

Talvez porque a parceria profissional tenha evoluído a partir de uma amizade real, o relacionamento entre os dois nos estúdios já entrou para a história. "De vez em quando, o Tom tem umas idéias meio diferentes em relação ao Steven. Aí o Steven freqüentemente dá um jeito de aproveitar o que o Tom pensa", diz o fotógrafo Kaminski . "Talvez ele não confiasse tanto nos instintos de outros atores, mas Steven confia no Tom."

Sobre esta convivência Hanks, que dirigiu "The Wonders - O Sonho Não Acabou" e um episódio de "Band of Brothers", produzido por Spielberg, dirá que acima de tudo reverencia o diretor, o que pode explicar por que eles evitam qualquer conflito.

Quando começaram a trabalhar juntos, logo estabeleceram regras "Eu lembro que estávamos conversando na sua casa, e eu disse 'Olha só, você não vai conseguir me magoar'", diz Hanks, se dirigindo a Spielberg. "'Sou o seu empregado, me diga o que você quer. Se eu estiver indo bem, me diga. Se eu estiver totalmente enganado, também me diga. Meu trabalho é lhe fazer feliz'".

Spielberg completa: "E eu também disse a mesma coisa pro Tom: 'Se eu estiver conduzindo seu personagem para um caminho que você não concorde, por favor não faça cerimônias nem pise em ovos. Basicamente nós dois aqui somos os capitães'".

Laços de família

Os "capitães" falam com carinho de uma viagem que sedimentou a amizade. "Tom, Rita, Kate e eu saímos num pequeno veleiro para uma viagem de 10 dias pelo Caribe", diz Speilberg. "Sob o sol falamos de tudo. Desde 'Ih, olha só que meteoro' até assuntos como política, comida, jogos de cartas, as escolas das crianças..."

Hanks, 47, tem dois filhos, Chester, 13, e Truman, 8, estes com Rita Wilson; e outros dois mais velhos: Colin, 26, e Elizabeth, 22, com a primeira mulher dele, Samantha Lewes. Spielberg, 57, tem sete filhos: cinco com Kate Capshaw, com idades que variam entre 7 e 16 anos; um filho, Max, com a primeira mulher, Amy Irving; e uma enteada, Jessica, filha do primeiro casamento de Kate.

Spielberg adora uma foto enorme que tem da filha Sasha Spielberg (que faz uma ponta em "The Terminal"), 14, junto com Chester Hanks. "Tinhamos uma casinha de plástico no jardim, e na foto o Chester está por ali parecendo um pouco perdido, enquanto a Sasha, com os olhinhos fechados, está tentando roubar um beijo."

Enquanto os garotos se entenderam desde pequenos, a admiração entre os pais deles só faz crescer. "Se o Tom acha que acertou a cena no take 2, mas o diretor quer rodar mais 30 vezes a mesma cena, Tom vai fazer mais 30 para o diretor, sem reclamar", diz Spielberg. "Mesmo que ele saiba que o diretor vai acabar usando o take 2 na ilha de edição."

Hanks pondera: "É, talvez sim, talvez não. Tanto como diretor quanto como ator, já tive momentos em que pensei que uma cena fosse perfeita, só para depois constatar: 'Puxa, não tem nada de especial nisso aí.' E já tive momentos em que estava empacado e que parecia sem solução... e a cena era fantástica. Então cabe a alguém ter essa objetividade." Alguém que freqüentemente é Spielberg.

"Na boa, Steven poderia dizer para mim. 'Quero que você vá lá e dance que nem um macaco o dia inteiro' e eu iria lá dançar que nem macaco", diz Hanks. Na mesma medida, Spielberg, basicamente um diretor de dramas, permite que os instintos de Hanks para a comédia o orientem. "Eu sei onde colocar a câmera para aproveitar a gargalhada, mas é o Tom que sabe abrir espaço para os risos," diz Spielberg.

Além das filmagens

Em comum, eles têm mais do que simplesmente comédia, drama e Hollywood. Ambos são apaixonados pela Segunda Guerra Mundial (os pais deles foram combatentes), e também o apreço pela vida em família e visões políticas liberais que são parecidas. Eles não andam por aí cercados de celebridades, nem se preocupam com roupas elaboradas nem fazem de questão de posar como estrelas.

