Artistas farão turnê contra George Bush nos EUA

Elysa Gardner

Nesta quarta-feira (4/8), Bruce Springsteen, as Dixie Chicks, R.E.M., John Mellencamp e outros astros da música pop anunciaram uma série de concertos para promover "a necessidade de mudança na direção deste país".

A turnê "Vote for Change" (voto por mudança), como é chamada, é a última salva disparada pela comunidade da música, mobilizada pelo debate em torno do Iraque e uma eleição que promete ser uma das mais fervorosamente acompanhadas na história.

Outras iniciativas apoiadas por músicos vão da campanha não-partidária "Vote ou Morra" de P. Diddy e esforços semelhantes por meio de concertos de muitas bandas, incluindo a banda de rock cristã Third Day, que apóia Bush, até os Music Row Democrats de Nashville, que têm realizado regularmente shows de "Kerry-oke".

Muitos outros músicos -The Roots, Nellie McKay, Beastie Boys, Merle Haggard, Green Day, Kanye West e alguns dos artistas envolvidos no "Vote for Change"- gravaram sua dissensão.

Mas até o momento, o mais próximo sucessor dos sucessos de rádio da era do Vietnã, como "Eve of Destruction" de Barry McGuire (Nº 1 em 1965), "War" de Edwin Starr (Nº 1 em 1970), e "What's Going On" de Marvin Gaye (Nº 2 em 1971) por enquanto é o single "Where Is the Love" do Black Eyed Peas, de 2003, que está entre os 10 mais das paradas e apresenta passagens como: "Nós ainda temos terroristas vivendo aqui nos Estados Unidos/A grande CIA..."

"Why" do rapper Jadakiss -que pergunta: "Por que Bush derrubou as Torres?", uma letra que, como ele explica, condena hiperbolicamente um líder "que não estava lá para nos defender como poderia"- ainda precisa chegar às 40 mais das paradas.

Em um concerto recente em benefício da campanha presidencial do senador democrata John Kerry, John Mellencamp apresentou uma canção sobre Bush, "Texas Bandito", com letras como: "O que é uma vida para ele se ele pode explorar um pouco de petróleo?"

Mas o roqueiro de Indiana, cujo último CD continha um ataque semelhante, "To Washington", não tem ilusão sobre como "Bandito" se sairia como single. "Os artistas são desencorajados a fazer coisas assim", disse ele. "No mundo de hoje, onde foram parar todas as músicas de protesto?"

Ele não é o único que está perguntando. Músicos e pessoas da indústria fonográfica apontam para uma confluência de fatores, de decisões tomadas nas rádios e gravadoras até os próprios artistas.

Poderia ser argumentado que muitos dos artistas contrários ao governo -os artistas de música folk, aqueles com mais de 40 anos e os roqueiros mais radicais- teriam dificuldade de penetrar nas paradas independente de seu ponto de vista político. Eles simplesmente não são considerados comerciais o bastante.

Rádio: afastando a dissensão?

"Meu trabalho é tocar sucessos", disse Dan Marson, diretor de programação da Waks-FM de Cleveland. "Se as letras são anti-Bush, isto não é levado em consideração."

O atual cenário fragmentado das rádios promove formatos direcionados, optando por músicas semelhantes -e geralmente promovendo uma visão de mundo consistente.

Os sentimentos antiestablishment encontraram espaço nos formatos de rock moderno, enquanto a rádio urbana (onde "Why" de Jadakiss ocupa o 11º lugar nas paradas nesta semana) "tem sido a mais aberta à dissensão em relação ao Iraque", segundo Sean Ross, da Edison Media Research.

Canções patrióticas e, no ano passado, pró-guerra como "Have You Forgotten" de Darryl Worley prosperaram nas rádios country. Poucas canções cruzam para outros formatos, e os artistas desafiam o ponto de vista predominante a seu próprio risco.

As Dixie Chicks aprenderam isso do modo difícil, é claro, quando os fãs de música country e as rádios boicotaram o grupo depois que a cantora Natalie Maines criticou o presidente Bush em Londres, no ano passado. Apesar da presença de outras vozes liberais em Nashville, ainda não surgiu nenhum grande sucesso country "de esquerda", disse o consultor Joel Raab. "Os fãs não tolerariam."

Alguns que apóiam o presidente temem as conseqüências de falarem ou cantarem o que pensam. "Endossar Bush não está necessariamente na moda", disse Tai Anderson, o baixista do Third Day. "As pessoas querem nos rotular, como: 'Você é um fanático fundamentalista de direita'. Diretores de programação mais liberais podem não querer nos tocar."

Muitos artistas temem que gigantes da mídia como Clear Channel e Cumulus podem temer atrair fogo da Comissão Federal de Comunicações (FCC) -que passou a reprimir material "indecente" depois de Janet Jackson ter despido o seio no Super Bowl- caso se aventurem em território arriscado.

"Durante o Vietnã, qualquer sujeito com uma emissora de rádio privada podia tocar 'Masters of War'", disse Mellencamp. "Agora as empresas que são proprietárias de todas estas emissoras não podem arcar em ofender ouvintes e anunciantes."

