Com Edwards, Kerry mostra confiança e cria a chapa dos sonhos

Jill Lawrence e Susan Page
Em Washington

Em sua primeira decisão importante como esperado candidato democrata à presidência, John Kerry buscou e conseguiu discrição. Ele fez uso de reuniões secretas, táticas diversivas e provocação para manter as pessoas deduzindo, e manteve suas deliberações privadas por quatro meses.

Mas como em todas as escolhas à vice-presidência, esta revela muito sobre Kerry além de sua capacidade de ser esquivo.

O senador John Edwards, da Carolina do Norte, pode ser considerado uma escolha segura, porque ele é sulista e teve boa atuação nas primárias. Mas ao mesmo tempo ele é uma escolha ousada, que reflete a autoconfiança de Kerry.

Com toda a pressão dos democratas para escolher Edwards, Kerry poderia querer evitar a aparência de ter-se curvado. Com a aparência radiante de Edwards, eloqüência de tribunal e história de ter crescido na classe trabalhadora em uma cidade pequena, ele poderia ficar apreensivo em ser ofuscado.

Os maiores riscos na escolha de Edwards são sua curta carreira pública e sua bem sucedida carreira como advogado de danos pessoais, que venceu grandes processos contra médicos, hospitais e corporações. Espera-se que os republicanos o ataquem em ambas as questões.

Mas Kerry aparentemente não está preocupado com nada disto. "O senador Kerry está muito à vontade com o senador Edwards", disse sua coordenadora de campanha, Mary Beth Cahill, após o anúncio.

O processo privado de seleção do vice-presidente não foi como o processo habitual entre os democratas, que normalmente têm dificuldade em manter segredos. Também foi diferente de decisões atrapalhadas do próprio Kerry, como suas contemplações públicas no outono passado sobre se devia ou não mudar sua equipe.

Edwards, um senador em primeiro mandato e rival de Kerry na disputa pela indicação, foi a escolha popular. Democratas de todo o país votaram nas primárias por Kerry, o veterano de guerra de Massachusetts com quase 20 anos de Senado e experiência em política externa. E então, em pesquisa após pesquisa, em entrevista após entrevista, eles escolheram Edwards, um populista carismático, para se juntar a ele na chapa.

Será que Kerry escolheria o deputado Dick Gephardt do Missouri, o homem que ele disse que daria o melhor presidente fora ele próprio, ou escolheria Edwards, um homem que ele já desprezou como novo demais na política e nas questões mundiais para estar qualificado para um cargo de tamanha importância?

As amplas deliberações de Kerry -típicas de seu processo de tomada de decisão- começaram com uma lista de 25. Eventualmente ela foi reduzida a uns poucos. No final, Kerry optou por Edwards.

As pesquisas mostraram que Edwards é visto por muitos democratas como a melhor esperança deles para ajudar na vitória de Kerry. E Kerry quer vencer. Assim, nesta terça-feira, quase três semanas antes da sua convenção e muito antes do habitual, ele descreveu Edwards como pronto para a vice-presidência e lhe deu as boas-vindas.

Como a decisão foi tomada

A busca de Kerry, comandada por um advogado de Washington, Jim Johnson, teve início quatro meses atrás com um imperativo: seja discreto. Isto devido à sua própria experiência infeliz como um dos candidatos de Al Gore em 2000.

Informação potencialmente danosa sobre os candidatos não foi jogada na mídia para ver o que aconteceria. Os conselheiros próximos se mantiveram calados. O mistério foi mantido até o último minuto.

"Uma coisa que John Kerry provou é que lhe podem ser confiados segredos de Estado", disse David Axelrod, um conselheiro de Edwards.

Na noite de segunda-feira, a NBC cercou o hangar onde o avião de campanha de Kerry estava recebendo um novo decalque. Mas havia uma "lona gigante cobrindo o nome ao lado do de Kerry", escreveu Elizabeth Wilner, da NBC, em seu boletim "First Read" na terça-feira.

Ao longo de todo o processo, reuniões foram realizadas sob circunstâncias sigilosas, incluindo uma na noite de quinta-feira na casa da ex-secretária de Estado, Madeleine Albright, perto da casa de Kerry no bairro de Georgetown, em Washington.

A equipe de política do ABC News relatou que o único candidato na cidade naquela noite era Gephardt. Mas Gephardt disse posteriormente que nunca esteve na casa de Albright, e eventualmente descobriu-se que Edwards tinha interrompido suas férias na Disney World para participar do encontro.

Mais cedo naquele dia, Kerry recebeu de Johnson e Cahill as informações finais sobre os candidatos. Os meses de coleta de informações e opiniões tinham acabado. Ele as conferiu juntamente com sua esposa, Teresa, ao longo do fim de semana. Então, na noite de segunda-feira, entre 22h30 e 23h, Kerry chamou Cahill, Johnson e o redator de discursos Terry Edmonds e lhes disse que tinha optado por Edwards.

Por que tomar a decisão tão cedo? Ainda restam quase três semanas para a dupla levantar fundos, em grande parte para o Partido Democrata gastar para promover a chapa. Dentro da campanha, foi sentido que os eleitores estão concentrados nesta campanha de forma incomumente intensa e precoce. Kerry também queria parecer decidido, dispor do mês de julho para mostrar como seria uma presidência Kerry, e apresentar a notícia segundo seus próprios termos.

O júri está deliberando sobre todas estas coisas, mas a última ocorreu nesta terça-feira.

Kerry telefonou para Edwards às 7h30 da manhã. "John, Teresa e eu gostaríamos de convidar você e Elisabeth para se juntarem à nossa chapa, com a esperança de mudar nosso país", disse ele, segundo um relato de Cahill. A resposta foi sim.

