Plástica pode tornar pesadelo o sonho de beleza

Robert Davies

Quando criança, Kacey Long sonhava em sair da sua pequena cidade natal, Ennis, no Texas, imaginando ser uma empresária. "Eu sonhava em trabalhar em um escritório", conta Long, 22. "Fiz com que todas as minhas metas convergissem para possibilitar que esse sonho se tornasse realidade".

Enquanto estudava gerência de recursos humanos na Universidade Baylor, Long decidiu mudar o seu visual. Ela adotou o padrão de beleza exibido por Julia Roberts no filme ganhador de um Oscar, Erin Brockovich, no qual a atriz interpreta uma executiva famosa.

Assim, aos 19 anos, Long decidiu colocar implantes de silicone nos seios. "Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para melhorar a minha aparência", conta ela.

Com tal decisão, ela ingressou no grupo de milhares de jovens que estão alterando cirurgicamente a aparência física a cada ano. Adolescentes ainda mais novas que Long era à época em que fez os implantes no seio estão passando por cirurgias para aumentar os seios, remodelar o nariz e as orelhas, e esticar a pele.

Em 2003, quase 336 mil adolescentes com menos de 19 anos passaram por algum tipo de cirurgia plástica, o que representou um aumento de 50% com relação a 2002. Os defensores dos direitos dos pacientes à segurança acreditam que muitas das adolescentes que passam por cirurgias estão se arriscando desnecessariamente, correndo o risco de sofrerem ferimentos ou até mesmo de morrerem. As adolescentes enfrentam diferentes obstáculos ao tomarem uma decisão como essa, dizem os especialistas. Elas freqüentemente manifestam insegurança e inocência com relação aos riscos médicos. E, literalmente, ainda não terminaram de crescer.

Mas o número de meninas com menos de 19 anos que se submetem a cirurgias para aumentar o volume dos seios está aumentando -houve um crescimento de 24% de 2002 a 2003. A autorização dos pais é necessária para pacientes com menos de 18 anos. Há relatos de meninas que receberam os implantes de silicone como presente de formatura do segundo grau.

As cirurgias plásticas, entretanto, como qualquer outra cirurgia, podem não dar certo, como aconteceu com Long. A sua decisão foi fácil. Uma amiga indicou o cirurgião. Ela era capaz de se imaginar mais feliz após a cirurgia, e já tinha quase a metade dos US$ 4.500 pedidos pelo médico, que concordou que Long pagasse a outra metade em prestações.

Assim, ela se tornou uma das cerca de 220 mil mulheres que passaram por cirurgia plástica dos seios em 2001. "Eu desejaria não ter passado pela operação", lamenta Long, que se começou a se sentir adoentada e fraca alguns meses após um cirurgião plástico ter aumentado os seus seios para o tamanho "D". "Fiquei incapacitada de levantar os braços. Em um ano a cirurgia me tornou inválida".

Embora pesquisas não tenham provado que os implantes podem causar doenças sérias, Long diz que, no seu caso, foi diagnosticado envenenamento sistêmico com silicone derivado das estruturas que envolvem os implantes salinos, artrite reumatóide, fibromialgia e síndrome da fadiga crônica.

Os seus implantes foram removidos em setembro -em uma cirurgia que foi documentada pelo programa da MTV "I Want a Famous Face" ("Eu Quero Ter uma Face Famosa"), que acompanha pacientes jovens que se submetem a cirurgias plásticas.

Long garante que tem sorte em estar viva. "Todas as vezes que alguém se submete a anestesia, corre o riso de não acordar". Não há registros oficiais das mortes ou lesões causadas por cirurgias plásticas, mas, segundo um estudo, um em cada 50 mil pacientes que se submetem a lipoaspiração morre.

De maio de 2003 a janeiro de 2004, cinco pessoas morreram na Flórida após se submeterem a cirurgias plásticas. E, neste ano, em Nova York, duas mulheres -uma delas mulher de um cardiologista e a outra, Olívia Goldsmith, autora do livro "The First Wives Club" ("O Clube das Primeiras Esposas")- também morreram após cirurgias plásticas.

