Pílulas poderão fazer com o cérebro o que o botox faz com a pele

Rita Rubin

Você pode passar Rogaine no couro cabeludo, para tentar recuperar os cabelos da sua juventude; pode injetar Botox na testa, para suavizar as marcas do tempo, ao menos temporariamente. E alguns cientistas prevêem que, eventualmente, você vai poder tomar uma pílula para refrescar o interior da sua mente também.

Graças a recentes avanços na compreensão do funcionamento do cérebro, é apenas uma questão de tempo até que medicamentos especificamente formulados para melhorar a capacidade mental, ou cognição, atinjam o mercado.

"A característica dessas drogas é que não criam mais memória. O que essas drogas de fato fazem é aumentar o processo de conversão de memórias de curto prazo em memórias de longo prazo", diz John Tallman, diretor executivo da Helicon Therapeutics de Farmingdale, Nova York. A empresa planeja iniciar testes com seres humanos para sua droga promissora para o cérebro até o final do ano.

Além da Helicon (nome que vem da montanha da mitologia grega onde Apolo brincava com as Musas), empresas com nomes evocativos como Sention (aparentemente, um jogo com a palavra "sentient", que significa consciente em inglês) e Memory Pharmaceuticals estão se concentrando em medicações para tratar pacientes cujos cérebros foram danificados por doença ou traumatismo.

Mas o verdadeiro mercado para essas drogas pode ser o de pessoas saudáveis, que simplesmente gostariam de aprender um pouco mais rápido.

Os americanos já gastam US$ 1 bilhão (em torno de R$ 3 bilhões) por ano em suplementos para melhorar sua capacidade mental, apesar de haver poucas evidências de que funcionam, observa um artigo na edição de maio da revista Nature Reviews Neuroscience. Da vitamina B12 ao gingkgo biloba e cápsulas de "BrainQUICKEN" - "usadas pelos melhores alunos de todas instituições Ivy League", de acordo com o site do produto -lojas de produtos naturais e a Internet estão cheias de produtos que prometem melhorar a memória e o aprendizado.

Quando o Departamento de Alimentos e Drogas permitir que uma droga entre no mercado para tratar, digamos, doença de Alzheimer, os médicos poderão receitá-la para qualquer propósito que desejarem, inclusive para dar agilidade a mentes saudáveis, cansadas pela idade ou fadiga. E os consumidores poderiam escolher sites da Web que vendem drogas sem nem mesmo requererem receita.

Até certo ponto, isso já está acontecendo. Apesar de não estar claro quão ampla é a prática, alunos de segundo e terceiro graus que não têm distúrbio de hiperatividade e déficit de atenção (Adhd) estão tomando Ritalin, para ajudar nos estudos para as provas. Também há casos de cientistas que tomam Provigil, aprovado somente para tratamento de narcolepsia, para aumentar o nível de alerta antes de falar em reuniões profissionais.

"As pessoas já estão usando uma ampla gama de remédios para melhorar seu desempenho. É quase impossível impedi-las", diz o diretor executivo da Sention, Randall Carpenter, citando como exemplo a popularidade do Viagra entre homens que não têm disfunção erétil.

Em seu site na Web, a empresa Memory Pharmaceuticals de Montvale, Nova Jersey, admite que o mercado potencial para suas substâncias, pode se estender para bem além dos pacientes com Alzheimer e outros males que roubam a memória. Apesar de 37 milhões de pessoas no mundo todo terem Alzheimer, mais de 180 milhões -ou metade de todas as pessoas com mais de 65 anos- estão vivenciando "declínio cognitivo associado à idade."

"Esse declínio não está claramente ligado a uma doença definida e pode ser uma parte 'normal' do processo", diz a empresa no site.

A Memory Pharmaceuticals, que já tem uma droga em fase de teste com seres humanos, levantou US$ 35,4 milhões (cerca de R$ 106,2 milhões) em sua oferta pública inicial neste ano. O presidente e diretor científico da empresa, Axel Unterbeck, diz que a necessidade médica por si só "já valeria todo o investimento" no desenvolvimento de drogas para melhorar a capacidade cognitiva. Mas ele admite que pessoas saudáveis também vão procurá-las. "Isso de fato será uma tendência muito interessante a ser estudada", diz ele.

Tallman diz que as pessoas mais velhas ficam "muito, muito preocupadas com sua memória, porque são suas memórias que as tornam humanas. Nenhuma pessoa diria honestamente: 'Nunca tomaria essas drogas.'"

Mesmo assim, não há garantias de que as drogas que funcionam em pacientes prejudicados pela doença também vão beneficiar as pessoas saudáveis que simplesmente querem lembrar os nomes mais rapidamente.

Por exemplo, a primeira geração de drogas para Alzheimer, Cognex e Arricept, bloqueia a quebra da acetilcolina, um neurotransmissor, ou seja uma substância que permite que as células nervosas se comuniquem. Pacientes de Alzheimer têm pouca acetilcolina, mas as pessoas com cérebros normais não. Então, não se sabe que efeito teriam as drogas, diz Steven Rose, diretor do Grupo de Pesquisa do Cérebro e de Comportamento da Universidade Aberta na Inglaterra.

