Solteiras preferem Kerry; casadas vão com Bush

Susan Page
Em Wilmington, Delaware

Quer descobrir qual candidato à presidência uma mulher prefere? Olhe para seu dedo.

Pode parecer o começo de uma piada de mau gosto, mas o fato é que a maior parte das mulheres casadas diz que votará no presidente Bush. Por outro lado, em uma proporção de quase 2 para 1, as mulheres solteiras dizem apoiar John Kerry.

A diferença de preferência de voto entre os estados civis é de impressionantes 38 pontos percentuais, de acordo com as pesquisas conjuntas do USA Today/CNN/Gallup. A famosa diferença por gêneros, por sua vez, é de apenas 11 pontos.

Ginny Savopoulos acha que entende o porquê da diferença.

"Inscrevi-me como Republicana quando me casei", diz, passeando pela Praça Rodney, no centro da cidade. A atitude refletia a tendência política do marido e sua própria sensação de segurança econômica. "Quando me divorciei, pensava mais em: 'O que há disponível para uma mulher solteira?'"

Durante o mandato de Bush, ela teve dificuldades para encontrar emprego na sua área, de assessoria em direito, depois de ter sido demitida em 2002. Além disso, ficou chocada com os custos da guerra no Iraque. Ainda está inscrita no partido Republicano, mas pretende voltar em Kerry.

Os analistas dizem que a diferença nos votos de solteiras e casadas baseia-se em diferenças de rotina e cultura. Há 84 anos, as mulheres conquistaram o direito ao voto --a 19ª Emenda foi aprovada em 1920. Atualmente, a divisão eleitoral por estado civil está se tornando importante campo de batalha:

  • Os Republicanos estão se voltando para as mulheres casadas que trabalham fora. Elas costumam votar, mas algumas vezes apóiam os Democratas, outras, os Republicanos. O estrategista de Bush, Matthew Dowd, as chama de "grupo persuasível". As mulheres casadas que não trabalham fora são em grande maioria Republicanas.

    O apoio do presidente ao "horário de trabalho flexível" se destina a agradar as mulheres casadas que trabalham fora, que comumente sentem menos pressão por salário do que por mais tempo com suas famílias. O discurso de Laura Bush na Convenção Nacional Republicana, na próxima terça-feira (31/08), integrará uma programação voltada para as eleitoras.

    No mês passado, foi lançada uma campanha pelo site "W Stands for Women" ("W é abreviação de 'women'", mulheres em inglês) que cita George W. Bush em questões como educação; 50.000 pessoas associaram-se.

  • Os Democratas, pela primeira vez, estão fazendo um esforço para persuadir as mulheres solteiras a se inscreverem para votar. A maioria avassaladora de solteiras, divorciadas e viúvas já apóia Kerry, mas essas têm sido um grupo demográfico que pouco vota. Em 2000, 22 milhões de mulheres não casadas não votaram.

    A promessa de Kerry de proteger empregos e expandir a cobertura médica agrada muitas mulheres solteiras, que em geral trabalham. O Comitê Nacional Democrata anuncia nesta quarta um programa chamado "Take Five", que pede aos seus partidários que convençam cinco mulheres não casadas a votar. Um grupo não partidário chamado 1.000 Flowers está organizando campanhas para registrar eleitoras em salões de beleza em oito Estados disputados.

    "É possível fazer alguma diferença na participação de solteiras --de 1%, 2% ou 5%. Isso pode não parecer muito, mas, em uma eleição disputada, pode fazer toda a diferença do mundo", diz Mark Mellman, assessor de Kerry que faz pesquisas de opinião.

    Por que as mulheres casadas ou solteiras tendem a ver o mundo político de forma tão diferente?

    Uma das razões é que é mais provável a mulher conservadora estar casada, apesar de, é claro, as mulheres liberais também casarem. Celinda Lake, que desenvolve pesquisas de opinião para os Democratas, diz que as mulheres não casadas, em princípio, tendem mais para a política liberal. Além disso, freqüentemente têm dificuldades econômicas.

    A maior parte das mulheres não casadas --54%-- tem renda anual familiar abaixo de US$ 30.000 (em torno de R$ 90.000), de acordo com o censo. Isso é duas vezes a percentagem de mulheres casadas. A maior parte das mulheres casadas --51%-- tem renda familiar de US$ 50.000 (em torno de R$ 150.000) ou mais --o dobro do número de mulheres solteiras.

    Isso torna as mulheres solteiras mais ansiosas que suas amigas casadas em questões de sobrevivência. É menos provável que tenham seguro médico privado e, em geral, têm uma visão maior do que o governo pode e deve fazer para manter programas de segurança social.

    Ter filhos parece intensificar as opiniões dos dois lados. As mulheres casadas com filhos são ainda mais Republicanas que as que não têm; as mulheres não casadas com filhos são ainda mais Democratas que as que não têm.

    "Em termos de dinheiro, é muito duro, especialmente para uma mãe solteira. Preocupo-me todos os dias. Quero economizar algum dinheiro para me aposentar, mas não consigo, porque tenho que pensar nos meus filhos", disse Evelyn Ocasio, 34, viúva que sustenta quatro filhos com seu emprego de recepcionista.

    Ela apóia Kerry, mas não tem certeza se terá tempo para votar.

    Mulheres casadas, que freqüentemente têm a segurança de dois contracheques na família, têm maior probabilidade de citar a liderança de Bush contra o terrorismo como razão para apóiá-lo.

