Choque emocional inicia guerra contra a gordura

Nanci Hellmich

Mary Ellen Bowman, 52, de Upper Darby, no Estado da Pensilvânia, nos EUA, odeia ter 25 kg a mais que seu peso ideal. Ela diz que o excesso é feio e inconfortável e torna mesmo as tarefas simples difíceis. "Você sabe a dificuldade que é colocar uma meia-calça?" pergunta. "Parece um exercício aeróbico."

Alex Gillespie, 52, fiscal de segurança do aeroporto de Bentonville, em Arkansas, está cansado de ser gordo. "Se eu ganhasse US$ 0,10 por cada segunda-feira que começo um novo plano, ou por cada 'última refeição', eu não ia precisar trabalhar", diz ele. "Quantas vezes sonhei, gritei, chorei por ter me deixado chegar a esse ponto?"

Bowman e Gillespie estão buscando um sonho americano que foge a muitos: perder peso. Seus sentimentos são exemplos dos expressados repetidamente por leitores que estão participando do Desafio de Emagrecimento do USA Today. O desafio envolve uma série de oito semanas com pesquisas de ponta e conselhos práticos para o emagrecimento. O programa vai até o dia do Trabalho (6 de setembro nos EUA).

Muitos leitores escreveram histórias emotivas sobre suas batalhas perdidas com a gordura e os pneus. A maior parte se diz desesperada para perder peso. Algumas mulheres não se sentem atraentes para seus maridos. Muitos homens sofrem com a perda da forma atlética que tinham na faculdade. Ficam envergonhados de tirar a camisa na praia.

Alguns já têm doenças relacionadas com a obesidade, como diabetes ou doença cardíaca. Outros têm medo de desenvolvê-las. Por essas e outras razões, muitos participantes dizem que não há melhor momento do que agora para acabar com a sua barriga. Eles sonham que estarão mais magros até meados de setembro. Afinal, quatro semanas é tempo suficiente para perder entre 2kg e 4kg.

Cerca de um terço dos americanos estão tentando perder peso, de acordo com pesquisa recente encomendada pelo Conselho do Controle de Calorias. Isso não surpreende, já que 65% dos americanos têm obesidade e risco de desenvolver diabetes, doença cardíaca e muitos tipos de câncer.

Com 1,60m, Bowman pesava 86 kg, há três semanas. Ela já perdeu 2,5 kg. "Tenho o equivalente a quatro bolas de boliche no meu corpo. Tenho que perder duas", diz ela. "É uma vergonha que eu tenha deixado isso acontecer. É um milagre que meu marido ainda me ame."

Bowman se culpa por seus hábitos alimentares e falta de exercício. Nos últimos anos, ela vem cuidando da família enquanto trabalha em tempo integral em uma livraria. Ela tem marido e três filhos e, recentemente, tornou-se guardiã de sua sobrinha de 16 anos, filha de sua irmã falecida. Ela também cuidou de seu irmão tetraplégico, em sua casa, durante dois anos.

Ela ia para casa no horário do almoço para alimentá-lo e trocar seus tubos. Ela está feliz por ter podido cuidar dele. "Fico feliz por ter feito isso. Ele estava em paz quando morreu."

Mas, em dois anos, Bowman engordou 18 kg . "Comia qualquer coisa e tudo o que quisesse", diz. "Comia Tastykakes, sonhos recheados de creme. Comia três sonhos em dois minutos. Eu os engolia sem nem mastigar. Podia comer um bolo Entenmann inteirinho em um dia. Não comia mais nada o dia inteiro."

Ela não fez nada para deter o processo. "Deixei-me ficar cada vez maior. Comprei roupas de baixo maiores, porque sabia que ia precisar."

Bowman perdeu a paciência com sua aparência quando começou o desafio de emagrecimento. "Todos os dias, digo adeus a minha barriga mole. Se pudesse pagar US$ 10.000 (em torno de R$ 30.000) para que a tirassem, eu o faria. Pagava até o dobro".

Ela tentou perder peso durante anos. "Comprei 'A Dieta de South Beach', mas não tive tempo para preparar as refeições e fazer compras. Mas aprendi a comer melhor."

Ela está tão apressada em perder peso que corre à farmácia o tempo todo para se pesar. "Acho que estou começando a ter uma cintura, mas está fazendo meus quadris parecerem maiores."

Como Bowman, Gillespie tem plena consciência de como engordou.