E mesmo que as drogas aumentem a cognição em indivíduos comuns, diz Tallman, "pessoas com alto funcionamento provavelmente teriam beneficio limitado."

Pesquisadores da Universidade de Duke descobriram que o adesivo de nicotina, aprovado para ajudar fumantes a quebrarem o hábito de fumar, reforçam a função cerebral nas pessoas com Alzheimer leve ou moderada e em adultos com Adhd e esquizofrenia. Mas testes preliminares em voluntários saudáveis revelaram apenas um efeito modesto, diz Edward Levin, professor do departamento de psiquiatria e ciências do comportamento de Duke.

Mesmo em pacientes com Alzheimer, os benefícios do adesivo de nicotina não valem os riscos, advertiu Levin. Os efeitos colaterais incluem ritmo cardíaco acelerado, pressão sangüínea elevada, distúrbios do sono, náusea e tontura.

O adesivo de nicotina aponta outro obstáculo no desenvolvimento de "drogas inteligentes" para cérebros normais. "Tem que ser tão seguro quanto água", diz Carpenter. "Essa é uma tarefa muito assustadora, que poucas pessoas querem tentar."

Talvez surpreendentemente, pesquisadores da Universidade de Stanford descobriram que o chiclete de nicotina, assim como Aricept, usado para tratar pacientes com Alzheimer leve ou moderada, melhorou o desempenho de pilotos de meia idade em simuladores de vôo. Entretanto, o Aricept também pode causar efeitos colaterais indesejáveis em um piloto, como tontura, desmaio e vômito, diz o farmacologista Martin Mumenthaler, que liderou o estudo.

"A questão é: Como você altera especificamente um órgão tão complexo como o cérebro, sem afetar nenhuma outra função?" pergunta o biólogo Robert Gerlai, pesquisador de memória da Universidade do Havaí. "O cérebro não funciona só com aprendizado e memória. Tem uma série de outras funções".

Além disso, Gerlai e outros pesquisadores da área salientam que há o risco potencial das drogas para a memória funcionarem bem demais, impedindo o usuário de distinguir entre informações importantes e triviais.

Alguns cientistas dizem que a principal droga da Helicon, que se destina a ativar uma proteína envolvida na formação de memórias de longo prazo, pode interferir com a memória de curto prazo, admite Tallman.

"Modelos de memória de animais são bons, mas é difícil tirar uma leitura total da memória humana sem fazer ensaios com pessoas", diz ele. Apesar de a Helicon ainda não ter começado a testar sua droga em seres humanos, Tallman diz que suspeita que efeitos adversos na memória seriam temporários.

Os ensaios da fase 1, estipulados para avaliar a segurança das drogas, são conduzidos em voluntários saudáveis. Então, além de monitorar os efeitos colaterais dos voluntários, a Sention, de Providence, Rhode Island, e Memory Pharmaceuticals estão administrando testes para avaliar os efeitos de suas drogas no aprendizado e na memória.

Mark Bear, neurocientista do MIT e co-fundador da Sention, enfatiza que os estudos da fase 1 foram pequenos demais para fornecer dados sólidos sobre a eficácia da droga. Mesmo assim, está animado: "Eu diria que os resultados foram muito estimulantes."

Não seria ético Bear, 46, testar as drogas da sua empresa em si mesmo. Ocasionalmente, entretanto, toma uma medicação que talvez seja a primeira droga inteligente segura e eficaz do mercado.

Modafinil, vendido como Provigil, foi aprovado em 1999 para o tratamento de sono durante o dia em pacientes com narcolepsia. Não é um remédio barato. Os sites da Web vendem 30 comprimidos de 100 miligramas por cerca de US$ 200 (em torno de R$ 600).

Em um pequeno estudo com homens saudáveis no ano passado, Bárbara Sahakian, da Universidade de Cambridge, descobriu que o Modafinil melhorava o desempenho em testes de memória e atenção com segurança.

Sahakian diz que ela e seus colaboradores limitaram o estudo a homens para eliminar a possível alteração dos resultados pelos ciclos menstruais da mulher. Mas, diz ela, não há razão para crer que o modafinil não funcionaria igualmente em mulheres.

"Talvez seja a primeira droga inteligente que eu vejo", diz Sahakian, co-autora do artigo da Nature Reviews sobre estimulantes cognitivos.

Bear diz que toma Modafinil "para me adaptar em fusos horários diferentes", não para melhorar seu desempenho mental. Na primeira vez, ele pediu ao seu médico uma receita antes de viajar para uma reunião científica na Índia. "Tinha que chegar e dar um seminário no mesmo dia. Disse ao meu médico: 'Olha, vou viajar meio mundo. Simplesmente não vou ser capaz de funcionar'" sem a droga.

Apesar de Bear ter tomado Modafinil para evitar dormir no meio de sua apresentação, ele admite que "qualquer coisa que aumente o estado de alerta aumenta a cognição."

E qualquer um que já tomou um expresso duplo -ou dois, ou três- enquanto estudava para uma prova ou escrevia um relatório, provavelmente concordaria. Conheça as drogas que poderão melhorar a capacidade cerebral, segundo cientistas Deborah Weinberg

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