Kerry mantém pequena vantagem sobre Bush, aponta pesquisa

Susan Page e
William Risser
Em Washington

John Kerry marcha rumo a uma triunfante Convenção Nacional Democrata na semana que vem contando com o sólido apoio dos democratas e com uma vantagem decisiva sobre o presidente Bush entre os eleitores no que diz respeito às questões econômicas, à saúde e à educação.

Mas a pesquisa conduzida por USA Today/CNN/Gallup revela que a fé dos eleitores no presidente Bush quando se trata do combate ao terrorismo está fortalecendo a sua posição em uma corrida presidencial que permanece essencialmente empatada.

Um fator favorável a Bush é a crença da maioria dos norte-americanos em que haverá um ataque terrorista em solo norte-americano nas próximas semanas ou meses. Kerry possui 47% das intenções de votos entre os prováveis eleitores (o voto nos EUA não é obrigatório), Bush 46% e o candidato independente Ralph Nader 4%. Entre o maior grupo de eleitores registrados, Kerry possui 47% dos votos, Bush 43% e Nader 5%.

A pesquisa, feita entre estas segunda e quarta-feira (de 19 a 21/07)ressalta os pontos que Kerry precisa enfatizar entre o pequeno grupo de eleitores que continuam abertos às argumentações dos candidatos, que perfazem 17% do eleitorado. Ele precisa convencê-los de que é um líder forte, que possui convicções inabaláveis e que tem um plano para administrar a guerra no Iraque.

Kerry pediu mais apoio internacional no Iraque e um papel maior da Organização das Nações Unidas (ONU), uma posição também defendida por Bush. O democrata garante que não retirará as tropas norte-americanas, e não anunciou nenhuma conduta que seja muito diferente daquelas da atual administração.

"Trazer a ONU, recuperar o respeito internacional -qual a diferença entre a sua plataforma e a de Bush?", pergunta o especialista em pesquisas do Partido Democrata, Doug Schoen. "Para onde ruma a política externa democrata? Para derrotar Bush é preciso apresentar políticas claramente articuladas. A população não sabe qual é a posição de Kerry nem para onde ele rumará se for eleito".

"Ele precisa dizer claramente como será o futuro sob uma presidência Kerry, e como nos conduzirá a esse futuro", diz Don Baer, que foi diretor de comunicações da Casa Branca no mandato do presidente Clinton.

O senador de Massachusetts, que está no seu quarto mandato, possui uma biografia valorosa, e que será exibida na próxima semana.

Um em cada quatro eleitores afirma que o fato de Kerry ter lutado no Vietnã é um estímulo para que votem no candidato democrata. Apenas um em dez eleitores diz que isso poderia ser um motivo para não votar nele.

"Devido à sua história nas forças armadas e ao fato de ter realmente combatido no Vietnã, ele seria mais equilibrado com relação ao conflito do Iraque e entenderia melhor a situação naquele país", diz Bob Muckensturm, 53, vendedor de equipamentos de Lancaster, Ohio, um dos que foram ouvidos pela pesquisa. "Isso lhe confere uma vantagem para avaliar a decisão de ir ou não à guerra".

Mas Candace Love-Murnan, 40, de Baltimore, diretora de atividades de uma instituição para idosos, diz que a determinação demonstrada por Bush após o 11 de setembro mais do que eclipsou as suas preocupações com as questões da saúde e da pobreza.

"Talvez nem todas as suas ações e decisões tenham sido corretas, mas acredito sinceramente que eram as que ele achava serem as melhores e que ele deu tudo de si para implementá-las", diz ela. "O terrorismo é uma grande questão. E Bush tem sido forte com relação a ela".

Já com relação a Kerry, ela diz: "Ele parece ser uma boa pessoa, mas não acredito que tenha tanta firmeza".

Uma personalidade presidencial?

Kerry convenceu 53% dos norte-americanos de que possui as qualidades pessoais e de liderança necessárias a um presidente. Cerca de 55% dos eleitores dizem o mesmo sobre Bush. Números praticamente iguais de eleitores disseram que cada um dos candidatos concorda com eles com relação às questões que vêem como as mais importantes -49% para Kerry, 47% para Bush.

Mas a grande vantagem de Kerry diz respeito às questões domésticas. Ele tem uma vantagem de 8% sobre Bush quando se pergunta aos eleitores qual dos candidatos administraria melhor a economia. Quando a pergunta diz respeito à saúde, essa vantagem é de 17%. Mesmo na questão de impostos, onde os republicanos geralmente ficam na dianteira, os dois estão basicamente empatados.

Com relação à guerra do Iraque, Bush tem uma liderança de 5%. Isso dentro da margem de erro da pesquisa, de três pontos percentuais para mais ou para menos.

A grande vantagem de Bush está na questão do combate ao terrorismo. Ele tem uma dianteira de 18 pontos percentuais sobre Kerry quando se pergunta ao eleitor quem faria um melhor trabalho nessa área. E essa é a questão mais importante para 22% dos eleitores, perdendo apenas para a economia e para a guerra.

Um dos motivos para que esse assunto tenha tanta relevância entre os eleitores é o fato de a maioria dos norte-americanos estar esperando um outro ataque terrorista nos Estados Unidos. Mais da metade dos entrevistados disse que é provável que haja um ataque dentro de semanas. Quase seis em cada dez entrevistados disseram que isso deverá ocorrer antes da eleição presidencial, ou mesmo no próprio dia da eleição.