Entendendo os motivos

"O grande problema com as adolescentes é que elas estão sendo operadas no período mais tumultuado pelo qual passam os seus corpos. Elas podem não reconhecer o caráter permanente daquilo que estão fazendo", explica David Sarqer, psicólogo do Centro de Aparência Humana da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia.

Dennis Hurwitz, cirurgião plástico e professor de clínica médica da Universidade de Pittsburgh, concorda.

"Os cirurgiões plásticos são psiquiatras que fazem operações", diz ele. "Os bons cirurgiões plásticos conversam com as suas possíveis pacientes para entender a raiz do problema que as faz querer mudar de aparência, o que é especialmente importante em se tratando de adolescentes. É algo que exige muito esforço".

Ele diz que convence dois terços das adolescentes que o procuram para fazer uma cirurgia plástica de que elas não precisam passar por mudanças. "As adolescentes correm o risco de tomarem decisões das quais se arrependerão. É preciso reconhecer esse comportamento impulsivo", afirma.

Uma das suas pacientes, Jennifer, fez uma operação para remover um calombo do nariz aos 18 anos. O nariz da adolescente sofreu uma lesão e a sua respiração ficou prejudicada após um acidente quando atuava como animadora de torcida. Agora, com 20 anos, ela estuda para ser farmacêutica. Jennifer pediu que o seu sobrenome não fosse publicado para preservar a sua privacidade.

"É uma experiência muito traumática", diz Jennifer. "A cirurgia não deve ser usada para a busca da perfeição. A sociedade de hoje encara a cirurgia plástica como coisa trivial. Mas não é algo que se deva fazer apenas porque queremos ter um corpo perfeito".

Hurwitz admite, e outros especialistas concordam, que a maioria dos cirurgiões plásticos não passa muito tempo investigando os motivos dos pacientes.

"Ninguém vai ouvir muitos cirurgiões plásticos dizendo aos pacientes que estes não precisam realmente da cirurgia", diz Diana Zuckerman, presidente do Centro Nacional para Pesquisas de Políticas sobre as Mulheres e a Família. "É claro que quando a paciente bate às suas portas, os médicos lhes dizem tudo o que podem para persuadi-la a fazer a cirurgia".

Zuckerman quer a adoção de regras para proteger as adolescentes da cirurgia plástica. "Os implantes de seios não são aprovados para ninguém com menos de 18 anos, mas qualquer médico pode realizar legalmente a cirurgia", diz ela. "Gostaria de ver a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos adotar a política de dizer que achamos que os nossos médicos não deveriam fazer cirurgias plásticas em pacientes com menos de 18 anos".

Na hora de dizer se as adolescentes são muito jovens para se submeterem a cirurgias para aumento dos seios, os especialistas discordam. Zuckerman diz que as garotas deveriam ser encorajadas a esperar o fim do seu processo de desenvolvimento físico antes de passarem por esse tipo de cirurgia.

"Muitas adolescentes ganham peso durante o primeiro ano da faculdade", diz ela. "Caso esperassem apenas alguns anos, poderiam ter naturalmente seios maiores".

Long, que atualmente tem seios um pouco maiores do que eram sem implantes, pergunta: "Por que o meu médico não me disse que eu ainda estava em fase de crescimento?"

Mas Hurwitz diz que algumas garotas que concluem o ensino médio deveriam ter permissão para se submeter a implantes de silicone nos seios. "A transição da escola para a faculdade pode ter um grande impacto", afirma ele.

"Não devemos simplesmente descartar a cirurgia como sendo uma frivolidade. Uma adolescente que apresente pouco ou nenhum desenvolvimento dos seios e que deseja levar uma vida de estudante universitária ou ter um relacionamento, não deve ser impedida de fazer a cirurgia devido a sua idade ou imaturidade. Isso é algo que pode ser remediado por meio de decisões ponderadas".

Nem todo mundo é "realista"

Walter Erhardt, um cirurgião plástico de Albany, Georgia, diz que algumas adolescentes são mais preparadas que os adultos. "Procuramos maturidade e expectativas realistas", diz ele. "Quando algum desses dois fatores está ausente, acredito que tenho um motivo para me negar a operar a pessoa em questão, mesmo que ela tenha 40 ou 50 anos".

