Ataques ácidos dominam campanha presidencial

Chuck Raasch
Em Washington

Há quatro anos, quando George W. Bush se apresentava como um "promotor da união, e não da divisão", ele chegou à Casa Branca em meio a grandes expectativas. Havia a crença esperançosa de que, quando a discórdia inevitável emergisse, Bush lembraria aos norte-americanos que aquilo que nos mantém unidos é sempre maior do que os fatores que nos dividem.

Mas após um verão repleto de golpes baixos vindos de ambos os lados do debate eleitoral de 2004, Bush perdeu a sua melhor oportunidade de adotar o discurso de defensor da união.

Neste mês, um grupo de veteranos do Vietnã passou a veicular propagandas de televisão questionando a coragem e a história militar do candidato presidencial democrata, John Kerry. Alguns veteranos do Vietnã não gostam de Kerry devido à sua atuação contrária à guerra quando voltou para casa. Mas essas propagandas questionam os serviços prestados por um homem que foi voluntário não só para servir no Vietnã, mas também para uma tarefa extremamente perigosa quando chegou àquele país.

É algo irônico, após os republicanos terem criticado os democratas que questionaram o fato de Bush ter servido na Guarda Nacional Aérea durante a Guerra do Vietnã.

Um "promotor da união, e não da divisão" teria dito imediatamente: "Como norte-americanos, a Guerra do Vietnã é um tópico que não podemos evitar. Os norte-americanos possuem opiniões enérgicas sobre a guerra, e nem todos concordam quanto ao assunto. Mas como seu presidente, não acredito que seja justo, e tampouco sensato, questionar a integridade ou a coragem de qualquer norte-americano que tenha servido na guerra --sob qualquer circunstância. E, portanto, eu condeno essas propagandas e espero que os eleitores que votarem neste ano para mim ou para o senador Kerry o façam com base nas nossas idéias".

Em vez disso, Bush enviou o secretário de Imprensa, Scott McClellan para combater grupos independentes que neste ano têm poluído o espaço televisivo com milhões de dólares em propagandas negativas.

McClellan tinha um bom argumento. Em nome da reforma da campanha eleitoral, milhões de dólares em doações de "soft money" estão sendo canalizados para esses grupos, e Bush tem sido alvo de muitas propagandas negativas. Mas com a integridade do seu oponente sob ataque, Bush perdeu a oportunidade de pedir que todos adotassem um nível mais alto.

Mas isso é uma guerra bipartidária. Já se denunciou anteriormente uma campanha de arrecadação de fundos para John Kerry, na qual vários cantores e atores atacaram Bush de forma condenável, chamando-o de facínora capaz de sacrificar jovens norte-americanos em nome dos seus próprios interesses políticos.

Demorou algum tempo até que Kerry reagisse, mas aos dizer que esses artistas representavam "o coração e a alma dos Estados Unidos", ele finalmente se distanciou das intrigas da extrema esquerda.

Depois veio o "Veteranos de Lanchas Rápidas de Combate pela Verdade", um grupo de veteranos do Vietnã que estão veiculando propagandas televisivas questionando se Kerry realmente mereceu a primeira das suas três condecorações "Purple Heart" e as medalhas de heroísmo que recebeu quando servia como capitão de uma lancha rápida de combate no Vietnã em 1969.

Os homens que serviram na embarcação dizem exatamente o contrário --incluindo um ex-boina-verde, Jim Rassman, que garante que Kerry salvou a sua vida quando estava sob fogo inimigo.

Talvez seja uma ingenuidade atentar para discórdias a respeito de fatos que ocorreram no calor da batalha. Mas não faz sentido reencenar as ações de um homem em uma guerra confusa quando há um debate legítimo para determinar se o ativista contrário ao conflito, John Kerry, exagerou nas suas alegações de atrocidades cometidas por soldados norte-americanos no Vietnã. É esta última questão que mais magoa alguns veteranos daquele conflito.

Sim, Kerry realmente atraiu ataques dos críticos ao usar a Convenção Nacional Democrata como uma plataforma para ressaltar o seu heroísmo na Guerra do Vietnã enquanto passava ao largo de certas passagens do seu currículo.

Embora a convenção por vezes lembrasse uma reunião dos Veteranos de Guerras Estrangeiras, não foi mencionado, por exemplo, que ele foi aliado do ex-governador Michael Dukakis.

Os oponentes devem ter o direito de responder às questões legítimas que não foram esclarecidas pelos candidatos ao cargo mais importante do país. Mas quem decretou que tais questões têm que ser abordadas de forma tão melodramática?

A história está repleta de governadores civis que criticam as forças armadas. Mas, ironicamente, um velho guerreiro --o general aposentado Tommy Franks, arquiteto da invasão do Iraque-- foi o que mais criticou as políticas civis. Reagindo à propaganda da lancha rápida, ele disse ao programa "This Week", da rede de televisão ABC: "Ao invés de apoiar candidatos, parece que temos compulsão para afirmar que há algo de errado com o patriotismo ou a lealdade militar dos adversários".

Temos um longo percurso até novembro. Candidatos parecem não se importar com nível da propaganda Danilo Fonseca

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