Com 1,90m, ele está pesando 127 kg. Antes pesava 133 kg. "Minha fraqueza é comer tarde da noite -pão, costeleta, milho, leite. Moro sozinho. Divido a custódia da minha filha com a mãe dela. Quando vou ao supermercado, não compro uma quantidade limitada. Compro comida para uma família."

Como muitos outros, ele é veterano em dietas. "Tentei Atkins. Fiquei muito mal-humorado. Tentei South Beach. Nos Vigilantes do Peso, me saí bem. Fiz 'Corpo para a Vida'. Envolve um 'dia livre', em que você pode comer o que quiser. É difícil fazer isso. Esperava chegar o dia e me refestelava."

Nutricionistas dizem que, em geral, as pessoas têm um momento luminoso, em que algo acontece que as faz decidir que vão tomar controle de seu peso.

Para Gillespie, o momento foi gerado por uma criança. "A pior coisa aconteceu comigo noutro dia, quando uma das amigas da minha filha de cinco anos disse: 'Seu pai é engraçado mas é gordo.' Isso cortou meu coração e tenho certeza que incomodou minha filha."

"Estou cansado de sonhar", diz ele. "Estou cansado de olhar para as pessoas e querer ser como elas. Estou cansado de olhar para mim e saber que posso melhorar. Acima de tudo, estou cansado de não mostrar a minha linda filha que uma pessoa pode ser o que quiser, se apenas tomar o primeiro passo."

Bowman diz que seu momento de luz aconteceu há poucas semanas, quando estava lendo um artigo que dizia que uma pessoa que come excessivamente e não se exercita pode engordar 5 kg por ano pelo resto da vida. Isso a assustou. Ela calculou que poderia acabar pesando 140 kg quando tivesse 60 anos.

Althea Zanecosky, nutricionista da Filadélfia e porta-voz da Associação Nutricionista Americana, conhece muitas histórias como as de Bowman e Gillespie.

Muitas pessoas que cuidam das outras, especialmente mulheres, ficam o tempo todo em volta de tanta comida que é fácil perder as medidas, diz ela. A comida está ali, elas estão cansadas e não estão tomando conta de si mesmas.

Para muitas pessoas que moram sozinhas, a comida torna-se uma companheira, diz Zanecosky. Elas precisam olhar para isso e descobrir quais são as outras coisas que as tornam felizes, além de comer, como fazer uma caminhada, ler um livro, tomar um banho, ver filmes, fazer artesanato, dançar, cuidar de um animal.

"A fome nem sempre é física; há também uma fome emocional", diz ela. "Muitas pessoas comem quando estão estressadas. Isso porque, quando éramos crianças, nossos pais nos davam comida como forma de mostrar amor. Eles diziam: 'Você machucou o joelho? Vamos sentar e comer um biscoitinho.'"

"Até quando um adulto está mal, oferecemos uma bebida ou comida. Quando morre uma pessoa na família de alguém, levamos comida para fazer a pessoa se sentir melhor e para mostrar que nos importamos com ela", diz Zanecosky.

"A chave é encontrar conforto fora da cozinha ou da lanchonete. Muitos problemas poderiam ser mais bem resolvidos com uma conversa com um membro da família ou com um amigo, uma caminhada ou exercício, até uma soneca."

Gillespie está se consultando com uma nutricionista. "Preciso de alguém me ajudando. Sozinho, fico distraído". Ele perdeu 7 kg em três semanas. "Parei de comer depois das 19h. As calorias contam. No fundo, o que conta são as calorias."

Ele está fazendo musculação e exercícios na piscina, mas não pode andar muito porque torceu o tornozelo recentemente.

Bowman também está contando calorias. Ela está seguindo os cardápios e receitas do USA Today e está substituindo refeições com milk-shakes proteicos.

Ela é tão arredia quanto seus três chihuahuas em relação a exercícios. Está, mesmo assim, fazendo aeróbica, caminhadas e vídeos de exercícios.

A primeira vez que fez aeróbica na água por uma hora, foi tão difícil que achava que ia sair da piscina magra. Não estava, então andou os 3km até sua casa. "Nunca tinha andado mais de um quilômetro, em toda minha vida."

"Tenho todo um time me animando: meu marido, meus filhos, sobrinha, as pessoas da piscina, o farmacêutico, meus colegas do trabalho. Eles sabem que não gosto da minha aparência. Eles sabem que eu queria ser mais magra. Vou fazer isso, ou vou morrer tentando." Dois obesos contam como começaram a lutar firme contra o peso Deborah Weinberg

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