Partidos dos EUA cortejam o eleitorado jovem

Rick Hampson*
Em Nova York

Estampa em uma camiseta do ano passado: "Votar é para os velhos". Estampa em uma camiseta deste ano: "Votar ou Morrer".

O voto dos jovens, talvez o objetivo mais difícil de ser alcançado na política dos Estados Unidos, está sendo cortejado por indivíduos tão diversos quanto rappers, professores de Harvard e Eleitores da Liga das Mulheres.

Todo tipo de gente está tentando fazer com que a garotada vote --o ex-secretário de imprensa de Clinton, Mike Curry; o roqueiro Lenny Kravitz, o empresário de rap Russell Simmons e os membros da World Wrestling Entertainment, incluindo um lutador persuasivo conhecido como "The Hurricane".

Isso faz parte daquilo que o cientista político William Galston chama de "uma tempestade perfeita" para que haja grande comparecimento dos jovens às urnas em novembro --uma eleição disputada em torno de questões importantes (incluindo a guerra) e com candidatos que contrastam entre si, além de envolver um esforço sem precedentes para conseguir o voto do eleitor por meio de conversas pessoais.

E isso será suficiente? Nenhuma pessoa que tenha tentado convencer os jovens a comparecer às urnas dá os seus votos como certos. "Promessas, promessas", diz o cientista político Kenneth Stroupe, da Universidade de Virgínia. "Este não é o primeiro ano em que os jovens prometem votar".

O seu ceticismo está enraizado em uma das mais persistentes e perturbadoras tendências da política norte-americana: a queda contínua da participação dos jovens nas eleições desde que a 26ª Emenda deu aos cidadãos de 18 a 20 anos o direito de votar em 1971.

Mas neste ano as coisas deveriam ser diferentes. Quando Vanessa, 27, filha de John Kerry, diz que "o voto jovem é tremendamente importante para nós", ela poderia estar falando tanto pelos republicanos quanto pelos democratas. Os presidentes dos dois partidos compareceram à MTV para responder a perguntas, e ambos os candidatos presidenciais envolveram os filhos na campanha.

O voto jovem ficou dividido igualmente entre George W. Bush e Al Gore em 2000. Uma pesquisa recente do Pew Research Center revelou que entre os eleitores da faixa etária de 18 a 29 anos Kerry tem 56% dos votos contra 41% de Bush. Mas os eleitores mais jovens são notoriamente imprevisíveis. Em três meses esse quadro pode mudar.

Enquanto isso, seis grupos não partidários estão gastando quase US$ 40 milhões para garantir o voto da juventude. A organização Rock the Vote espera contar com 25 mil voluntários para o registro de eleitores até o outono. O New Voters Project planeja registrar mais de 260 mil eleitores de 18 a 24 anos em seis Estados, além de fazer contato com meio milhão deles nas semanas que antecedem a eleição, lembrando-os de votar.

Há esforços para conseguir o voto de jovens de escolas secundárias, cristãos, fãs de hip-hop, punk e rock. Existe um site para os que votam pela primeira vez --VoterVirgin.com-- e um novo sabor de sorvete, o "Primary Berry Graham, da Ben and Jerry". O filme "Farenheit 9/11", de Michael Moore, está mobilizando pessoas como a cantora Mary J. Blige, que diz que decidiu votar após assistir ao filme.

As pesquisas indicam um crescente interesse na política e nas eleições. Um estudo da Universidade Harvard revelou que 62% dos estudantes universitários planejam votar neste ano, comparados aos 50% que manifestavam tal intenção quatro anos atrás. Em uma pesquisa, 53% dos eleitores registrados entre 18 e 30 anos de idade disseram que "estão pensando" em participar da eleição, comparados a 35% em 2000.

Daí a "tempestade perfeita" de Galston. "Seria difícil imaginar um esforço melhor que o deste ano para conseguir o voto dos eleitores jovens", diz o professor da Universidade de Maryland. "Se o índice de participação dos eleitores jovens não for alto neste ano, os políticos terão que analisar que erro foi cometido".

Registrados para votar?

Por que os jovens não votam? Talvez porque ninguém lhes pediu que votassem. Toni Ekberg, 24, é uma criadora de web sites de Long Island que no inverno passado decidiu votar nas eleições de 2004. Assim, ela procurou a página do Rock the Vote na Internet. Toni encontrou uma ficha de inscrição, a imprimiu, mas deixou-a sobre a mesa de trabalho. "Sempre deixo as coisas para depois", explica.

