EUA insistem no mito do comandante-em-chefe nas eleições 2004

Susan Page
Em Gettysburg, Pensilvânia

Na primeira eleição presidencial desde os ataques de 11 de setembro, os norte-americanos estão prestando novamente atenção à questão do comandante-em-chefe. Após uma década na qual os assuntos de segurança nacional perderam importância nas campanhas presidenciais, a questão da defesa dos Estados Unidos está disputando com a economia o status de assunto mais importante nas mentes dos eleitores.

Embora os estrategistas da campanha do presidente Bush costumassem pensar que o debate sobre quem seria o melhor comandante-em-chefe fosse garantir a sua reeleição, isso não parece mais ser tido como certo.

"Antes não estávamos tão preocupados com a guerra ao terrorismo", opina Debbi Larsen, 50, professora da primeira série e eleitora de Bush, de Fort Worth, Texas, que está visitando esta cidade histórica da Guerra Civil com o marido e a filha de 19 anos. Ela diz que agora essas questões eclipsaram as preocupações com o seguro saúde e a educação, que estavam no centro de campanhas recentes.

Matthew Dowd, principal estrategista de campanha de Bush, diz que a idéia de que o atual presidente é um líder forte -particularmente quando se trata de garantir a segurança do país- é a mais facilmente assimilada pelos eleitores. E a história também está do lado de Bush: da Guerra de 1812 ao conflito no Vietnã, nenhum presidente que buscou a reeleição em tempos de guerra perdeu.

Mas, pela primeira vez no espaço de uma geração, os democratas tentam reverter a seu favor a vantagem dos republicanos nas questões de segurança nacional. O senador por Massachusettts, John Kerry, venceu as disputadas primárias devido, em grande parte, ao fato de ter apresentado um currículo mais substancial que os dos seus principais adversários quanto a essa questão. A plataforma do partido inclui o linguajar mais enérgico sobre segurança nacional em décadas.

E na Convenção Nacional Democrata, na semana que vem, Kerry será apresentado pelo colega veterano do Vietnã, Max Cleland, cercado pelos soldados que serviram com ele em uma lancha de combate, e apoiado por generais reformados. Na terça-feira, quando a plataforma estiver sendo discutida, Kerry estará fazendo campanha em Norfolk, Virgínia, tendo ao fundo belonaves da Marinha.

Porém, os republicanos estão atacando o currículo de Kerry. Eles dizem que a liderança de Bush é imprescindível em um período tão perigoso. "Se os Estados Unidos mostrarem fraqueza ou incerteza nesta década, o mundo vai descambar para a tragédia", alertou o presidente na semana passada em um comício em Green Bay, Wisconsin.

A maior parte das propagandas de TV da campanha de Bush, no valor de US$ 85 milhões, se concentra em advertir que Kerry carece da estabilidade e firmeza exigidas pela presidência. Essas propagandas trazem imagens de Kerry falando sobre a liberação de verbas para a campanha no Iraque: "Eu na verdade votei a favor dos US$ 87 bilhões antes de votar contra essa medida". Os republicanos citam agora a crítica de Kerry à guerra, após terem votado pela sua autorização há dois anos, como um exemplo de tolice.

"O mantra em 92 [quando Bush pai perdeu a eleição para o democrata Bill Clionton] foi 'É a economia, idiota'", explica Peter Feaver, cientista político e diretor do Instituto Triângulo para Estudos de Segurança, da Universidade Duke. "Mas agora a segurança nacional realmente importa", afirma. "É um assunto central para ambas as campanhas".

Quatro anos atrás, quando uma pesquisa Gallup pediu aos eleitores que apontassem os dez problemas mais importantes com os quais se depara a nação, nem um único tópico relativo à segurança nacional, política externa ou defesa fez parte da lista. No topo ficaram a ética e o declínio da família. A seguir vieram a criminalidade, a educação e a pobreza.

Agora, o problema número um é a guerra no Iraque. O terrorismo vem em terceiro lugar. A segurança nacional em décimo. Os ataques de 11 de setembro, que mudaram tanto os Estados Unidos, também remodelaram a política presidencial do país.

Uma questão de confiança

Entrevistas na Pensilvânia e em Ohio mostram que os eleitores estão indecisos quanto a quem é mais confiável para comandar as forças armadas e garantir a segurança de suas famílias. A questão ecoa em Gettysburg, local da batalha mais sangrenta da Guerra Civil.

