Carly Patterson mostra para russa quem é rainha

Karen Rosen
Em Atenas

A ginasta campeã dos Jogos Olímpicos de 1984, Mary Lou Retton, havia deixado o número de seu telefone para a jovem Carly Patterson. "Me liga", disse a veterana, "assim que terminar a competição individual geral".

Dito e feito. Então enquanto ia de carro para a coletiva de imprensa da meia-noite e meia, a nova campeã deu um jeitinho de ligar para a veterana, que ainda é adorada pelo público americano, vinte anos depois de sua vitória nas Olimpíadas de Los Angeles.

"Ela disse que sabia que eu conseguiria, que eu tinha a vitória dentro de mim", segundo Carly Patterson. "E Mary realmente estava orgulhosa e entusiasmada comigo".

O que foi que a nova campeã respondeu? "Obrigada", foi a resposta simples da tímida moça de 16 anos, natural de Allen, no Estado de Texas. Caprichando no salto duplo carpado em seu exercício final, na ginástica solo, Carly Patterson duplicou a vitória dos Estados Unidos nas provas combinadas da categoria individual geral.

Mas enquanto a vitória de Paul Hamm no individual geral masculino, na quarta à noite, já era esperada, o triunfo de Carly não era tão previsível assim. Afinal, não havia sido tão impressionante o desempenho dela terça à noite, na final por equipes, vencida pela Romênia.

"Eu quis vir aqui e experimentar nessa noite o melhor desempenho da minha vida. Acho que consegui", disse a nova campeã. E Carly Patterson ainda alcançou algo que Retton não alcançou em 1984: derrotar ginastas russas.

Ainda soviéticas em 1984, elas participaram do boicote às Olimpíadas de Los Angeles. Vinte anos depois, Svetlana Khorkina, uma autêntica diva da ginástica e que aos 25 anos é a atual campeã mundial, bem que visava ao ouro de Atenas antes de se aposentar.

Com brilho no cabelo e férrea determinação em seu olhar, Patterson alcançou na soma dos exercícios 38,387 pontos, contra os 38,211 de Khorkina. A americana passou a liderar na prova da trave de equilíbrio, na qual obteve 9,725, e consolidou a vitória no exercício de solo.

Nessa prova, ao observar que Khorkina tivera 9,562, Patterson percebeu que precisava de 9,537 para vencer, mas fez melhor, obtendo 9,712.

"Sou muito competitiva", disse Patterson. "Gosto de vencer". Após a vitória, acenou para a multidão, e então chorou junto ao técnico, o russo Yevgeny Marchenko, que passou a erguê-la no ar. "Você sonha com isso toda a sua vida e aí conquista a medalha de ouro. É emocionante, e estou muito feliz por ter conquistado o ouro", confessou a campeã.

Khorkina, sentada ao lado da americana, sabe que não conseguirá mais realizar esse seu sonho recente. "Ainda sou campeã olímpica", observou, lembrando que conquistou os títulos individuais gerais em 1996 e em 2000. "Isso ninguém me tira".

Martha Karolyi, a coordenadora da equipe americana, disse que os problemas de Carly Patterson na final por equipes aconteceram porque ela não conseguiu se mobilizar após os exercícios preliminares.

"Mas, com certeza, depois de dois dias em que combinou treinos e descanso, ela novamente conseguiu ser a Carly de sempre: muito competitiva, muito confiante e atleta do mais alto nível internacional da ginástica", analisou a coordenadora. Courtney Kupets, a outra competidora americana na disputa individual geral, terminou em nono lugar.

Há vinte anos, na manhã seguinte à vitória de Mary Lou nas Olimpíadas de 1984, meninas em todos Estados Unidos queriam ser iguaizinhas à campeã.

A personalidade esfuziante de Retton vinha no pacote, tinha a ver com aquele entusiasmo todo. Já Carly Patterson é mais discreta. Quando lhe perguntaram se ela mudaria de atitude, respondeu: "Bem, não sei no que vou me transformar, mas acho que vou continuar a ser a mesma Carly. Até agora está dando certo para mim, então..."

Enquanto isso, Khorkina estava mais triste e reservada, mesmo quando um fã acenava um cartaz onde estava escrito "Rainha Khorkina".

"Sinto-me capaz de continuar na ginástica", disse a atleta russa. "Mas talvez seja a hora de encerrar a carreira. Gostaria de ter uma família, de ter filhos, de me sentir amada". Ginasta americana vence ouro no conjunto das provas em Atenas Marcelo Godoy

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