Neste verão ela estava em um concerto de rock no Central Park quando surgiu um jovem com uma prancheta. "Registrado para votar?", perguntou Jonathan Tiegerman, 23, um voluntário da "equipe de rua" do Rock the Vote.

Ele esperou até que Ekberg preenchesse uma ficha de inscrição, que a Rock the Vote remeteu para o Departamento Estadual de Eleições. "Se ninguém tivesse me pedido, eu não teria me registrado", admite Ekberg.

E por que os jovens não votam? Em tese, quase todos são favoráveis à eleição. Se a democracia é a nossa religião cívica, o voto é uma forma de oração --um hábito, freqüentemente aprendido em casa, que exige uma certa fé.

Mas no dia da eleição, um número crescente de eleitores jovens carece de tal fé. A participação desses eleitores diminuiu um terço desde 1972, e nas eleições presidenciais o número de eleitores entre 18 e 24 anos é de menos da metade que dos eleitores mais velhos. Sob o ponto de vista do comparecimento às urnas, o que há de melhor com relação aos eleitores jovens é o fato de eles se transformarem um dia em eleitores de meia-idade.

Nada funcionou para atrair os jovens às urnas. Registros facilitados não mudaram o quadro. Tampouco os apelos de celebridades como Madonna (que, infelizmente, não tinha se registrado para votar quando gravou uma propaganda convocando a juventude a comparecer às urnas). Também não surtiu nenhum efeito a oferta de sorvete de graça da Ben and Jerry.

Por que a juventude não vota? Porque os candidatos não abordam as questões importantes para os jovens, ou porque estes não sabem ao certo que questões seriam essas. Porque não há diferença entre os partidos, ou porque os partidos estão sempre brigando. Porque acreditam que o ato de votar é realmente coisa de gente velha, ou porque os seus pais não votam.

Eles não votam porque as regras são confusas ou porque o dia da eleição não é um feriado ou porque não há oferecimento de brindes. Eles temem que o fato de se registrarem para a votação os obrigue a trabalhar como mesários (uma possibilidade), a declarar sua filiação política (algumas vezes) ou a pagar mais impostos (improvável).

Porque embora saibam que "devem" comparecer às urnas, eles freqüentemente não têm nada pelo qual votar. E acima de tudo, os jovens geralmente não têm aquela visão quase religiosa com relação ao ato de votar. Eles vêem a votação como um ato estranho e irracional.

Preston Silverman é professor da Universidade da Carolina do Norte. Ele é especialista em ciência política e fala de política com seus amigos. Adora política mas não planeja votar em novembro.

Estrategistas políticos de ambos os partidos dizem que os republicanos devem ganhar na Carolina do Norte. A possibilidade de que o voto de Silverman decida quem levará os 15 votos do Estado para o Colégio Eleitoral é mínima. "Para mim, não é racional desperdiçar meu tempo votando", diz ele. "Isso não fará diferença".

Outros membros da sua geração apresentam outros motivos para não votar:

  • Não sabem como fazê-lo. Cheryl Chin, 21, é secretária do departamento de telecomunicações da Universidade de Nova York e graduada pela Escola de Comércio daquela universidade. Ela poderia ter votado em 2000, mas não o fez.

    "Creio que não quis ir até a seção eleitoral para votar. Não sei, a coisa toda me intimidou --ir à urna e pressionar botões. Não sei sequer quando poderei votar. É na primeira semana de setembro?".

  • Não se empolgam com a votação. Conforme diz Albert Lee, 23, estudante de graduação da Universidade de Nova York que atualmente mora e trabalha em Orange County, Califórnia: "Não me preocupo o suficiente para me preocupar em saber por que não me preocupo".

    Até mesmo aqueles que dizem se preocupar não agem como se se preocupassem. Há muitos anos, Michael Feng trabalhou em uma campanha para o registro de eleitores para o governador de Nova York, George Pataki. Mas dessa vez Feng, 22, que mora no bairro de Queens, não pretende votar: "Não é que eu não me preocupe com a eleição. O que ocorre é que tenho coisas mais importantes com as quais me preocupar, como por exemplo, a minha própria pessoa".

    Aqueles que tentaram fazer com que os jovens votassem se decepcionaram seguidamente. Neste ano, a decepção ocorreu mais cedo.

    Na convenção presidencial democrata de Iowa, pessoas com menos de 30 anos foram responsáveis por 17% dos votos, comparados a 9% há quatro anos. A participação total da juventude quadruplicou. Os resultados foram empolgantes porque pareciam comprovar as teorias de dois professores da Universidade Yale, Donald Green e Alan Gerber.