Um presidente de tempos de guerra, Abraham Lincoln, fez aqui o seu discurso clássico sobre o sacrifício e a coragem dos soldados. Um século mais tarde, um outro presidente de um período de conflito, Dwight Eisenhower, veio para cá quando deixou o cargo; a sua fazenda está agora aberta à visitação de turistas. O bucólico retiro para os presidentes em exercício, Camp David, em Maryland, fica a 36 quilômetros daqui.

Os ataques de 11 de setembro ainda estão vivos nas mentes dos eleitores. "O presidente Bush de fato tomou providências após o 11 de setembro", diz Cindy Gregg, 51, professora primária de música de Belle Vernon, Pensilvânia, enquanto caminha com o marido entre os túmulos do Cemitério Nacional dos Soldados. "Eu confio nele".

Mas Rebecca Kowaloff, 20, de Northboro, Massachusetts, diz que a decisão do presidente Bush de invadir o Iraque fez com que aumentassem as ameaças aos Estados Unidos. Na Praça Lincoln, no pequeno centro de Gettysburg, ela usa bermuda e camiseta, mas veste por cima desses trajes um vestido longo no estilo da época da Guerra Civil para atuar em uma simulação do conflito que atraiu milhares de pessoas à cidade.

"Não aprecio a forma como ele fez de nós um inimigo do resto do mundo", afirma, referindo-se a Bush. Cinco presidentes disputaram a reeleição em períodos de guerra. (Dois outros, Harry Truman e Lyndon Johnson, preferiram não concorrer, em parte devido à controvérsia sobre as guerras na Coréia e no Vietnã).

Em 1864, Lincoln disse aos eleitores que "é melhor não pular do cavalo quando se está cruzando um rio". Franklin Roosevelt reinventou esse slogan em 1940 e em 1944: "Não mude de cavalo em meio à correnteza". Bush não utilizou esse argumento, mas este está trabalhando a seu favor em meio a certos eleitores.

Daniel Goddard, 43, engenheiro aeroespacial de Miamisburg, Ohio, votou em Al Gore em 2000. Mas desta vez ele está se inclinando para Bush, "especialmente porque agora estamos em tempo de guerra -e não é só a guerra no Iraque, mas toda uma guerra contra o terrorismo". Goddard participou de um grupo de discussão para eleitores de pensamento independente em Dayton, Ohio, na semana passada. O evento foi patrocinado pelo Centro Annenberg de Políticas Públicas, da Universidade da Pensilvânia.

"Este pode não ser o melhor momento para mudarmos de líder, já que estamos no meio do conflito", afirma.

Até mesmo os correligionários de Kerry elogiam a firmeza de Bush após o 11 de setembro. "Ele compartilhou do sentimento de cada um de nós, da forma como nos sentimos por sermos atacados com tanta selvageria", afirma Dana Bales, 54, eleitora de Bush em 2000, que agora se inclina para Kerry.

Embora Bush ainda conte com a maior parte da confiança dos eleitores quanto se trata do combate ao terrorismo, a vantagem que teve no passado com relação à questão do Iraque diminuiu em meio aos questionamentos sobre a guerra. O fato de não terem sido encontrados arsenais de armas de destruição em massa no Iraque e o número crescente de baixas de soldados norte-americanos incentivaram as críticas à sua decisão de
invadir o país.

Em uma pesquisa realizada no mês passado pelo USA Today/CNN/Gallup, a maioria dos norte-americanos disse pela primeira vez que a guerra foi um erro e que ela tornou os Estados Unidos menos seguros contra o terrorismo.

Na pesquisa, feita de 21 a 23 de junho, os eleitores disseram confiar mais em Bush do que em Kerry para administrar as responsabilidades de um comandante-em-chefe. Mas a sua vantagem, 51% a 43%, é muito pequena em se tratando de um presidente em exercício.

Quando se perguntou aos entrevistados se cada um dos candidatos seria capaz de lidar com tais responsabilidades, os dois contaram com avaliações positivas de 61% dos eleitores. "John Kerry já passou nesse teste junto à maioria dos eleitores", diz Mark Mellman, assessor de Kerry para pesquisas eleitorais.

Um ano atrás, os estrategistas de Bush disseram que a força da liderança do presidente nas questões de segurança nacional garantiria a sua reeleição, mesmo que a economia não se recuperasse. Agora esse quadro se inverteu: alguns desses mesmos assessores reclamam que a violência no Iraque está impedindo que as boas novas econômicas sejam reconhecidas pelos eleitores.

