Fórmulas políticas calculam o resultado da eleição presidencial

Susan Page
Em Washinton

É óbvio quem será o vencedor da eleição presidencial deste ano. O republicano George W. Bush. A menos que seja o democrata John Kerry.

Das seis avaliações para a previsão do resultado da corrida presidencial, todas elas com excelentes reputações, cada uma assinala um resultado claro em novembro. O problema é que elas apontam para direções diferentes.

Uma fórmula de um economista da Universidade Yale, que acertou o resultado de cinco das seis últimas eleições, mostra o presidente Bush como o vencedor, na vitória mais acachapante desde a reeleição de Ronald Reagan, que venceu em 49 dos 50 Estados americanos em 1984. Segundo essa fórmula Bush já venceu.

Mas o índice de aprovação de Bush caiu abaixo do patamar de 50%. Desde Harry Truman, em 1948, nenhum presidente com índice de aprovação tão desfavorável venceu uma eleição. Segundo essa avaliação a derrota de Bush é certa.

A união dos eleitores em uma reação ao terrorismo, a política em Estados-chave e outros fatores trazem tantas indicações conflitantes que é impossível prever o resultado desta eleição. Os analistas dizem que as bolas de cristal foram enfumaçadas por um eleitorado dividido e polarizado, pelo impacto da guerra no Iraque e pelo pessimismo da população, apesar de uma economia que se recupera.

O resultado disso é que os integrantes de ambas as campanhas possuem munição que lhes permite argumentar que a vitória é certa e que o seu oponente está condenado.

"Algo de novo deve estar ocorrendo, significando que a velha equação não é mais tão boa", diz Ray Fair, economista de Yale que há 25 anos procura uma fórmula para a previsão dos votos.

O ex-presidente nacional do Partido Republicano, Frank Fahrenkopf Jr. diz que essa é "a eleição mais confusa que já se viu".

Uma análise dos indicadores conflitantes:

1. A questão é a economia?

A resposta sensata é sim. As eleições presidenciais, especialmente quando um presidente está disputando a reeleição, giram tipicamente em torno de assuntos relacionados ao bolso do eleitor. Em períodos de prosperidade, o presidente ganha. Em tempos difíceis, ele perde.

A fórmula do economista Ray Fair se baseia nessa suposição. Ela usa o índice de crescimento nacional, a taxa de inflação e um cálculo das "boas notícias" econômicas para prever a votação que será recebida pelo partido que ocupa o poder. Em 18 das 22 últimas eleições, ela previu corretamente quem seria o vencedor.

A fórmula prevê agora que Bush conquistará mais de 58% dos votos neste outono, algo próximo da avalanche de 59% dos votos que reelegeu Ronald Reagan. A campanha de Bush enviou na última terça-feira (22/06) um comunicado aos repórteres afirmando que a atual economia é "notavelmente similar" àquela que beneficiou Bill Clinton em 1996.

Mas Fair, que também elaborou fórmulas para prever tempos de maratonas e a qualidade de vinhos franceses, diz que desta vez pode estar errado.

Uma outra razão é que a política externa, dos ataques de 11 de setembro à guerra no Iraque, pode estar desempenhando um papel maior que o usual.

Uma outra é a desconexão entre o otimismo dos economistas - nos últimos três trimestres o crescimento tem sido o mais robusto em 20 anos - e a percepção dos eleitores de que ainda estão lutando contra os reveses econômicos.

Fair acredita que uma desconexão similar foi o fator responsável pelo último erro da fórmula. Em 1992, ela previu que Bush Pai se reelegeria. Não foi o que aconteceu.

2. Baixo índice de aprovação significa remoção do cargo

O índice de aprovação do presidente é um termômetro que os especialistas em pesquisas utilizam para avaliar a temperatura política de quem ocupa a Casa Branca. Até as semanas finais, o índice de aprovação de um presidente tem sido um indicador mais confiável da probabilidade de ele vencer do que a pergunta das pesquisas que captura todas as atenções: a simulação de voto com o oponente.

Para o presidente que está no cargo, os 50% são considerados a marca divisória entre o seguro e o vulnerável. Se a aprovação ao seu trabalho cair abaixo desse nível, os eleitores estarão prontos a removê-lo da Casa Branca. A questão passa a ser então se os eleitores estão prontos a votar no adversário.

