Velório pode ser bom lugar para encontrar o amor

Mekeisha Madden
The Detroit News

Um homem de meia-idade está sentado na capela de um velório, chorando a morte de sua mulher. Chega uma amiga antiga dele e consola o novo viúvo, emprestando um ombro amigo onde ele possa chorar. Com o passar do tempo, os dois se aproximam. Um ano depois, eles se tornaram marido e mulher.

Paul Connell conta essa história como quem conhece muito bem essa e outras parecidas. Connell já pôde observar vários romances, quase como se fosse um casamenteiro de um mundo sombrio. Mas, como diretor e co-proprietário da casa funerária A.J. Desmond & Sons, em Royal Oak, no Estado de Michigan, Connell é discreto quanto aos princípios de namoro que já observou, não em cerimônias de casamento, mas em capelas funerárias.

"O amor realmente pode acontecer nos enterros, segundo Connell. "Funerais podem se transformar em reuniões sociais para alguns. Pessoas são apresentadas ou reapresentadas o tempo todo, e acabam se conhecendo mesmo."

Qualquer um que já tenha comparecido a um casamento, ou que tenha visto o filme "Quatro Casamentos e um Funeral", pode confirmar que há uma grande interação o tempo todo entre os participantes da cerimônia. De flertes até verdadeiros relacionamentos consumados, acontece de tudo. E o feitiço do amor é até aguardado e antecipado nos casamentos, especialmente pela turma que está entre os 30 e os 40 anos.

Mas o amor é engraçado e fugaz, dizem os que viveram romances a partir de funerais, e ninguém pode adivinhar exatamente aonde o amor surgirá.

A idéia de ter um romance nesse tipo de situação não é tão incomum assim. No livro "Guerrilla Dating Tactics: Strategies, Tips, and Secrets for Finding Romance" (Táticas de Guerrilha no Namoro: Estratégias, Dicas e Segredos para se Encontrar um Romance), lançado pela editora americana Plume (US$ 13,95), a autora Sharyn Wolf estimula os solteiros a encararem os enterros como possíveis fontes para se encontrar aquele certo alguém em especial.

Na comédia musical "I Love You, You're Perfect, Now Change", (Eu Te Amo, Você É Perfeito; Agora, Mude) dois cidadãos da terceira idade, um viúvo e uma viúva, se encontram num quadro chamado "Enterros São Bons pra se Namorar".

Então vamos aos casos da vida real. Atualmente marido e mulher, Ev e Eugene Williams se encontraram e se apaixonaram em pleno enterro. O casal se encontrou num necrotério em Detroit, onde Eugene trabalhava como porteiro e Ev (leia-se Eh-vee) freqüentava um enterro. Pois ficaram juntos, e estão casados há 14 anos.

"Eu não gostava de necrotérios, mas estava lá para consolar um amigo, diz Ev Williams, 34 anos. "Fui até a porta da capela pegar um pouco de ar e aí Eugene se aproximou, começou a falar comigo e foi ali que tudo começou. Nunca se sabe..."

Yvette Clark, de 40 anos, foi ao enterro do amigo de um amigo. E foi lá que ela conheceu o irmão do defunto. Embora os dois já não estejam mais juntos, namoraram por quase três anos e tiveram uma filha.

"Ele velava o irmão, mas eu percebia que os olhos dele estavam fixados em mim", diz Yvette sobre seu ex. "Mais tarde ele conseguiu meu número de telefone com um amigo. Quando eu descobri que ele queria meu número, não me surpreendi, porque percebi que ele estava de olho. Não fui ao funeral para conhecer alguém, mas simplesmente aconteceu."

A conselheira para situações de luto Barbara Feleo diz que há semelhanças entre romances que surgem em casamentos e os que surgem nos enterros. "Há uma certo teor de vulnerabilidade e também de nostalgia que encontramos nesses dois tipos de eventos", diz Barbara, que também trabalha na casa funerária Desmond & Sons, e que têm 25 anos de experiência em aconselhamento e coordenação de grupos de apoio.

"As pessoas começam a questionar o sentido da vida nos funerais, e nos casamentos as pessoas olham encantados para o noivo e a noiva, querendo de certa forma reproduzir o que observaram".

"Nos dois eventos, as emoções são intensas. Para viúvos e viúvas, encontrar um novo amor pode ser uma experiência meio confusa. Eles não têm certeza se querem mesmo passar novamente pela dor. Então se o amor aparece, seja em que lugar for, é um grande negócio."

Mas há os puristas em termos de funerais, como Krikor Seferian, para quem os enterros não deveriam atrair romances. "A morte é a coisa mais séria que irá lhe acontecer", diz Seferian,56 anos. "Se as pessoas vêm ao seu funeral em busca de romance, isso é uma coisa horrorosa".

"Se for um encontro acidental, então boa sorte. Mas se você vai aos funerais no intuito de paquerar, você deveria se envergonhar. Devem-se respeitar os mortos, enterros não podem ser comparados a bares da moda."

Enquanto isso, Connell, o cupido por acaso, vestido em seu traje de "papa-defuntos", seguirá usando sua voz grave e monótona para contar as inusitadas histórias de amor que ele testemunha.

"São boas histórias", arremata. "E todo mundo gosta de uma boa história de amor."

Romance em lugares inusitados

Quem acha que os enterros são situações estranhas para se encontrar aquele certo alguém especial deveria ler o tal livro "Táticas de Guerrilha no Namoro: Estratégias, Dicas e Segredos para se Encontrar um Romance". Aqui estão outros 10 lugares inusitados onde se pode encontrar um bom parceiro, segundo a autora:

1. Num incêndio;
2. Quando alguém disca o número de telefone errado;
3. Sim, num cemitério;
4. Andando na chuva;
5. Pedindo informações na rua;
6. Numa loja de cartões e presentes, numa livraria ou numa mercearia;
7. Doando sangue;
8. Ao pedir para que alguém troque dinheiro;
9. Em agências de viagem;
10. Andando por aí com uma câmera fotográfica ou com um caderno de desenhos. Namoros iniciados em funerais são mais comuns do que se imagina Marcelo Godoy

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