Então Kerry telefonou para as várias pessoas que não escolheu. Cahill disse que as conversas foram "amistosas e sem constrangimento". Sem mencionar nomes, Kerry os agradeceu em seu comício de terça-feira em Pittsburgh por terem suportado "o que é inevitavelmente um processo muito invasivo e até frustrante. Cada um destes indivíduos, e o digo sinceramente, cada um destes indivíduos seriam ótimos vice-presidentes e de fato poderiam liderar nosso país. Mas só posso escolher um companheiro de chapa, e nesta manhã eu o fiz".

O que traz Edwards

Em Edwards, Kerry escolheu um homem que o compensa em muitos aspectos. Edwards é caloroso e sorridente, e tem o dom de Bill Clinton de falar sobre os assuntos com facilidade, de maneira informal.

Seu tema das "duas Américas", sobre uma nação dividida por classe e influência, teve receptividade nas primárias, e ele apresentou o que para alguns analistas foi o melhor argumento contra as políticas econômicas de Bush: que o governo valoriza a riqueza em vez do trabalho.

De certa forma, a chapa reflete estas duas Américas. Apesar de Edwards agora ser um multimilionário, ele começou como filho de um trabalhador de moinho. Ele nunca freqüentou escolas ou faculdades particulares, como Kerry. Ele fez carreira representando pessoas com poucos recursos contra corporações, hospitais e seguradoras.

"A chapa Kerry-Edwards unirá americanos de todas as classes", disse o deputado Elijah Cummings, democrata de Maryland, em uma declaração. Cummings, presidente do Black Caucus (grupo de interesse dos negros) no Congresso, fez lobby por Edwards.

Edwards tem forte apelo no Sul e freqüentemente se referiu a ele durante as primárias. Sua presença na chapa poderá ajudar os democratas a superarem algumas diferenças culturais -em questões como religião e armas- que os têm prejudicado no Sul. Ele poderá ajudar Kerry a vencer na Carolina do Norte, apesar de as chances ainda serem pequenas. Mas provavelmente será de mais ajuda no Meio-Oeste, onde demonstrou ter apelo em Estados disputados como Iowa e Wisconsin.

"Geografia não teve influência nesta decisão", disse Cahill. Ela disse que a campanha está atuando no Sul e continuará. "Nós não cederemos um centímetro no Sul."

A escolha de Edwards foi recebida com aclamação por alguns grupos democratas chaves. A Liga de Ação Nacional para Aborto e Direitos Reprodutivos a chamou de "chapa dos sonhos". O Sierra Club chamou Edwards de "um líder na proteção da saúde e da segurança dos americanos".

Os presidentes dos comitês democratas de campanha para a Câmara e para o Senado disseram que estavam empolgados. A chapa é "ótima para nossos candidatos ao Senado por todo o país", disse o senador Jon Corzine, democrata de Nova Jersey.

Um especialista em comportamento do eleitor, William Flanigan, da Universidade de Minnesota, em Minneapolis, disse que Edwards pode possuir a habilidade necessária neste ano: "ser capaz de atacar o vice-presidente sem receber a má reputação de ser um vil cão de ataque. Ele tem uma aparência agradável e de boa índole".

E em um e-mail para os simpatizantes, Kerry disse que não pode esperar para ver Edwards enfrentando o vice-presidente Cheney.

Habilidades convenientes

Kerry apontou algumas das vulnerabilidades de Edwards durante a campanha das primárias. Edwards foi eleito ao Senado em 1998 -seu primeiro cargo público. Kerry desdenhou repetidas vezes o currículo de Edwards como inadequado para um presidente em uma era de terrorismo. "Eu acho que o mundo está à procura de uma liderança testada e confiável", disse ele.

Agora, é claro, Kerry e seus assessores estão destacando os cinco anos de Edwards no Senado e os quatro no Comitê de Inteligência, seu interesse na reforma da CIA e do FBI, sua atenção dedicada ao bioterrorismo, suas viagens ao exterior e outros pontos relevantes.

Isto o coloca à frente de onde George W. Bush, dono de equipe de beisebol e governador do Texas, se encontrava em 2000. Mas os ataques de 11 de setembro mudaram o mundo e o que os americanos esperam de um comandante-em-chefe.

Em Pittsburgh, Kerry chamou Edwards duas vezes de "pronto" para assumir a presidência.

"Obviamente, a segurança nacional e a defesa serão uma parte importante do diálogo entre as campanhas", disse Cahill posteriormente. Ela disse que apesar do "cálculo político" ter certamente pesado nas deliberações, "grande parte foi a garantia de que esta pessoa poderia sucedê-lo".

Minutos após o anúncio da escolha de Edwards, os republicanos estavam circulando os comentários desdenhosos de Kerry sobre a falta de experiência de Edwards. Outras linhas de ataque possíveis incluem seu passado como advogado de tribunal. Os advogados de tribunal tendem a fazer doações para as campanhas democratas para oposição à uma limitação ao valor das indenizações em processos por erros médicos, o que os republicanos dizem que eleva os custos do atendimento de saúde e outros serviços.

Edwards tem apoiado certos limites nas indenizações e representou pessoas pobres durante sua carreira. Sua experiência se enquadra nos planos democratas de atacar o governo Bush, particularmente Cheney, por laços corporativos impróprios e injustos.

Uma das críticas mais comuns a Edwards, mesmo dentro de seu próprio partido, é de ele ser ambicioso demais. Na terça-feira, Cahill tinha isto a dizer: "Não há muitas pessoas que concorrem à presidência que não sejam muito ambiciosas". Segundo analistas, o candidato a presidente fez a melhor escolha possível para vice George El Khouri Andolfato

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