"Quando um presidente busca a reeleição, ele está basicamente pedindo aos eleitores que aprovem a maneira como se conduziu no primeiro mandato, de forma que consiga um segundo", explica Frank Newport, editor-chefe da Pesquisa Gallup. "É algo similar ao que se passa com o presidente de uma empresa. A comissão diretora continua a renovar o seu contrato enquanto ele estiver apresentando um bom desempenho".

Os cinco presidentes que disputaram a reeleição desde Dwight Eisenhower e que venceram em novembro tinham índices de aprovação consistentemente acima dos 50% em fevereiro do ano eleitoral. Os três que perderam estavam consistentemente abaixo dos 50% em março.

É nessa faixa que Bush se encontra atualmente - um fato que a campanha de Kerry fez questão de ressaltar em um comunicado, acompanhado de gráficos, enviado a repórteres no final da última terça-feira, declarando que o índice de aprovação de Bush "é menor do que o de qualquer presidente que se reelegeu".

"Ele não apresenta uma trajetória tão negativa quanto a do seu pai ou a de Carter, mas tampouco tem um desempenho tão positivo quanto qualquer um dos que venceram", diz Newport, referindo-se a Bush. O seu índice de aprovação é mais próximo ao de Gerald Ford em 1976. A essa época do ano, Ford tinha uma aprovação de 47%.

O índice de aprovação na última pesquisa USA Today/CNN/Gallup também foi de 47%.

3. Em tempos de guerra, o comandante-em-chefe fica em vantagem

Quando Franklin Roosevelt, do Partido Democrata, disputou um quarto mandato sem precedentes, em 1944, os democratas disseminaram um slogan poderoso: "Não troquem os cavalos no meio da corrida". A Segunda Guerra Mundial estava se desenrolando. Apesar das preocupações quanto à saúde de Roosevelt e ao tempo em que permaneceria no poder, os eleitores concordaram. Ele ganhou facilmente o quarto mandato.

Todos cinco presidentes que disputaram a reeleição durante guerras expressivas venceram - de James Madison, durante a Guerra de 1812, a Richard Nixon, durante o Vietnã. (Dois presidentes de tempos de guerra, Harry Truman e Lyndon Johnson, preferiram não disputar um outro mandato, em parte devido à oposição popular às guerras).

"Parte disso se constitui em um fenômeno de 'união-em-torno-da-bandeira', que se traduz na 'união-em-torno-do-presidente'", opina Peter Feaver, cientista político e analista de segurança nacional da Universidade Duke. "Mas outro fator ponderável é um desejo de não premiar o inimigo expulsando o inimigo deste, que é o presidente". Ele afirma, porém, que a controvérsia quanto ao Iraque pode estar "atenuando" essa suposta vantagem de Bush.

Mesmo assim, as questões de segurança fazem com que alguns eleitores relutem em substituir o comandante-em-chefe. A especialista democrata em pesquisas de opinião Celinda Lake diz que isso é um fato especialmente marcante entre mulheres suburbanas da classe média, que são alvos prioritários de Kerry.

"Em períodos de guerra as pessoas têm aversão ao risco", diz ela.

4. A situação dos republicanos depende de Ohio... e lá as coisas não vão bem

De Abraham Lincoln a George W. Bush, nenhum republicano foi eleito presidente sem vencer em Ohio. Em 2000, Bush venceu no Estado, mas por apenas 3,5 pontos percentuais, e apenas após Al Gore ter abandonado os seus esforços de campanha por lá.

Desta vez, Kerry lidera em três das quatro pesquisas de opinião em Ohio, embora em duas delas a sua vantagem seja pequena demais para ter significância estatística. A última pesquisa, feita pelo "Los Angeles Times" de 5 a 8 de junho, dá a Kerry 46%, contra 45% para Bush.

Isso significa um sinal vermelho para Bush. Na melhor das hipóteses, ele está empatado no Estado.

O presidente está vulnerável porque Ohio, assim como outros Estados do "Cinturão da Ferrugem" (que concentram indústrias metalúrgicas, siderúrgicas a automobilísticas), foi duramente atingido pela perda de empregos industriais durante o seu mandato. Em Stark County - um condado influente do Estado - a Timken anunciou no mês passado o fechamento de três usinas siderúrgicas; a fabricante de aspiradores Hoover decidiu neste mês fechar a sua sede e se mudar para Iowa. O desemprego á é de 9,9% na cidade de Canton, em Stark County, bem acima da média nacional.