    As mulheres suburbanas, chamadas de "mães de escolinha de futebol", em 2000, foram rebatizadas de "mães da segurança", depois dos ataques de 11 de setembro. Um dos anúncios da campanha de Bush é para elas: "Não posso imaginar a grande agonia de uma mãe ou pai tendo que tomar a decisão de qual filho buscar primeiro no dia 11 de setembro", disse o presidente.

    "Segurança, essa é a prioridade", diz Donna Stranaham, 39, que é casada e tem dois filhos. Ela e uma amiga, Kathy Garrett, estavam voltando ao trabalho após o almoço. Garrett, 46, concorda: "Acho que, para viver no mundo hoje, você tem que estar o tempo todo vigiando suas costas."

    Ela inscreveu sua filha de 10 anos em uma aula de karatê, para que aprenda a se proteger. Garrett está inscrita como Democrata, mas planeja votar em Bush. "Ele teve a coragem de não ficar lá sentado enquanto era estapeado", depois de 11 de setembro. Ela culpa o presidente Clinton por não ter feito o suficiente contra o terrorismo e acha que Kerry "parece dizer o que todos querem ouvir". Bush "não tem medo de reagir", diz ela.

    A diferença na forma de votar entre as mulheres de diferentes estados civis não é nova. Em 1984, ela foi de 17 pontos percentuais, de acordo com pesquisas de boca de urna. Em 1992, foi de 21 pontos percentuais; em 1996, de 29 e, em 2000, de 32.

    Entretanto, essas diferenças não receberam atenção até os resultados quase empatados de 2000. A disputa acirrada intensificou a análise das fatias do eleitorado e alimentou esforços mais agressivos para conquistar cada voto --"micro-alvos", como se diz na área. A divisão também se tornou mais poderosa quando o número de solteiros cresceu e a diferença nos padrões aumentou.

    "Houve uma mudança sísmica na demografia de nosso país", disse Anna Greenber, que faz pesquisas de opinião para os Democratas. Em 1950, um terço das mulheres com mais de 15 anos não eram casadas. Hoje, são quase a metade. (Existem 62,1 milhões de mulheres casadas, 52,5 milhões de mulheres solteiras).

    Entre os homens, também há uma diferença de voto por estado civil. Os casados preferem Bush, 56% a 39%, segundo a pesquisa do USA Today. Homens solteiros preferem Kerry por margem similar, de 55% a 40%.

    No entanto, as mulheres solteiras receberam mais atenção dos estrategistas porque há mais delas --quase 47 milhões contra 38,4 milhões de homens-- e porque as mulheres freqüentemente escolhem seus candidatos perto das eleições e estão menos firmemente decididas.

    Page Gardner, consultora Democrata em Washington ficou intrigada com a diferença de voto pelo estado civil depois de 2000. No ano passado, com um amigo em San Francisco, ela formou um grupo não partidário chamado Women's Voices Women Vote que patrocinou uma pesquisa para saber por que muitas mulheres solteiras não votam.

    Em 2000, 68% das mulheres votaram, mas apenas 52% das mulheres não casadas. A conclusão: as mulheres solteiras frequentemente achavam que suas necessidades não eram ouvidas.

    O grupo combinou resultados do censo com listagens de votação e dados de consumidores para gerar listas de quase 20 milhões de mulheres solteiras, em 12 Estados disputados. Grupos não partidários podem pegar emprestado as listas de eleitores registrados; grupos partidários podem alugá-la.

    Talvez as mulheres solteiras possam ser para os Democratas o que cristãos evangélicos são para os Republicanos. Um grupo enorme de pessoas que, muitas vezes, não se envolveram com política antes, mas têm muitas opiniões alinhadas com o partido. Os esforços para organizar evangélicos pela Coalizão Cristã e outras organizações, nos últimos 25 anos, tornaram-nos parte crucial da base Republicana.

    Uma diferença: cristãos evangélicos estão organizados em igrejas, o que torna mais fácil identificá-los. As mulheres solteiras não.

    Em Bethesda, Maryland, fora de Washington, DC, a aposentada Ann Hoffman recebe cinco voluntários, depois do horário de trabalho. Em um escritório emprestado, fazem uma campanha por telefone co-patrocinada pelo Women's Voices Women Vote e o USAction Education Fund.

    Uma delas é Amy Berger, 48, advogada que hoje não trabalha fora. Ela entra em um site da Web que disca automaticamente números de telefone de uma lista de mulheres não casadas e ainda não inscritas para votar no Estado da Pensilvânia.

    O começo é lento. Os primeiros nove telefonemas são atendidos por secretárias eletrônicas ou são engano. Uma mulher de 92 anos reponde ao 10º telefonema e declara: "Não vou mais votar" e desliga. No 11º telefonema, Berger convence uma mulher de Lebanon, de 58 anos, a se inscrever para votar; ela é Republicana.

    Outra pequena vitória no 20º telefonema: Ann Kuhns, 52, mulher divorciada de Lititz aproveita a chance para se registrar e votar pela primeira vez; ela se inscreve como Democrata. "Antes não ligava muito para política", disse Kuhns em entrevista telefônica, mas desta vez, mal pode esperar para votar em Kerry.

    Ela perdeu muitos empregos nos últimos anos, quando as empresas transferiram suas operações ao exterior. Ela também vê as dificuldades que sua mãe passa para pagar seus remédios. "Este ano, realmente importa", diz ela.

    Ao final da noite, total do grupo: 13 novos inscritos para votar. Um de cada vez. Pesquisa mostra que estado civil influencia a escolha do candidato Deborah Weinberg
  • UOL Cursos Online

    Todos os cursos