Há mais confiança na capacidade do governo Bush em proteger os cidadãos norte-americanos do terrorismo (67%), do que na de uma potencial administração Kerry (60%).

Mas Bush apresenta vulnerabilidades significativas. A sua taxa de aprovação, de 49%, está abaixo do marco histórico de 50% desde abril. Nenhum presidente desde Harry Truman foi reeleito com índices de aprovação abaixo dos 50% a esta altura do ano eleitoral.

Poucos eleitores têm opiniões moderadas quanto a Bush. Em cada cinco eleitores que o aprovam, três dizem que sua aprovação é intensa. Entre os que o desaprovam, três em cada quatro dizem repudiar Bush intensamente. Isso é uma boa notícia para Kerry.

"John Kerry poderia plantar bananeira e cantar uma cantiga infantil que, ainda assim, os democratas votariam nele", afirma Larry Sabato, cientista político da Universidade de Virgínia. "O ódio do eleitor democrata a Bush garante isso".

De todos os eleitores, 48% dizem que o presidente merece ser reeleito. Índices de aprovação abaixo de 50% quando a questão é esta são também um sinal vermelho para os presidentes que estão ocupando o cargo.

Não importam quais sejam as suas próprias opiniões sobre Bush, os norte-americanos dizem que os líderes estrangeiros respeitariam mais Kerry. Uma maioria de 52% diz que os líderes de outros países não têm muito respeito pelo atual presidente. Mas 63% dizem que esses líderes respeitariam um presidente Kerry.

"Não temos amigos no mundo", opina Kenneth Green, 74, gerente de fábrica aposentado, de Odessa, Flórida, que foi entrevistado pela pesquisa USA Today. Ele apóia Kerry. "Acredito que, ao contrário de Bush, ele tem um pouco de compaixão pelo cidadão comum, da classe média para baixo".

E depois há aqueles eleitores que não gostam de nenhum dos dois candidatos. Bush? "Simplesmente não gosto da forma como ele está mandando os nossos garotos para o exterior para morrer", critica Dorothy Woodby, 72, de London, Kentucky. "Ele não deveria meter o nariz no Iraque e começar uma guerra. Acredito que desde que ele se tornou presidente os pobres estão enfrentando mais dificuldades".

E quanto a Kerry? "Eu desligo a televisão quando o senador Kerry aparece na tela. Com base no que ouvi a seu respeito, ele não é melhor que Bush. Ele fala uma coisa em um dia e algo diferente no dia seguinte".

Definindo os candidatos

As convenções se constituem em um momento no qual muitos norte-americanos que não são politicamente ativos começam a dar atenção à campanha presidencial. É a hora em que os candidatos podem se definir e redefinir.

Em 2000, Al Gore era uma figura familiar como vice-presidente havia oito anos. Mesmo assim, o número de eleitores que disseram acreditar que ele era um homem que tomaria as atitudes certas mesmo se estas fossem impopulares, que conduziria o país para a direção correta e que possuía as qualidades necessárias a um presidente aumentou cerca de dez pontos percentuais ao término da convenção de Chicago.

Para Bill Clinton em 1992, um governador de Arkansas que era bem menos conhecido, a convenção foi ainda mais decisiva. O número de eleitores que disseram que ele traria as mudanças necessárias ao país aumentou 20 pontos percentuais após a convenção realizada naquele ano em Nova York. Antes do início da convenção, 41% dos norte-americanos tinham uma imagem positiva em relação a Clinton. Depois dela, esse número aumentou para 63%.

Kerry com certeza será bem recebido pelos delegados da convenção em Boston. A sua missão por lá será persuadir os eleitores que assistem à televisão em suas casas:

  • que ele não é uma pessoa que muda constantemente de opiniões. A maior fraqueza de Kerry no que diz respeito a características pessoais é a idéia de que ele muda de posição por razões políticas. Esse tem sido um tema constante da propaganda televisiva de US$ 85 milhões de Bush. O atual presidente tem uma vantagem de 22 pontos percentuais sobre Kerry quando se pergunta ao eleitor qual dos dois candidatos tem convicções sólidas; e quando se pergunta quem seria um líder forte e decisivo, a vantagem de Bush sobre Kerry é de 17%.

  • que está sintonizado com os eleitores com relação às propostas políticas. Um pouco menos da metade dos eleitores concorda com Kerry quanto às questões que consideram mais importantes. Embora 20% dos eleitores digam ser liberais, 46% afirmam que Kerry é um político liberal. (Por outro lado, 39% se dizem conservadores, enquanto que 67% identificam Bush dessa forma).

  • que ele tem um plano para a questão do Iraque. Um em cada três eleitores diz que ele possui tal plano. A posição de Bush é mais favorável quanto a esse assunto, já que 45% dos eleitores acreditam que ele possui tal plano. Isso, entretanto, ainda não se constitui na maioria.

    "Bush definiu John Kerry antes que Kerry tivesse a chance de se definir", explica Sherry Bebitch Jeffe, cientista política da Universidade do Sul da Califórnia. "Kerry não respondeu de forma suficientemente rápida. Portanto, agora ele precisa se movimentar de forma realmente enérgica para se redefinir, afastando-se da definição feita pela campanha do seu adversário -um sujeito de posições inconstantes, um liberal, frio, distante, "não é um de nós".

    "É em torno disso que girará a convenção", afirma Jeffe. "Reintroduzir John Kerry da forma que John Kerry deseja ser percebido pelo eleitorado".

    Colaborou Martin Kasindorf Último levantamento antes da convenção partidária dá 47% ao candidato democrata Danilo Fonseca
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