Popularidade de Schwarzenegger não ajuda Bush

Judy Keen

Arnold Schwarzenegger deveria ser uma das armas secretas do presidente Bush neste outono norte-americano. Ele é um governador republicano popular e carismático, é astro de Hollywood, sua mulher é uma Kennedy e conta com a simpatia de democratas da Califórnia e de outros Estados. Mas, ao invés disso, o "fator Arnold" nesta campanha pode se reduzir à mera encenação política.

Será que os dois políticos machões, cujo relacionamento já andou abalado, serão capazes de convencer os eleitores da Califórnia de que possuem a mesma agenda política, sendo que diferem em várias questões culturais? Ou será que Schwarzenegger está se recusando a fazer campanha para Bush fora do seu Estado?

E os californianos? Serão eles seduzidos pela atraente dupla John Kerry e John Edwards, ou pela trégua entre Bush e o seu ex-rival, John McCain?Ou será que os californianos são simplesmente um alvo eleitoral que está fora do alcance de Bush?

Embora Kerry tenha apresentado vantagens percentuais de dois dígitos nas últimas pesquisas, os aliados de Bush ainda acreditam que a aura de Schwarzenegger poderia reverter tal situação. Ele é o governador mais popular do Estado em quase 30 anos e conta com um índice de aprovação de 65%, segundo uma pesquisa da Field Poll divulgada na última terça-feira (10/08).

"Nada é mais importante para nós da campanha de Bush do que o sucesso de Arnold Schwarzenegger. Nada", garante Gerry Parsky, diretor da campanha de Bush na Califórnia.

Mas o relacionamento entre os dois campos tem sido tenso. Alguns assessores do governador continuam ressentidos com o fato de o presidente não ter prestado muita ajuda a Schwarzenegger na campanha de 2003 e dizem que o governo federal não tem demonstrado presteza para ajudar o Estado com relação aos problemas de orçamento.

Schwarzenegger contará com um espaço privilegiado de discurso na convenção republicana. Ele aparecerá nesta quinta-feira (12) com Bush em um evento para a arrecadação de verbas para os republicanos em Santa Mônica. Mas essa será a primeira visita de Bush ao Estado desde março.

O comitê de campanha de Bush adoraria colocar Schwarzenegger ao lado do presidente nos Estados em que a eleição promete ser muito disputada, mas o governador diz que não poderá fazer campanha fora da Califórnia.

"Considerando que agora sou governador, preciso realmente trabalhar para o Estado da Califórnia", disse ele à emissora National Public Radio na semana passada.

Schwarzenegger tem boas relações com o primeiro presidente Bush, que nomeou o ator e fisiculturista para o cargo de diretor do Conselho de Boa Forma Física. No mês passado, quando Bush Pai passou por Sacramento, Schwarzenegger visitou o seu mentor. Mas o ex-presidente, que procura ficar fora do caminho do filho, não está agindo como intermediário.

Aliados dos dois dizem que os boatos sobre atritos pessoais são exagerados. "O governador fará tudo que puder para ajudar, exceto fazer campanha para Bush fora do Estado", diz Pat Clarey, assessor de gabinete de Schwarzenegger. "Eles se tornaram amigos", diz Karl Rove, principal assessor político de Bush.

"É verdade que a princípio a Casa Branca não apoiava muito o processo eleitoral de 'recall'", diz o deputado David Dreier, republicano da Califórnia que presidiu a campanha de Schwarzenegger e faz parte do comitê eleitoral de Bush no Estado. "As pessoas têm a tendência de realmente exagerar o tamanho dessa cisão... Ambos gostam bastante um do outro".

Assessores de ambos dizem que o clima melhorou nos últimos dois meses --admitindo assim que as coisas nem sempre estiveram tão bem. Os assessores de Schwarzenegger observam que o governador enviou flores a Bush no dia do aniversário do presidente no mês passado, e que eles tiveram uma conversa amigável quando Bush ligou para agradecer.