    Baseados em uma série de pesquisas antes e depois da eleição de 2000, eles concluíram que o contato pessoal é a melhor maneira de fazer com que os eleitores compareçam às urnas. Segundo eles, o contato pessoal fez com que o comparecimento da juventude aumentasse de 8% para 10%.

    Iowa parecia comprovar a tese dos professores. Devido ao eleitorado relativamente pequeno e a uma disputa eleitoral acirrada, os comitês de campanha fizeram contato pessoal com um número de eleitores maior que o normal.

    No dia seguinte, grupos de eleitores jovens proclamaram vitória e previram resultados similares nas outras primárias.

    Mas isso nunca ocorreu. O Centro de Informações e Pesquisas sobre Aprendizado e Engajamento Civil, um grupo sem fins lucrativos que estuda as eleições, concluiu mais tarde que a participação dos jovens diminuiu 1,2% nas primárias democratas em relação a 2000, ainda que o aumento total do número de participantes tenha sido de 0,4%.

    Galston, o diretor do centro, ficou atônito. "Foi isso o que aconteceu? A agulha não se moveu? Porque não houve um crescimento da participação dos jovens depois de Iowa? Não faço idéia", confessou.

    O que ajuda a explicar por que, apesar de todos os sinais que dão margem a otimismo, ainda não se sabe quantos eleitores jovens participarão das eleições neste outono.

    Existem quatro grandes questões:

    1 - Há alguma razão profunda pela qual os jovens votem menos?

    Stroupe diz que até que os jovens sejam ensinados que votar faz parte de "um padrão de engajamento civil" --acompanhando os noticiários, participando de reuniões locais, escrevendo para os deputados no Congresso-- a participação não vai aumentar. Isoladamente, a votação não faz sentido.

    Ele também se preocupa com a eficácia em larga escala do contato pessoal para convencer a juventude a votar, o que exige treinamento e supervisão. E ele pergunta o que um voluntário diria a um possível eleitor de um Estado disputado que insistisse em dizer que o seu voto não fará diferença".

    2 - Os partidos tentarão estimular a participação dos jovens?

    Os partidos e seus aliados têm defendido a participação da juventude e certamente levarão essa questão mais a sério que em 1996 ou 2000, quando ignoraram os jovens eleitores na busca pelos prováveis indecisos.

    Mas eles ainda precisam demonstrar um comprometimento com uma cara campanha de base que possibilitaria que isso acontecesse. Alguns suspeitam que, no final, os partidos recorrerão novamente às táticas usuais, como propagandas de televisão e correspondências de correio.

    Galston diz que é difícil prever o que os partidos farão. Devido ao fato de a corrida presidencial ser tão disputada, pode ser que nenhum dos partidos seja capaz de permitir que os jovens votem no adversário. Mas isso faz também com que seja menos provável que um partido divulgue os seus planos --e aumenta a probabilidade de que procurem iludir o oponente.

    3 - Quantos eleitores jovens recém-registrados realmente votarão?

    Estudos demonstram que 70% dos eleitores registrados comparecem às urnas. Segundo se sabe, o problema é que só 45% dos eleitores jovens se registram. Mas quanto maior o empenho para registrar alguém, maior o risco de que essa pessoa não vote.

    Após os eleitores mais ansiosos por participar se registrarem, não há garantia de que os registrados adicionais, e supostamente menos entusiasmados, atinjam a marca dos 70%. Stroupe se preocupa com as pessoas que se registram em concertos de rock: "Não se exigiu que fizessem qualquer coisa que já não fossem fazer, ou que fossem a qualquer lugar ao qual teriam deixado de ir".

    Jonathan Tiegerman ajudou Toni Ekber a se registrar, mas ele não a conduzirá até às urnas em 2 de novembro.

    4 - É melhor ter mais eleitores jovens ou mais bem informados?

    No concerto do Rock the Vote, no Central Park, o voluntáriio Gary Sutton registrou Tatiana Steed, 20, do Bronx, que recebia as pessoas na entrada. Ela preencheu o formulário principalmente para agradar a Suton, um jovem franco e agradável.

    "Quer saber a verdade?", disse ela depois. "Não sei nem quem está disputando".

    *Colaboraram Christina Jeng e Nick Summers. Kerry bate Bush por 56% a 41% no segmento, que é muito instável Danilo Fonseca
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