Internet faz história de amor do passado continuar no presente

Maria Puente

É o enredo de milhares de livros, canções e filmes ao longo de eras: o herói em busca de seu primeiro amor, seu amor perdido jovem para sempre e dourado na memória, para sempre inalcançável.

Até agora. Ela não está mais perdida, ela não é mais jovem e ela não é apenas alcançável, ela está chegando à sua casa. Além disso, há uma câmera de TV a seguindo enquanto ela entra pela porta.

E não estamos falando de Jennifer Lopez se casando com seu antigo namorado, Marc Anthony.

Na verdade, há dezenas de Jennifers e Marcs desconhecidos por todo o mundo que, graças à Internet, estão sendo reunidos anos, até mesmo décadas, após terem trocado seu último beijo, terem seguido caminhos separados e se relacionado com outras pessoas. O mundo girou, famílias se mudaram, nomes mudaram, contatos foram perdidos. Antes da Internet, encontrar um amor perdido podia exigir uma biblioteca de listas telefônicas, um detetive particular ou um bocado de sorte.

Agora, antigos namorados estão se reencontrando em segundos por meio de sites especializados. Nos EUA, os mais populares são Google.com, Classmates.com, Reunion.com e Friendster.com. Também há similares no Brasil. Além dos sites, produtores de reality shows podem ajudar. Pessoas saem à procura de outras -digamos, os amigos com quem ele jogava futebol, ou uma colega de quarto- apenas para descobrir o nome da primeira garota que ele beijou, ou o rapaz que a levou ao baile.

Talvez ele tenha ansiado secretamente ao longo de todos estes anos por seu amor adolescente; talvez ela tenha começado a pensar recentemente em seu antigo namorado. Talvez agora eles estejam divorciados ou separados de outros parceiros, ou talvez -e aqui é onde se torna complicado- eles ainda estejam casados.

Não importa. A atração ainda persiste. Eles começam a trocar e-mails. Eles conversam por telefone por horas. Eventualmente eles se encontram. E, incrivelmente, muitos estão fazendo novamente juras de amor -casando-se com os antigos namorados que não viam há 10, 20 ou até mesmo 40 anos. Não importa que ambos possam estar mais grisalhos, arqueados e mais lentos; eles ainda vêem o seu amor sob a aura dourada de suas lembranças, ela com a cintura fina e o grande sorriso, ele tão alto, simpático e espirituoso.

Trinta anos depois

"Nós ficamos loucos quando nos reencontramos", quase 30 anos depois do colégio, uma gravidez abortada na adolescência, um casamento cada, três filhos e uma tentativa frustrada de reunião, disse Greg Benedetti, 49 anos, sobre seu reencontro em 1999 com seu primeiro amor, Becky, 48 anos. Ela procurou por ele na Filadélfia pela Internet, encontrando-o por meio de seu emprego em um teatro.

"Ela confessou que nunca deixou de me amar. Algo começou a 'bipar' em meu coração, e eu disse a ela que sentia o mesmo." Eles se divorciaram de seus cônjuges e se casaram em 2002. "Nenhum de nós é exatamente o mesmo (como éramos na juventude), mas não importa -nós retomamos de onde paramos."

Uma tendência de TV

Envolvente? Certamente. Incomum? Realmente não. Na verdade, sites de reunião têm atraído milhões de usuários registrados, com muitos escrevendo testemunhos efusivos sobre suas histórias de "eu encontrei meu amor perdido". A página de casamentos do jornal "The New York Times" exibiu recentemente um casal de amor perdido que se casou -ele com 93 anos, ela com 82- 70 anos depois que se apaixonaram.

Mas o verdadeiro teste de validação da tendência é este: tornou-se útil para os reality shows. Vários programas têm-se concentrado em pessoas em busca de antigos amores -alguns dos quais nada empolgados em serem encontrados. O "Second Chance" (segunda chance) no canal americano TLC, iniciará sua segunda temporada em setembro e já exibiu 30 casais de amores separados em sua primeira temporada; meia dúzia estão agora noivos, casados ou vivendo juntos.

A premissa de "Second Chance" é que tanto aquele que está procurando quanto quem está sendo procurado estão solteiros no momento, ambos concordaram em ao menos se encontrar, mas a pessoa que está sendo procurada pode não saber que quem a procurou deseja retomar o antigo amor.

Ele ou ela pode rejeitar a tentativa -diante da câmera- e conseqüentemente o drama. Tem havido um bocado de lágrimas, mas os espectadores freqüentemente torcem por um final feliz, disse Nancy Lavin, vice-presidente de produção de programação diurna do TLC.

"É incrível as pessoas não apenas correrem o risco de serem rejeitadas, mas fazerem isto na TV", disse Lavin. "É de partir o coração quando a outra pessoa diz não." Ainda assim, após um episódio particularmente doloroso, a buscadora rejeitada disse que ficou feliz por ter tentado. "Pelo menos o caso foi resolvido e ela pôde seguir em frente", disse Lavin.

"Não" seguir em frente é o que significa procurar amores perdidos -e as pessoas têm feito isto "desde a Idade da Pedra", disse Michael Smith, presidente e executivo-chefe do Classmates.com, a maior rede de Internet do gênero, com 38 milhões de membros. "O que mudou é que há muito mais meios de se reencontrar."

Charlie e Carlyn Bailey, ambos sexagenários, se casaram recentemente após encontrarem um ao outro no Classmates.com -43 anos depois de se formarem no colégio em Porterville, Califórnia. Eles se casaram com outros, se mudaram, tiveram filhos. Ele se divorciou; ela se divorciou e enviuvou.