Opiniões diferentes

Prioridades divergentes ou atritos reais ou imaginários são um obstáculo a uma aliança que poderia representar para Bush uma chance de tirar vantagem da popularidade de Schwarzenegger:

  • Em 2002, Schwarzenegger liderou com sucesso uma batalha política pela aprovação de uma proposta de plebiscito na Califórnia para financiar programas de auxilio às crianças após o horário escolar. O orçamento de Bush para 2004 propunha o corte de verbas para tais programas. Schwarzenegger reclamou contra esse corte junto ao Congresso, que permitiu a restituição de parte das verbas.

  • Quando ativistas californianos conseguiram um número suficiente de assinaturas para pedir um "recall" eleitoral, pretendendo retirar do cargo o governador democrata Gray Davis, Schwarzenegger disse estar pensando em entrar para a lista de candidatos para substituí-lo.

    Assessores de Schwarzenegger, que não quiseram se identificar publicamente devido à delicadeza da questão, dizem que o ator esperava o apoio de Bush antes de anunciar a sua candidatura. Mas isso não aconteceu. No dia seguinte ao anúncio, Bush disse apenas que Schwarzenegger seria "um bom governador". Quando lhe perguntaram se faria campanha para Schwarzenegger, Bush evitou dar uma resposta direta.

    "Jamais vou disputar uma queda de braço com Arnold Schwarzenegger", disse o presidente. "Estou certo de que os cidadãos da Califórnia resolverão esse assunto".

    Bush não apareceu em nenhum comício do ator. É difícil saber se Schwarzenegger desejava o apoio de Bush e não o obteve ou se os seus assessores acreditavam que era melhor manter o presidente distante da campanha.

    Um assessor graduado de Bush, que não quis se identificar, disse que os assessores de Schwarzenegger não quiseram que Bush desempenhasse um papel proeminente na campanha do ator. "Eles nos disseram que para o candidato era fundamental que não fossem vinculados aos republicanos ou à política nacional", disse o assessor.

    Bush adiou a sua própria campanha de arrecadação de verbas na Califórnia para garantir que Schwarzenegger não competisse com ele por doações, e encorajou os doadores de fora da Califórnia a contribuírem para a campanha Schwarzenegger, afirmou o assessor.

  • Após ter assumido o cargo, Schwarzenegger irritou alguns dos assessores de Bush ao afirmar repetidamente que esperava que o governo federal aliviasse a pressão sobre o orçamento do Estado. Em fevereiro, no programa "Meet the Press", da rede de televisão NBC, Schwarzenegger disse que as chances de Bush vencer na Califórnia estariam "diretamente vinculadas àa forma como ele se comportasse com relação ao nosso Estado".

    Os assessores de Bush dizem que não poderiam aparar arestas burocráticas para enviar dinheiro imediatamente em um período de déficit recorde do orçamento federal porque seriam acusados de praticar favorecimento político para ajudar o novo governador.

    Já membros da equipe de Schwarzenegger, por sua vez, ficaram irritados com o fato de a Casa Branca não tê-los ajudado mais rapidamente. Eles acreditavam que Bush quisesse ser visto como um governante que ajuda a Califórnia porque as manchetes positivas na imprensa melhorariam a sua imagem no Estado.

    Quando o governo finalmente decidiu auxiliá-los em maio, os integrantes do gabinete de Schwarzenegger não organizaram uma entrevista coletiva à imprensa de grande monta. Ao invés disso, o governador anunciou apenas que o acordo firmado com o governo federal representaria US$ 455 milhões em economia orçamentária.

    Schwarzenegger não mencionou Bush mas agradeceu à "administração Bush pela sua disposição em trabalhar comigo". Schwarzenegger também esperava que o governo federal cancelasse 36 contratos privados firmados com companhias privadas de petróleo e colocasse um fim à prospecção em poços no Estado. Os assessores de Schwarzenegger dizem que o governo se mostrou receptivo à idéia, mas que a questão se complicou devido a procedimentos legais e não foi resolvida.