Don Henley disse: "Esta é uma época das mais vazias e triviais de que posso me lembrar na música pop. E parte disto se deve à rádio de propriedade corporativa".

Adam Horovitz dos Beastie Boys teme que o expurgo da "indecência" do ar poderá impedir a liberdade de expressão. Mas, ele apontou, "pessoas que nunca antes se preocuparam com Howard Stern agora estão defendendo seu direito de liberdade de expressão".

O cantor/compositor Steve Earle tem uma faixa chamada "F the CC" em seu novo CD -um "disco antiguerra" chamado "The Revolution Starts... Now", que será lançado em 24 de agosto. Earle disse que a comissão ajudou a criar um clima no qual "as liberdades básicas estão sendo questionadas pela primeira vez desde a Guerra do Vietnã".

Um porta-voz do chefe da FCC, Michael Powell, um republicano, disse que Powell "tem em muitas ocasiões expressado preocupação com a consolidação das rádios".

Mas o comissário Michael J. Copps, um dos dois democratas entre os cinco membros da FCC, acha que há motivo para preocupação: "A consolidação (...) está colocando em risco a diversidade. As transmissões deviam encorajar opiniões conflitantes e pontos de vista antagônicos. Ao sacrificarmos isto, nós estamos colocando a democracia em risco."

Pelo lado corporativo, a porta-voz do Clear Channel, Lisa Dollinger, e o executivo da Cumulus, John Dickey, dizem que suas companhias encorajam os artistas a, nas palavras de Dollinger, "se expressarem livremente".

Mas Dickey acrescentou que aqueles que defendem pontos de vista controversos devem "esperar que sua popularidade e a venda de seus produtos sejam afetadas. O livre mercado se manifestará, e se os artistas estão interessados em proteger sua renda, eles responderão. Caso contrário, eles sofrerão as conseqüências".

Gravadoras estariam fugindo da luta?

Jenny Toomey, diretor do grupo de ação política Air Traffic Control, acredita que estas preocupações assustaram a indústria fonográfica. "Os artistas agora enfrentam pressão aberta e velada" para não serem muito provocativos, disse ela.

Isto transparece às vezes de formas sutis. "Shoot the Dog" de George Michael, uma canção que condena o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, por "dançar com Dubya (Bush)", foi excluída da versão americana do mais recente CD do cantor. E versões editadas de "Why" de Jadakiss, com a referência ao presidente removida, foram disponibilizadas para as rádios, apesar da maioria das emissoras estar executando a versão original.

Alguns artistas, e aqueles que os apóiam, apreciam uma controvérsia. Jimmy Iovine, presidente da Interscope Geffen A&M Records, cujo elenco de artistas inclui Jadakiss e Black Eyed Peas, insistiu que não teve reservas em lançar tanto "Where Is the Love" quanto "Why", e pretende promover este último como single.

"A poesia precisa ter pontas e farpas para transmitir sua mensagem", disse ele.

Esta parece ser a filosofia por trás do possível futuro single do Green Day, "Holiday", que apresenta esta letra: "Zieg heil ao gasista do presidente/Bombas lançadas são sua punição".

A controvérsia também pode colocar artistas quase esquecidos de volta ao mapa. O presidente e executivo-chefe da Artemis Records, Danny Goldberg, que trabalha com artistas politicamente francos como Earle e Rickie Lee Jones, disse que quando recentemente Linda Ronstadt irritou alguns fãs e a gerência do Aladdin Hotel, em Las Vegas, ao elogiar o filme "Fahrenheit 11 de Setembro" de Michael Moore, esta "foi a melhor cobertura de imprensa que ela recebeu em anos. Eu adoraria lançar um álbum de Linda Ronstadt agora. Ela é novamente contemporânea".

Internet

Para artistas cautelosos diante das várias restrições corporativas, a Internet pode ser um refúgio.

O Public Enemy se juntou a Moby para o single disponível por download "Make Love F-k War", também disponível em formato editado, livre de palavrões, em "Unity-The Official Athens 2004 Olympics Games Album".

Jackson Browne disse que provavelmente disponibilizará "material gratuito na Internet, porque não tenho tempo para resolver (problemas) com a gravadora".

O baixista do REM, Mike Mills, cita a "imediação" da Internet como motivo para banda ter lançado "Final Straw" online no ano passado (a canção aparecerá no novo álbum da banda, que será lançado em 5 de outubro), antes de colocar nas rádios outra canção de protesto, o não sucesso "Bad Day".

No final, disse Stone Gossard do Pearl Jam, "cabe ao artista fazer o que deseja fazer. Assine com uma gravadora que seja fiel a você e seus ideais. Há muita influência corporativa por aí canalizando as pessoas para regimes cada vez mais restritivos. Mas eu espero que os artistas apenas fiquem mais inspirados para compor grandes canções, canções que sejam tão poderosas que suas mensagens não poderão ser ignoradas". Aumenta o engajamento político de bandas e rádios americanas George El Khouri Andolfato

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