Tom Cruise é vilão barra-pesada em "Collateral"

Donna Freydkin

Agora com vocês Tom Cruise, o matador de aluguel. Pela primeira vez na carreira do astro, o bom-mocismo bilionário de Cruise fica em segundo plano. Em primeiro plano emerge a maldade impiedosa, em "Collateral", que estréia nesta sexta-feira (6/8) nos Estados Unidos e brevemente no Brasil. Nesse filme dirigido por Michael Mann, a estrela mais rentável do mundo do cinema interpreta um assassino charmoso, porém totalmente amoral.

Ele já viveu um vaidoso guru de relacionamentos do tipo mau caráter em "Magnolia" e um sedutor sanguessuga em "Entrevista com Vampiro". Mas "Collateral" é realmente a primeira atuação de Cruise como um vilão absoluto. O Tom que você verá em "Collateral" explode suas vítimas dizendo que a culpa é das balas e não dele, fazendo piadinhas antes mesmo dos cadáveres esfriarem.

"Ele é uma pessoa trágica, que criou o seu próprio destino", diz Cruise, de 42 anos, a respeito de seu personagem, Vincent. "Não acho que ele seja um cara feliz consigo mesmo".

Não resta dúvida de que Vincent seja um assassino frio e cruel. E isso é bom para Cruise. Assim como Tom Hanks e Denzel Washington, até que ele tem incluído na agenda desafios que o afastam da clássica imagem do rostinho bonito, famoso desde "Negócio Arriscado", de 1983.

Já estava na hora de o garoto dourado de Hollywood se arriscar um tanto mais, diz o historiador de cinema David Thomson, autor do "The New Biographical Dictionary of Film" (Novo Dicionário Biográfico dos Filmes).

"Ele tem uma espécie de juventude permanente associada à sua imagem, e Cruise precisa se livrar dela, até porque já está muito velho para manter essa imagem", acredita Thomson. "Esse filme só irá valorizar sua carreira. O que poderia feri-lo seria mais um 'Missão Impossível', em que ele seria o mesmo de sempre embora começando a parecer um tanto velho para o desempenho necessário".

Quer dizer então que Cruise poderá se sair bem interpretando um matador de aluguel?

Os especialistas acreditam que sim, lembrando de seu papel coadjuvante em "Magnolia", de 1999, como o abominável guru Frank T.J. Mackey, que lhe valeu sua terceira indicação ao Oscar. Esse desempenho foi considerado "o mais audacioso de sua carreira", pelo crítico da revista "Newsweek" David Ansen, e certamente ajudou o filme de perfil independente a faturar US$ 22,5 milhões (cerca de R$ 70 milhões) no mercado americano.

"'Magnolia' mostrou que ele pode ir além daquele tipo empático, bonzinho e sorridente que rendeu uma fortuna a Cruise", diz Thomson. "Ele realmente se soltou, num desempenho corajoso". Patricia Hanson, do American Film Institute, acrescenta: "Ali ele verdadeiramente fez surgir uma personalidade crua e poderosa".

Desde então, Cruise tem se envolvido com personagens mais complexos em filmes arrojados, como um playboy desiludido em "Vanilla Sky", de 2001, e um detetive obstinado em "Minority Report - A Nova Lei".

"Ele vem se tornando cada vez mais sombrio nos últimos anos, interpretando personagens que possuem um lado mais obscuro", diz Hanson. "Cruise está tentando fazer emergir esse aspecto de sua personalidade".

Certamente pode ser muito arriscado para um ator estabilizado enquanto protagonista, alguém adorado pelo público por interpretar um tipo específico de personagem -como os bons sujeitos campestres de Kevin Costner e os heróis indomáveis de Denzel Washington- de repente mudar de gênero.

Mas Thomson acredita que, se o talento do protagonista encontrar um papel mais arriscado e num filme de qualidade, o publico "irá gostar de se surpreender, ao encontrar os atores fora de sua rotina. Os espectadores podem adorar quando alguém muda do adorável para o desagradável".

Veja o exemplo de Anthony Hopkins, que se esmerou em silêncio antes de estourar em seu papel definitivo como o Dr. Hannibal Lecter, canibal e apreciador de vinhos Chianti em "O Silencio dos Inocentes" (1991), numa interpretação que valeu a Hopkins o Oscar de melhor ator.

E há também o precedente de Denzel Washington, especializado em soldados e policiais heróicos e estóicos, que faturou o Oscar de melhor ator com o papel de inspetor policial diabólico em 'Dia de Treinamento", em 2001.

Mas virar malvado não é necessariamente uma atitude que se transforma em sucesso de crítica ou estouro nas bilheterias. Tom Hanks, o intérprete de cidadãos comuns por excelência, foi aclamado por seu desempenho como um sofrido pistoleiro em "Estrada para Perdição" (2002), que faturou US$ 104,3 milhões e um criminoso falastrão na comédia de humor negro dos irmãos Coen " Matadores de Velhinhas" (2004), que faturou US$ 39,7 milhões.

Mas em termos financeiros, isso é pouco se compararmos essas cifras com as de "Náufrago" (2000), que arrecadou US$ 233,6 milhões com Hanks interpretando um cidadão comum que sobrevive a uma situação extraordinária.

Lembre-se também que Costner não funcionou bem nas mudanças radicais que engendrou em "Um Mundo Perfeito", que rendeu apenas US$ 31,1 milhões e "3000 Milhas de Graceland", outro fracasso, que "só" faturou US$ 15,7 milhões.