  • Schwarzenegger não é um republicano do grupo de Bush. Ele é conservador quando se trata de gastos e de reduzir a dimensão do governo, mas apóia o direito ao aborto e se opõe à emenda constitucional que proíbe o casamento gay.

    Quase um entre cada cinco eleitores democratas da Califórnia votaram nele. A sua popularidade contínua, apesar de uma recente disputa com os democratas no parlamento estadual quanto ao orçamento, se deve em parte à idéia de que ele está acima da questão partidária. A sua mulher, Maria Shriver, não é apenas uma democrata, mas também integrante do clã Kennedy.

    Embora no Estado o índice de aprovação de Schwarzenegger seja de 65%, o de Bush é de apenas 41%. Assessores de Bush e de Schwarzenegger dizem que as histórias sobre desentendimentos entre os dois não passam de intrigas e fofocas. Um assessor graduado de Bush diz: "O presidente sequer conhece tais boatos".

    "Não há nenhuma verdade nisso", garante um alto assessor de Schwarzenegger que conversa com freqüência com o comitê de campanha de Bush.

    Lealdade partidária

    A Califórnia possui 55 dos votos no Colégio Eleitoral necessários para que um candidato conquiste a presidência. Desde a vitória de Bush Pai há 16 anos, todo candidato presidencial republicano costuma dizer que não dá para ganhar no Estado. Os democratas venceram todas desde então.

    Quatro anos atrás, George W. Bush achou que tinha uma chance de surpreender o democrata Al Gore na Califórnia. Ele viajou mais de doze vezes ao Estado e gastou milhões de dólares. Gore, que investiu pouco na Califórnia, venceu no Estado com uma vantagem de 1,3 milhão de votos.

    As posições conservadoras de Bush com relação ao aborto e ao casamento gay, além das suas políticas agressivas ao meio ambiente fizeram com que fosse rejeitado pelos eleitores suburbanos independentes, que fazem a diferença nas eleições no Estado. Vários desses eleitores apoiaram Schwarzenegger, mas rejeitaram os republicanos mais conservadores nas duas disputas eleitorais anteriores: Dan Lungren, em 1998, e Bill Simon, em 2002.

    As propagandas eleitorais de Bush vêm sendo transmitidas em canais nacionais de TV a cabo. Mas na Califórnia tais propagandas não têm sido veiculadas. Tampouco são transmitidos programas dos republicanos a respeito de questões que preocupam o eleitor californiano, como a imigração.

    O comitê de campanha de Bush possui seis assessores pagos no Estado, comparados a 13 em Ohio, um Estado menor, porém mais disputado. Mas a vitória de Schwarzenegger demonstrou que a fidelidade partidária pouco significa para os californianos, e isso dá esperança aos republicanos.

    "Os eleitores da Califórnia são meio apartidários. Eles respondem às circunstâncias do momento", diz Wayne Johnson, estrategista político do Partido Republicano em Sacramento.

    "Os republicanos elegeram um governador e reduziram a diferença entre republicanos e democratas para a margem mais reduzida desde os anos 30", diz Rove. "A Califórnia é a terra da oportunidade".

    Mesmo assim, Mark Baldassare do Instituto de Política Pública da Califórnia, uma organização não partidária que faz pesquisas de opinião pública no Estado, diz que Bush não está se beneficiando da popularidade de Schwarzenegger.

    "Schwarzenegger governou como um independente, e como pessoa de fora dos círculos políticos", explica. "Ele seduziu os eleitores que não votam em seu partido dizendo que não faz parte do establishment. Já Bush é parte desse establishment". Imagem do ator, que governa a Califórnia, difere da do presidente Danilo Fonseca
  • UOL Cursos Online

    Todos os cursos