Hanks escolhe uma cadeira normal para a entrevista de uma hora de duração, até dispensando almofadas que estavam disponíveis. Ele explica: "Estou bem tanto com esta aqui, de estilo Quaker, quanto com esta que balança".

Qualquer que seja o estilo ou design, o recado é direto. Apesar dos dois Oscars (em 1993 por "Philadelphia" e em 1994 por "Forrest Gump"), três indicações (por "Quero ser Grande", "O Resgate do Soldado Ryan" e "Náufrago") e um salário de 20 milhões de dólares por filme, ele é um dos caras mais normais e menos estelares de Hollywood.

Mas se você sugere que ele parece não ter um ego, ele desmente. "Tenho muito ego," diz Hanks. "É que eu tenho grande fé na sabedoria do destino, sei que as coisas acabam se encaixando. Quando filmava "Quero Ser Grande", eu era o tipo de ator que precisava conferir as "colas" de texto no set, o tempo todo. Um dia (a diretora) Penny Marshall disse: 'O que você está fazendo?' Eu respondi, todo cheio de empáfia: 'Bem, eu vou olhar as colas, porque eu sou a estrela.' E ela disse: 'Saia, porque com você por aqui não podemos falar o que precisamos dizer no set. É melhor você sair'. Isso foi como uma decisão, um toque de liberdade que eu precisava ouvir. Sim, porque alguém tem que dizer: 'É isso o que nós queremos' ou `Isso não está legal'".

Hanks acredita que todo ator deveria dirigir e que todo diretor deveria atuar como intérprete; pelo menos uma vez na vida. "É assim que você aprende mesmo sobre as dificuldades de cada trabalho."

Hanks dá o maior valor a "conhecer a escola das grandes dificuldades e a levar um pontapé no traseiro umas duas vezes" como fontes importantes de aprendizado. Ele parece realmente apreciar uma vida mais simples - nada a ver com o jeito-Paris Hilton-de-ser.

Ele diz que gosta de passar o tempo com leituras, principalmente não-ficção (e de vez em quando lê romances para garotas, estilo chick-lit, "porque são pop"). "Para mim é um luxo ser capaz de sentar e ler. Mas isso só acontece se eu começar bem cedo, não posso começar só às oito e meia da noite. Nessa hora eu já estou acabado. Cuidar de crianças tem dessas coisas..."

Spielberg vê muitos filmes e confessa ser viciado em reality shows: " Vi todas as edições de "Survivor" (a versão americana de "No Limite") e também todas de "The Bachelor" e também de "Bachelorette".

Ele é fã do documentário "Super Size Me" e mal pode esperar para ver "Fahrenheit 9/11", de Michael Moore. Segundo Spielberg, é filme para faturar uns 100 milhões de dólares." Hanks repercute o mesmo entusiasmo: "Faço questão que Michael Moore leve os meus sete dólares por esse filme."

Por falar em assuntos mais politizados, será que o carismático Hanks já pensou em alguma candidatura para cargo público? "Eu só receberia uns seis votos", desdenha. E explica sua falta de ambição política: "Se fosse essa a minha vocação eu diria: 'Estamos juntos nessa. Vivemos numa terra cuja grande força é a tolerância, nosso país foi construído a partir da diversidade e todos nós precisamos ceder um pouco. Temos que respeitar o que os outros dizem, mesmo que a gente não concorde com o que é dito.'

"Posso atuar melhor como ator ou produtor. Prefiro ser capaz de extrair minhas possibilidades da cultura popular do que ser mais um fulano na ciranda dos canais com notícias 24 horas."

Falando de notícias, o personagem de Hanks em "The Terminal" é vagamente inspirado na história de um homem que se transformou numa celebridade por viver num aeroporto de Paris . Os estúdios DreamWorks compraram os direitos da história, mas Spielberg e Hanks ainda não conhecem o "herói". Os dois estiveram na Normandia pelas comemorações dos 60 anos do Dia-D, mas... "Por que não fazer uma outra viagem?", Hanks sugere.

"Eu e você deveríamos ir lá e encontrar o cara," Hanks diz para Spielberg. "É só a gente andar pelo Aeroporto e perguntar às pessoas, 'Ei, cadê o cara que vive aqui?' Vamos lá, pagar um café para ele..." Diretor e ator trabalham juntos em "The Terminal", que estréia nesta sexta-feira nos EUA Marcelo Godoy

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