"Creio que foi Ronald Reagan que perguntou, 'A situação de vocês é melhor agora do que há quatro anos?'", diz o diretor do Partido Democrata em Stark County, Johnnie Maier. "John Kerry deveria fazer a mesma pergunta".

Janet Creighton é prefeita de Canton há 19 anos e coordenadora da campanha de Bush em Stark e em outros sete condados adjacentes. "Eu diria que estamos nos mantendo firmes quanto à economia", diz. Mas ela acrescenta: "Temos que prestar atenção nas estatísticas. Eu entendo tal coisa".

5. Democratas permanecem vulneráveis nos Estados do Sul

Os três democratas que ocuparam a Casa Branca nas três últimas décadas tinham em comum o fato de serem da mesma região: o sul. Lyndon Johnson, do Texas, Jimmy Carter, da Geórgia, e Bill Clinton, de Arkansas venceram as eleições. Já o nativo de Dakota do Sul, George McGovern, e o de Minnesota, Walter Mondale (ambos do norte do país), só conseguiram vencer em dois Estados sulistas. E a última vez em que um democrata de Massachusetts disputou as eleições, em 1998, foi quando Michael Dukakis foi derrotado por Bush Pai.

Os analistas dizem que os democratas sulistas têm bom desempenho não só porque vencem em alguns Estados do sul - embora cada um desses três presidentes tenha feito isso -, mas devido também ao tipo de política que aprenderam em casa.

"Para vencer eleições no sul, os democratas sulistas precisam aprender como construir coalizões, como atingir setores externos à base do partido - a misturar temas conservadores, moderados e liberais", diz Ferrel Guillory, diretor do programa Política, Mídia e Vida Pública Sulistas, da Universidade da Carolina do Norte-Chapel Hill. "O fato de terem que navegar pelas águas políticas turbulentas do sul os ajuda quando têm que enfrentar um eleitorado nacional".

Os democratas sulistas tendem a ser centristas, especialmente quanto a questões culturais como controle de armas, pena de morte e direitos dos homossexuais.

Contrastando com isso, alguns dos votos de Kerry que estavam em sintonia com o seu eleitorado em Massachusetts poderão agora criar para ele uma indigestão eleitoral. Em 1996, por exemplo, ele foi um dos integrantes do pequeno grupo de 14 senadores que votaram contra a Legislação de Defesa do Casamento, definindo o casamento como uma união entre um homem e uma mulher. O presidente que assinou a legislação? O democrata Bill Clinton.

6. A estatura dos dois candidatos é compatível?

Depois, há a questão da estatura presidencial. Literalmente. Desde o advento da era da televisão, o candidato mais alto à presidência quase sempre venceu a eleição. E faz mais de um século que um homem mais baixo que a média foi eleito para a Casa Branca. Isso ocorreu quando William McKinley, de 1,68 m de altura, foi ridicularizado, sendo chamado de "Garotinho" ao disputar a presidência em 1896.

As razões são mais do que um acaso, segundo Timothy Judge, professor da Universidade da Flórida, em Gainesville. Em um estudo publicado na edição de primavera do "Journal of Applied Psychology", ele descobriu que as pessoas mais altas geralmente tendem a receber avaliações mais favoráveis e a ser mais bem remuneradas, mesmo quando o emprego não tem nada a ver com a altura.

As pessoas mais altas são vistas como possuindo mais autoridade e como líderes mais fortes, diz ele. Judge especula que isso pode ser um fator remanescente da evolução humana, quando a sobrevivência da espécie nas selvas e planícies dependia de força e poder.

Mas o Índice de Altura Presidencial não é a prova de erros. Em uma eleição no último quarto de século, o candidato mais baixo venceu. Isso foi em 2000, quando Bush, de 1,80 m, venceu Al Gore, de 1,82 m.

Entretanto, em 2004 Bush terá que superar um obstáculo maior: Kerry tem 1,90 m. Até a altura dos candidatos influi na equação para determinar vencedor. Kerry tem 1,90m Danilo Fonseca

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