Para Prince, não há nada como ser um rei

Edna Gundersen
Em Los Angeles

Ele tomou as rédeas para conseguir retomar o seu reinado. Já ficou para trás o tempo em que Prince rabiscou a palavra "slave" (escravo) na bochecha e mudou seu nome para um símbolo impronunciável. Hoje, ostentando um sorriso iluminado num camarim do ginásio Staples Center, envolto numa nuvem de incenso, ele alegremente releva suas batalhas com a gravadora Warner Brothers, como "águas que já correram sob a ponte." Prince está muito ocupado contando as glórias para perder tempo se confundindo em ressentimentos.

Ao aproveitar o renascimento artístico e espiritual, ele também se encontra na crista de uma onda de popularidade. A primeira noite no Staples quebrou um recorde de público. O lançamento do novo CD, "Musicology", trouxe uma primeira semana de vendas expressivas, a mais forte primeira semana dele desde 1991. Ele atribui o sucesso a uma simples filosofia empresarial.

"Você tem que envolver suas próprias mãos para cuidar dos assuntos que interessam", ele diz.

E esse trabalho artesanal de Prince está valendo a pena. Nos últimos dez anos, ele abriu as chaves do reino para financiar projetos autorais, distribuindo música diretamente aos fãs e evitando intermediários e parafernálias industriais.

Prince, aos 46 anos, qualifica o sistema convencional como "pré-histórico e antiquado", e acrescenta: "Tudo o que eu sempre disse foi: 'Deixem que eu mesmo conduzo'. Os contratos têm a sua razão de ser. Alguns artistas precisam de produtores, compositores e da orientação que as gravadoras proporcionam. Outros já são mais independentes e auto-suficientes. Eu edito meus próprios CDs. E emprego gente que toma conta do que eu não consigo fazer sozinho".

Prince fundou seu estado soberano após romper com a indústria da música, em meados dos anos noventa. Ele se manteve ocupado, lançando canções aos turbilhões pelo seu selo e clube de música, o NPG. Mas, com a exceção da parceria com a Arista em 1999, "Rave Un2 the Joy Fantastic", ele parecia ter se deslocado para longe do alcance dos radares da cultura pop.

Volta triunfal

Em 2004, um ano fundamental para Prince, ele teve um desempenho espetacular na entrega dos Grammys. Em seguida, o album "Musicology" e a turnê-retrospectiva renderam a admiração da crítica e também lucros polpudos.

"Prince resolveu abandonar a partida quando ele estava lá no topo da montanha", diz o parceiro comercial L. Londell McMillan, um dos fundadores da chamada Coalizão para o Fortalecimento do Artista. "Ele decidiu até tirar o próprio "nome" de circulação. Ele era percebido como pessoa muito difícil e bizarra. Mas, ao se excluir enquanto ao mesmo tempo se mantinha fiel a seu espírito criativo, ele foi capaz de observar, escutar e finalmente reentrar na atmosfera, seguindo suas próprias regras."

Seu novo acordo com a Columbia, que tem cláusulas pouco restritivas, fora do habitual para uma gravadora, "evitou aquele velho ônus da dívida, que sempre é um grande problema", diz o sócio McMillan. "O tipo convencional de contrato cria uma relação injusta, pouco natural. Um artista pede millhões para fazer um disco, e a gravadora acaba tendo todo o controle. É uma relação entre servo e mestre onde, claro, todo mundo odeia o patrão".

Embora não esteja entre os campeões de vendas nos últimos anos, Prince está faturando com participações mais substanciais. "De uns 10 a sete anos para cá, ele está ganhando mais dinheiro do que ganhou naquele período glorioso com o 'Purple Rain' para a Warner", garante McMillan. "Para um agente bem livre no mercado, nós criamos uma espécie de modelo multiuso, que funciona bem para o Prince, que acaba sendo tão sob medida quanto as roupas que ele usa."

Reconhecidamente um ser muito produtivo, Prince de vez em quando procura parceiros para lançamentos mais comerciais. Os mais ecléticos e experimentais ele conduz ao seu Clube Musical NPG, ou então para pacotes de canções lançados exclusivamente pela Internet.

Centenas de milhares de sócios desse clube, que pagam apenas a inscrição de US$ 25 (equivalente a R$ 77,50) e mais uma pequena taxa para cada download, acabam se livrando de qualquer acusação de apropriação indevida na Internet.

"Eu não tenho muito o que reclamar da pirataria", palavras de Prince. "Se eu estivesse faturando apenas poucos centavos por cada disco no mercado, estaria preocupado. Mas eu acabo recebendo US$ 7 por cada disco vendido a US$ 10. É o bastante para mim."

Prince tem toda uma realeza que o apóia. Ele expressa seu respeito por atuais parceiros, como a Sony e o grupo Clear Channel. Mas prefere falar das propriedades curativas do Som, do gênio de Miles Davis, dos méritos presentes no manifesto anti-industrial do agente Unabomber Ted Kaczynski, e também das mentiras que o governo americano pode estar contando sobre Osama bin Laden. Tudo isso vem do homem que extrai suor de uma arte que parecia morta, a arte de fazer música ao vivo. Cantor de "Purple Rain" faz sucesso sem alarde com nova gravadora e "Musicology" Marcelo Godoy

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