"New York Post" anuncia o vice de Kerry antes da hora e erra

Peter Johnson

Nessa era altamente competitiva feita de notícias instantâneas, em qualquer área da mídia é uma desgraça ignorar a regra número 1 do jornalismo: não há glória alguma em ser o primeiro a dar a notícia, se a notícia que você dá está errada .

Quem se deu mal nessa regra foi o jornal "New York Post", de Rupert Murdoch. Na terça de manhã, o jornal informou, num artigo não-assinado, na primeira página, que o candidato à presidência pelo Partido Democrata, John Kerry, havia escolhido o parlamentar Richard Gephardt, do Estado de Missouri, como o companheiro de chapa.

Mas às 7h30 da manhã, no horário de Nova York, enquanto cópias do popular tablóide ainda não haviam sido lidas por muitos leitores do Post, a repórter da NBC Andrea Mitchell anunciava o "furo" jornalístico do dia, que rendeu uma matéria especial no prestigioso programa "Today": Kerry havia escolhido o senador John Edwards, da Carolina do Norte. Kerry confirmou a notícia divulgada pela NBC 90 minutos depois, num comício na cidade de Pittsburgh.

O editor do Post, Col Allan, preferiu não atender ligações nesta terça-feira, passando os contatos para Howard Rubenstein, um dos maiores especialistas em relações públicas de Nova York. "Nós pedimos desculpas irrestritas aos nossos leitores por esse erro", disse Allan numa declaração que Rubenstein leu aos repórteres. Allan atribuiu o engano a fontes "que o Post acreditava serem corretas".

Enquanto isso, numa campanha presidencial que havia esfriado nas últimas semanas - com tantos bombardeios e seqüestros no Iraque ocupando o centro das atenções, seguidos pela entrega da soberania aos iraquianos - finalmente surgiu o grande "furo" da campanha de 2004.

Andrea Mitchell, veterana repórter política e correspondente na Casa Branca que também antecipou a escolha de Dan Quayle por George Bush Pai em 1988, diz que trabalhou pesado em telefonemas durante todo o final de semana.

"Sinceramente, não acho que foi sorte", diz Mitchell, garantindo que só descansou um pouco entre 2h e 5h da terça-feira. "Devo ter dado uns 100 telefonemas."

Carl Cameron, do Fox News Channel, "perdeu" a exclusividade do furo com um atraso de mais ou menos três minutos em relação a Andrea. "Eu vivo para isso 365 dias, quatro anos seguidos", disse Cameron.

A equipe que faz a campanha de Kerry manteve a informação bem secreta. O próprio Kerry já ficara constrangido ao saber por intermédio de repórteres que Al Gore havia escolhido o senador Joe Lieberman, do Estado de Connecticut, como companheiro de chapa na campanha de 2000.

"Conseguir a informação foi duro", diz Andrea. "Os assessores de Kerry estavam determinados a não permitir qualquer vazamento". Segundo Cameron da Fox News, somente na noite de segunda-feira foi que Kerry começou a revelar aos assessores mais graduados sobre sua decisão. Foi nesse momento, diz o reporter, que "um círculo bem restrito e interno começou um pequeno movimento de expansão" da notícia.

O que isso quer dizer? Num quadro mais amplo, isso significa que a NBC venceu a ABC e a CBS, entre os noticiários da televisão aberta? Ou que a Fox News derrotou a CNN, entre as tevês por assinatura? (A MSNBC, canal de notícias da NBC, seguiu com a informação exclusiva da matriz, dada por Andrea Mitchell.) Não quer dizer muita coisa, diz Tom Rosenstiel, da organização Projeto de Excelência em Jornalismo.

"Esse tipo de furo está naquela categoria em que a CBS diz algo como 'estivemos em Ohio 48 segundos antes da ABC'. Tenho minhas dúvidas se havia muitos americanos zapeando canais durantes os shows matinais de notícias para ver quem anunciaria primeiro o vice-presidente."

Isso sem falar que o público deve considerar a possibilidade do furo da NBC ter sido proposital, diz Rosenstiel. "Será que os assessores de Kerry decidiram que seria útil dar a notícia primeiro no show matinal de notícias mais assistido, ou seja, no "Today"?

"Não conheço a resposta para essa pergunta, mas existe um certo grau de orquestração no anúncio da vice-candidatura - e se isso não for orquestrado até os mínimos detalhes, então eles estão fazendo a coisa errada. Certamente cada jornalista político estará avaliando a sofisticação do staff da campanha pelo grau de manipulação que exercem ao divulgar esse comunicado." Tablóide tenta dar grande "furo" de reportagem, mas passa um vexame histórico Marcelo Godoy

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