"Ainda é difícil de acreditar; muitas vezes nos sentamos e pensamos que se isto tivesse acontecido dez anos atrás -sem Classmates.com, sem computadores- só por puro acidente teríamos nos reencontrado", disse Charlie Bailey. "Seria fantástico descobrir o que teria acontecido naquela época, mas estou muito feliz agora, e não me importo."

Por que as pessoas procuram por seu passado?

"Elas estão à procura de relacionamentos significativos baseados em laços comuns e experiências compartilhadas", disse Smith. Para muitas pessoas, ele disse, isto é mais atraente do que usar a Internet como serviço de encontros para se envolver com estranhos.

Steve e Patsy Ford de Waldorf, Maryland, ambos com 37 anos, não se viam desde o colégio em Chicago. Ele era apaixonado por ela na época, mas ela não aceitava sair com ele. Dezessete anos depois, eles se reencontraram no Classmates.com quando ambos estavam divorciados; ele estava na Força Aérea e ela estava lecionando em Barcelona. Eles se casaram em 2003 e agora são pais de uma menina.

"Eu adoraria ter sido o primeiro amor dela, o sujeito na primeira lua-de-mel. Pense em 'Madame Butterfly'. Pense em 'O Morro dos Ventos Uivantes'. Pense em um zilhão e filmes, de 'Casablanca' a 'Doce Lar' e 'Diário de uma Paixão'."

Celebridades não são imunes à busca pelo amor perdido: bem antes de Jennifer Lopez e Marc Anthony, houve Elizabeth Taylor e Richard Burton, Robert Wagner e Natalie Wood, Melanie Griffith e Don Johnson.

Andie MacDowell voltou para sua cidade natal para se casar com alguém que conheceu na escola. Depois que o ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, deixou sua segunda esposa, a atriz e jornalista Donna Hanover, ele se casou com seu amor do colégio; a banda tocou "My Boyfriend's Back" (meu namorado está de volta) na recepção.

E não se esqueça do mais famoso casal reunido de amor perdido de todos os tempos: o príncipe Charles e Camilla Parker Bowles, que recentemente se mudou para o palácio dele.

O futuro livro de Hanover, "My Boyfriend's Back: Second Chance Love" (meu namorado está de volta: segunda chance no amor), que será lançado para o Dia dos Namorados do próximo ano, explora a psicologia destas reuniões.

"As pessoas ficam surpresas com a intensidade de seus sentimentos, mas estão ligados a identidades entrelaçadas", disse ela. "Você sente que esta pessoa ama quem você realmente é, antes do sucesso e do dinheiro. Você não se preocupa tanto com propósitos ocultos. É uma combinação de conforto com o familiar e a emoção da novidade."

Duras desilusões

Nancy Kalish, uma psicóloga da Universidade Estadual da Califórnia, em Sacramento, tem estudado amores perdidos reunidos por mais de 10 anos. Autora de "Lost & Found Lovers: Facts and Fantasies of Rekindled Romances" (amores perdidos e encontrados: fatos e fantasias de romances reatados), ela disse que o número exato de tais casais é incerto, mas quase certamente é grande e está crescendo; sua própria base de estudo dobrou de 1.000 casais para mais de 2 mil.

O problema, ela disse, é que a Internet tornou a procura fácil e casual, quando deveria ser levada mais a sério. Nem sempre são flores quando antigos amores se reúnem, especialmente quando ainda estão casados. A maioria não tem a intenção de trair, apenas quere dizer "oi" para um antigo amor.

"As pessoas se enganam ao pensar que bons casamentos são imunes ao retorno de antigos sentimentos", disse Kalish. "Mas apenas dizer 'oi' não funciona a menos que você queira correr o risco de romper um casamento. As pessoas deveriam ser mais cautelosas; elas precisam pensar: 'Será que posso lidar com o que vier a acontecer?'"

Não foi um "felizes para sempre" para Teri McCloskey, 47 anos. Quando seu namorado do colégio entrou em contato com ela quase 30 anos após a formatura deles, em 1975, ela estava divorciada e morando em Maryland.

Ele disse que estava em um casamento infeliz e vivendo na Flórida. Por alguns meses, eles se encontraram com freqüência e passaram horas ao telefone.

"Eu acreditava que éramos almas gêmeas, destinados a ficarmos juntos para sempre", disse McCloskey. Então ele telefonou para dizer que estava voltando para sua esposa. "A dor e o sofrimento têm sido insuportáveis. Se tivesse que fazer tudo isso de novo, eu não faria. Pensar que podia ter 18 anos novamente, ora, foi muita ingenuidade."

O amor é uma reação química?

Mas talvez não. Talvez tudo seja por causa da química do cérebro. Kalish disse que pesquisas recentes sugerem que o amor adolescente pode ficar gravado no cérebro e pode ser redespertado mesmo décadas depois. Um estudo encontrou caminhos no cérebro adolescente que se acendem quando eles estão apaixonados -de fato, o efeito do amor no cérebro pode ser tão viciante quanto uma droga.

A lição para os pais, disse Kalish, é serem cuidadosos ao romperem um romance adolescente apenas porque não "gostam" do namorado ou da namorada. O amor interrompido pode ser algo poderoso muitos anos depois.

"As pessoas tendem a achar que esses romances não são reais, mas são", disse ela. "Deixe-os em paz, talvez ela aceitará sua opinião, talvez não, mas terá que ser uma decisão dela." Sites e Reality shows da TV permitem o reencontro de casais que não se vêem há anos George El Khouri Andolfato

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