Qual o caminho para se viver um grande vilão?

É só fazê-lo pelos motivos certos, diz o célebre historiador de cinema e correspondente do programa "Entertainment Tonight", da rede ABC, Leonard Maltin. "Viver um vilão só por causa da novidade, sem aguardar pelo roteiro certo, pelas circunstancias, diretor e elenco mais apropriados, é uma bobagem, e é o tipo de erro que já foi cometido por vários atores", acredita Maltin.

"Se a interpretação parecer artificial, e não servir a nenhum propósito a não ser o de render publicidade ou o de mudar repentinamente uma carreira, o público não irá comprar essa idéia".

Mas os especialistas acreditam que os espectadores irão embarcar com Cruise nessa aventura. "Esse papel (em "Collateral") funciona porque não tem função meramente exibicionista", garante Maltin. "É um bom personagem que integra um filme interessante. Ele é mesmo o "King of the World" ("Rei do Mundo") em termos cinematográficos, e Cruise é esperto o bastante ao abrir suas asas, porque isso só faz reenergizar sua carreira e sua credibilidade."

Cruise, que é considerado um dos superstars mais afáveis na constelação de Hollywood, não acha que se arriscou ao interpretar esse personagem de "Collateral".

"Tudo o que fiz foi escolher o filme que apreciei e o personagem que apreciei", diz Cruise, cujos filmes já faturaram cerca de US$ 4 bilhões (mais de R$ 12 bilhões) no mundo inteiro.

"Sempre procuro que algo que represente um desafio. E sempre quis trabalhar com o Michael (Mann). Dessa vez o roteiro era simplesmente fabuloso".

Ele não estava pesquisando roteiros para encontrar o vilão mais adequado, aquele malfeitor gélido e charmoso na medida recomendável. Mas Cruise é fã apaixonado dos filmes de Mann, em especial "Fogo Contra Fogo", "O Informante" e "Ali". Esses dois últimos filmes renderam indicações ao Oscar a seus protagonistas, Russell Crowe E Will Smith.

E quando Cruise leu o roteiro de "Collateral", ficou mais fácil dizer sim a um diretor reconhecido pelo seu talento em extrair desempenhos surpreendentes de seus atores.

"Normalmente saio em busca de todo tipo de personagem", diz Cruise. "Mas esse aqui foi o perfeito, ainda mais tendo Michael Mann para dirigir o personagem. Quando eu leio roteiros, não fico muito analítico. Eu simplesmente digo 'Ah, isso me interessa'".

Mann diz que escalou Cruise porque "precisava que as pessoas se conectassem emocionalmente com Vincent, que se ligassem a esse homem, e Tom Cruise tem essa capacidade. Se Vincent fosse interpretado por alguém sem esse carisma, o filme não seria tão bom."

Antes mesmo dos dois meses de filmagem, Cruise e Mann criaram uma história pessoal de Vincent, cuja origem sinistra não é verdadeiramente explorada no filme. Eles evitaram fazer um "vilão certinho e impessoal", alguém fácil de ser odiado, sem carisma nem sensualidade. E Cruise acha que alcançaram esse objetivo ao construí-lo com distinção, elegância e um senso de humor mordaz.

O cara é todo estiloso, com terninho brilhante e apertado, e cabeleira prateada (na verdade uma peruca).

Para polir a "personalidade anti-social de Vincent" e seu compromisso inflexível com os assassinatos, Cruise explorou a dubiedade do código moral do personagem. O ator acredita que Vincent não acha que está fazendo nada de errado, e que não tem consciência do "caos que ele produz". Tudo o que Vincent sabe é que até às seis da manhã terá que matar cinco pessoas.

Empolgado e falante, o ator só perde um pouco a pose quando indagado sobre qual será a reação do público quando assistirem à matança desenfreada que ele promove durante as duas horas de duração do filme. "Sei lá, agora você me pegou. O que você acha? Acho que eles irão se divertir um bocado".

Cruise também está se divertindo.

Só falta o Oscar? O prêmio da Academia é a grande honra que falta ao rei das bilheterias depois de 20 anos de carreira... então será que ele estaria em busca de algum papel específico? Nada disso, ele afirma. Apenas segue interpretando.

"Tenho grande orgulho e prazer no meu trabalho. De forma alguma me sinto saturado". Perfeccionista ao extremo da genialidade, ele treinou durante meses, praticando tiro ao alvo com munição de verdade. E interpretar um assassino que mata sorrindo foi um grande barato porque "Vincent é a antítese do que eu sou", revela Cruise, às gargalhadas.

Ele atualmente mora em Los Angeles e divide a custódia dos filhos Isabella, 12, e Connor, 9, com a ex-mulher Nicole Kidman.

Assim como Vincent, Cruise é bem centrado e profissional. Mas o astro também se define como um otimista. Acredita que as pessoas são "basicamente boas".

E isso inclui até os fotógrafos paparazzi que o perseguem por toda parte. "Não poderia reclamar, na situação em que me encontro -sou um cara de sorte. E vou lhe dizer uma coisa- se você não estiver se sentindo bem numa determinada condição, você tem uma escolha na vida. Caia fora." Astro deixa de ser um bom moço no novo filme de Michael Mann Marcelo Godoy

UOL Cursos Online

Todos os cursos