As últimas propagandas eleitorais de Bush enfatizam os seus "valores" em questões como o aborto. "A economia tem se comportado de forma muito imprevisível e a situação no Iraque está muito caótica para que se faça uma campanha em torno da questão do comandante-em-chefe ou sobre uma economia em franca recuperação", diz Rich Bond, ex-dirigente nacional republicano.

Ele disse que é por esse motivo que a campanha atualmente se concentra em "valores", embora espere que a questão da segurança nacional volte a ser um dos centros das atenções.

Em entrevistas nesses dois Estados onde a eleição é muito disputada, militantes republicanos dizem que uma eleição de Kerry seria um desastre. Já os militantes democratas garantem que Bush fez com que o país ficasse perigosamente sem rumo.

Os eleitores usam adjetivos conflitantes para descrever os candidatos. "Sinto que George Bush é forte, corajoso e determinado, mas acho que ele está no caminho errado com relação ao Iraque", diz Deborah Harris, 53, uma dona de casa de Dayton que votou em Bush em 2000 e que agora está indecisa. "Quanto a John Kerry, sei que ele é inteligente e mais ponderado, e que não age tão impulsivamente, mas não sei se é forte".

Nenhuma experiência é exigida?

Quatro anos atrás, George W. Bush era um governador no seu segundo mandato no Texas, com pouca experiência em política externa e questões de defesa. Mas o currículo mais substancial de Gore como senador e vice-presidente não pareceu importar.

"Essa foi uma das áreas nas quais os eleitores se sentiram um pouco desconfortáveis com relação a George Bush", diz Donna Brazile, gerente da campanha de Gore. "Mas não tínhamos o cenário do 11 de setembro para explorarmos".

Aquela eleição foi disputada durante aquilo que agora parece ter sido um curto interlúdio entre conflitos globais. O Muro de Berlim caiu em 1991, marcando o final da Guerra Fria. Só após o colapso das torres do World Trade Center, uma década depois, a maioria dos norte-americanos passou a acreditar que estava envolvida em uma luta de vida ou morte em todo o mundo.

Nas três eleições presidenciais durante aquele interlúdio, o candidato que aparentemente tinha o melhor currículo para ser o comandante-em-chefe jamais venceu.

Em 1992, a vasta experiência do presidente Bush pai em questões internacionais e a sua liderança durante a Guerra do Golfo Pérsico de 1991 não foram suficientes para derrotar o governador de Arkansas, Bill Clinton, apesar dos questionamentos quanto às tentativas de Clinton de evitar o recrutamento militar na Guerra do Vietnã.

Em 1996, as problemáticas relações de Clinton com o Pentágono, incluindo a polêmica quanto à presença de gays nas forças armadas e a forma como lidou com o envio de tropas à Somália e ao Haiti, não impediram uma vitória fácil sobre o ex-líder da maioria republicana no Senado, Bob Dole, um veterano condecorado da Segunda Guerra Mundial.

E em 2000, a maior experiência de Al Gore com questões de segurança nacional não foi um trunfo significante na sua disputa contra Bush, o candidato mais jovem.

Segundo os analistas, esta eleição é diferente. Bush se define como um "presidente da guerra". Ele fala freqüentemente a platéias compostas de militares, tendo atrás de si fileiras de soldados fardados. Bush invoca a memória do 11 de setembro -"um dia que jamais esquecerei", diz ele- e defende a invasão do Iraque como parte da guerra contra o terrorismo.

Na semana passada, o seu comitê de campanha divulgou uma carta elogiando-o, assinada por 21 militares que receberam a Medalha da Honra.

Por sua vez, Kerry fala regularmente sobre a sua atuação no Vietnã. Ele faz a sua campanha na companhia dos grisalhos companheiros da Marinha com quem serviu. Kerry fala também sobre os anos em que foi membro do Comitê de Relações Exteriores do Senado e do livro que escreveu antes do 11 de setembro sobre as ameaças globais aos Estados Unidos. Ele critica a forma como Bush lida com o conflito no Iraque, embora ainda não tenha revelado grandes diferenças na maneira como se comportaria agora quanto à guerra.

Segundo Walter Russell Mead, do Conselho de Relações Internacionais, ambos os candidatos precisam convencer o eleitorado. "Não creio que alguém duvide que, caso os eleitores acharem que um dos candidatos não tem condições de ser comandante-em-chefe ele não será eleito", diz Mead. País procura entre os candidatos aquele que melhor se encaixa no perfil de líder bélico Danilo Fonseca

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