'Nova York Contra o Crime' inicia temporada final

Bill Keveney
Em Los Angeles

As paredes têm um tom verde burocrático, desagradável. A mobília do escritório já foi melhor em outras décadas. E o suspeito que está sendo interrogado é um sujeito punk com um esquilo no ombro.

Esse é o lugar onde Andy trabalha, uma das salas onde o detetive Sipowicz já interrogou centenas de criminosos, viciados e até mesmo alguns inocentes, desde 1993. Numa cena que está sendo filmada para a temporada final da série policial "NYPD Blue", exibida terças à noite nos Estados Unidos (ar ar no Brasil pelo canal pago Fox), o ator Dennis Franz exibe todo o repertório de Sipowicz, ridicularizando, atormentando, para no final até sentir pena de um suspeito de esfaqueamento com quem ele "simpatizou"... tudo naquele falatório estilizado característico da série.

O estilo virtuoso de Franz, sua indelével marca registrada, fará parte da história em poucos meses, depois de 12 temporadas e mais de 250 episódios. Apesar do elenco, dos roteiristas e de toda a equipe ainda não estarem prontos para a despedida, eles já querem recordar alguns dos elementos que marcaram a história de "NYPD Blue".

Andy Sipowicz

David Milch, um dos criadores da série e atualmente à frente de "Deadwood", da HBO, acredita que no núcleo da história de "Blue" está o processo de regeneração de Sipowicz,de certa forma inspirado no processo do pai do próprio autor; Dennis Franz diz que construiu Sipowicz com características do produtor-executivo da série, Bill Clark, ex-detetive da polícia de Nova York que no começo da série era apenas um conselheiro, e também com características de Milch, descrito como "um gênio" e "atormentado".

Desde o início um dos protagonistas, Sipowicz se tornou o coração e a alma da série depois da saída prematura de David Caruso, que interpretou na primeira temporada o tira John Kelly.

Ao longo dos anos, Sipowicz combateu o alcoolismo, evoluiu como homem e chefe de família, e em conseqüência disso soube ser leal aos colegas, superando até seus próprios preconceitos raciais, como demonstrou em sua relação com o chefe afro-americano, o tenente Arthur Fancy (James McDaniel).

Por piores que fossem os problemas pessoais de Sipowicz, ele sempre encarou o trabalho com valentia, uma característica apreciada por policiais de verdade, segundo Clark. "Toda vez que os policiais nos encontram, eles elogiam o realismo", diz Henry Simmons (o detetive Baldwin Jones).

Mesmo que os traços mais duros de Sipowicz tenham se atenuado com o tempo, diz Franz, ele prefere as situações em que o personagem está bem atormentado. "Adoro interpretar o Andy principalmente quando ele está uma pilha de nervos."

Mark-Paul Gosselaar, cujo personagem, John Clark Jr, é o parceiro de Sipowicz desde 2001, diz que tem sido total a dedicação de Dennis Franz a Sipowicz e à série. "Em todos os aspectos, Dennis é o cara que comanda a ação."

Os parceiros

Sipowicz teve uma coleção memorável de colegas policiais ao longo dos anos. Ele e Kelly tinham mais ou menos a mesma importancia, e a saída de Caruso gerou temores sobre o futuro da série. Mas o substituto Jimmy Smits, que interpretou Bobby Simone, ajudou "NYPD Blue" a alcançar novos patamares, garante Franz.

Depois que Smits apareceu, os críticos passaram a temerm pelos desempenhos de dois ex-astros mirins, Rick Schroeder (o garotinho de "O Campeão") e Mark Gosselaar, como novos colegas de Sipowicz. Mas os dois acabaram elogiados. E qual foi o parceiro preferido de Dennis Franz, esse tempo todo? "Isso você nunca saberá de mim."

As polêmicas

Nudez e palavrões despertaram protestos logo na estréia, em 1993. Sobre o furor de mídia superficial causado pelos bumbuns de fora que apareceram no programa, os produtores dizem que a série da rede ABC precisava se equiparar à ousadia da concorrência, com todo aquele realismo dos programas da tevê a cabo. Também houve quem não gostasse daquele estilo de câmera balançando o tempo todo.

O co-autor Steven Bochco acredita que o ponto alto aconteceu nos episódios que culminaram na morte de Simone, protagonizados por Smits e Kim Delaney. Os conflitos de Sipowicz com a assistente da procuradoria Sylvia Costas (Sharon Lawrence)e com o chefão Fancy renderam ótimos episódios, recorda Franz.

Franz diz que se sentiu "abandonado" depois que sua segunda esposa no seriado, Charlotte Ross, decidiu não voltar após ter dado a luz na última temporada, o que limitou as possibilidades de explorar a vida doméstica de Sipowicz no ano final.

O elenco e os produtores lembram da sétima temporada, a última de Milch, como a mais difícil. Gordon Clapp (o detetive Greg Medavoy) recorda que houve casos de gravações começando sem que todos os atores tivessem o roteiro em mãos, e Franz diz que algumas vezes os diálogos estavam indecifráveis.

"Havia um componente de exaustão física", Milch fala de seu envolvimento em mais de 150 episódios. "Mas eu acho que a narrativa das histórias era boa."

O legado

O autor Milch diz que "NYPD Blue" mostrou que um drama policial sério, movido pelo carisma dos personagens, poderia ser bem sucedido, numa época em que esse formato de programa passou a ser questionado.

O roteirista Bochco acredita que a série iluminou um caminho que surpreendentemente poucos dramas produzidos pelas redes quiseram seguir. "Tem uma expressão que eu não curto, mas que se realmente se aplica- nós demos o passo adiante, expandimos as fronteiras." Elenco e produtores fazem balanço dos momentos mais intensos Marcelo Godoy

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