Como exemplo, ela cita Martha, 19, uma paciente que se submeteu à cirurgia para implante de silicone nos seios aos 18 anos. Martha, que também não quis que o seu sobrenome fosse publicado, diz acreditar que a idéia da operação lhe veio à mente porque "a cirurgia de aumento dos seios é comum na família". Tanto a mãe quanto a tia se submeteram a implantes.

O seu pai é médico, de forma que quando ela percebeu que não estava desenvolvendo seios perceptíveis após a puberdade, uma anomalia que era parte de uma distúrbio alimentar, passou a fazer pesquisas sobre aumento dos seios em periódicos e sites médicos.

"Se penso muito sobre algo, posso tomar uma atitude precipitada. Mas sopesei os riscos", conta Martha. Ela também levou em conta as aflições de uma colega que passara pela cirurgia dois anos antes.

"Ela me disse o quanto se arrependia e que se preocupava com o fato de não ser algo natural. Segundo ela, a cirurgia não lhe parecia ser uma coisa correta e se pudesse voltar atrás, não a teria feito", diz Martha.

Após períodos de dúvida e mais pesquisas, ela decidiu se submeter à cirurgia. O seu pai pagou os US$ 3.000 pela operação, e ela acordou dolorida, mas satisfeita. "Passei a ter uma aparência proporcional".

O seu conselho para outras adolescentes: "Não aceitem simplesmente as histórias que ouvirem. E confiem apenas nos cirurgiões autorizados pela Comissão Americana de Cirurgia Plástica. Isso vai dizer se eles são suficientemente bons e confiáveis para nos abrir com um bisturi", diz ela.

Influência da TV

Os reality shows são em parte responsáveis pela popularidade das cirurgias plásticas entre os norte-americanos. Milhões de pessoas se sintonizaram no programa "The Swan", da Fox, e "Extreme Makeover", da ABC (que, no Brasil, passa aos domingos no canal pago Sony), para assistir àquilo que os médicos chamam de transformações simplistas e irrealistas de pessoas comuns.

Mostrando o lado sombrio

Mas nem todos os programas de TV costumam dourar a pílula. O documentário "I Want a Famous Face" da MTV, que mostrou a experiência negativa de Long com os implantes de seios, revela sem retoques o lado negativo dessas cirurgias, em uma tentativa de ajudar as adolescentes a tomarem a decisão correta.

"Existe freqüentemente uma recuperação longa e dolorosa", diz Dave Sirulnick, vice-presidente-executivo do Departamento de Notícias e Produção da MTV. "Não há garantias de sucesso. E tampouco de que a paciente consiga uma aparência próxima àquela que tem em mente. Tivemos a impressão que os telespectadores jovens da MTV simplesmente não estavam entendendo isso".

Assim, a equipe do documentário acompanhou pessoas que já tinham decidido fazer a cirurgia na esperança de se parecerem com celebridades, como foi o caso de Long, que queria ficar parecida com Julia Roberts. E elas contaram as suas histórias -até mesmo as partes sombrias.

"Para a maioria das pessoas, isso soa como alarmismo", diz Sirulnick.

"Alguns diriam que é uma atitude grotesca da nossa parte. Mas quando mostramos o lado bom e o ruim as adolescentes contam com uma visão mais realista da questão. Não somos nem contra nem a favor do procedimento; estamos simplesmente dizendo que isso é algo que está acontecendo. Muitas jovens não conhecem o risco real. A cirurgia plástica passou a ser vista como coisa totalmente normal. Está impregnada na nossa cultura", explica Sirulnick.

Long gosta de contar a sua história a outros, especialmente aos jovens. "Quanto mais jovens somos, menos sabemos sobre medicina", diz ela. Arthur Aaron Levin, diretor do Centro para Consumidores de Produtos Médicos, em Nova York, faz uma outra pergunta às pacientes que entram naquilo que ele chama de "mares desconhecidos" da medicina, o território dos erros médicos: "Será que isso vale a sua vida?". Nem todas as fantasias adolescentes são realizadas por cirurgia Danilo Fonseca

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