Detalhes marcam os debates e dedidem eleições

Chuck Raasch
Em Washington

Desde os suspiros de Al Gore até as negações de Gerald Ford da influência comunista na Europa Oriental, os debates presidenciais tiveram grande influência nas eleições americanas desde 1960.

Com tanto em risco na guerra ao terrorismo, a probabilidade é alta de que farão grande diferença mais uma vez. É razoável assumir que os três debates presidenciais e um vice-presidencial, que serão realizados nas próximas duas semanas, produzirão alguma frase, discussão ou imagem que muitos eleitores ainda se lembrarão no dia da eleição, 2 de novembro.

O primeiro debate acontecerá nesta quinta-feira (30/09) em Miami, entre o presidente George W. Bush e o senador Democrata John Kerry, de Massachusetts.

"Provavelmente serão significativos", disse Alan Schroeder, professor de jornalismo da Universidade do Nordeste em Boston e autor de "Presidential Debates: Forty Years of High-Risk TV" (debates presidenciais: quarenta anos de televisão de alto risco).

"Só saberemos depois, mas a situação que estamos vendo antes dos debates lembra a de 1960 ou 1980", disse Schroeder. "Nas duas ocasiões, tivemos uma eleição muito disputada e grande interesse nos debates. Muito estará em jogo nos debates."

A eleição de 1960 foi intensamente disputada entre John F. Kennedy e Richard Nixon. Cientistas políticos há muito acreditam que o fraco desempenho de Nixon nos quatro debates entre os dois pode ter-lhe custado a presidência. No primeiro debate em Chicago, Nixon estava com febre, e seu rosto suado e sombreado fez forte contraste com o jovem e atraente Kennedy.

Em 1980, Ronald Reagan desafiava o presidente Jimmy Carter. Muitos observadores acreditam que Reagan venceu as eleições em um único debate, pouco mais de uma semana antes das eleições. Sua frase: "Lá vem você de novo" --efetivamente lançou dúvidas sobre a liderança de Carter, enquanto passou uma imagem de Reagan afável e controlado.

"Nos dois casos (Kennedy e Reagan), o debate ratificou a aceitabilidade do candidato como presidente", disse Schroeder. "O público foi capaz de imaginar Kennedy como presidente, não de um playboy rico e jovem, mimado pelo pai. Reagan passou uma imagem de razoável e cuidadoso, não um racista que gostava de guerras. Ambos foram capazes de superar os estereótipos e parecerem presidenciais."

O primeiro debate de 2000, entre Gore, vice-presidente, e Bush, então governador do Texas, tornou-se uma disputa de estilo, e não de substância. Gore suspirou muitas vezes durante as respostas de Bush. Ao fazê-lo, perdeu o carisma da sua posição e passou uma impressão de petulante e implicante, segundo os analistas. Gore saiu-se melhor em debates posteriores, mas nunca superou a primeira impressão.

"Gore foi tão mal" no primeiro debate de 2000, disse Schroeder, "que Bush, apesar de não ser terrivelmente bom, pareceu melhor pelo contraste".

De fato, contraste é o que importa em debates na era da mídia. Os debates oferecem aos eleitores alguns momentos não ensaiados de trocas entre os candidatos, fora do palco cuidadosamente controlado e roteiro rígido das campanhas modernas.

Também se pode aprender com os debates do passado. A tarefa diante de Kerry é essencialmente uma combinação das enfrentadas por Reagan e Kennedy.

Um homem rico, Kerry precisa mostrar capacidade de se conectar com o público, indo além das discussões políticas ou debates abstratos. E como Reagan, ele vai tentar usar os debates para mostrar que é sério, rápido, moderado e controlado o suficiente para ser presidente em tempos perigosos. Para alguns candidatos, esses obstáculos foram intransponíveis.

Gerald Ford tornou-se presidente depois que Nixon renunciou, durante o Watergate, mas Ford foi prejudicado por sua própria negação da influência da União Soviética na Europa Oriental, durante um debate em 1976 com Carter. Em 1992, George Bush pai criou uma imagem negativa quando passou a impressão de estar distraído e entediado, quando entendeu mal uma pergunta de uma mulher e olhou para o relógio.

Além disso, essa campanha também está acabando. O duelo Kerry-Bush em Miami, na quinta-feira, será seguido de um debate vice-presidencial do dia 5 de outubro, em Cleveland. Os outros debates presidenciais realizar-se-ão no dia 8 de outubro, em St. Louis, e 13 de outubro, em Tempe, Arizona.

Exceto por 1968 e 1972, houve debates em todas campanhas presidenciais desde 1960. Com milhões de americanos sintonizados, serão a última chance nesta campanha para a história ser feita cara a cara.

Lances decisivos

Confira os debates que ficaram marcados na história --momentos memoráveis de debates presidenciais e vice-presidenciais:

  • 1976: O candidato Republicano à vice-presidência, Bob Dole, ganhou grande parte de sua fama de cão de guarda em um debate com o Democrata Walter Mondale. Entre outras coisas, Dole referiu-se às duas guerras mundiais e ao Vietnã como "guerras Democratas". Dole já tinha-se acalmado quando concorreu à presidência, 20 anos depois, mas as imagens de 76 acompanharam-no por um longo tempo.

  • 1980: Ronald Reagan cunhou sua indagação: "Você está melhor hoje do que estava há quatro anos?" em seu único debate contra o presidente em exercício Jimmy Carter. Políticos até hoje tentam usar a frase.

  • 1984: Reagan, novamente, desta vez referindo-se às sugestões de que era velho demais para ser presidente por uma segunda vez. Ele prometeu não discutir a "juventude e inexperiência" do oponente, Walter Mondale. Até Mondale sorriu.

  • 1988: Michael Dukakis desviou-se de uma pergunta sobre a pena de morte. O ex-âncora da CNN Bernard Shaw perguntou se Dukakis, que se opunha à pena de morte, mudaria de idéia se sua esposa, Kitty, fosse violentada e assassinada. Dukakis ignorou a referência à sua mulher e lançou-se a uma defesa estéril de sua posição política. Os críticos disseram que foi frio e desapaixonado demais; que deveria primeiro ter feito uma defesa retórica de sua mulher.

  • 1988: Uma resposta clássica da história política aconteceu no debate vice-presidencial entre o Republicano Dan Quayle e o Democrata Lloyd Bentsen. Quando Quayle disse que tinha tanta experiência quanto John F. Kennedy quando este se tornou presidente. Bentsen declarou: "Jack Kennedy era meu amigo. Senador, o senhor não é John Kennedy."

  • 1992: O almirante James Stockdale, candidato à vice-presidência com Ross Perot na chapa independente, declarou: "Quem sou eu? Por que estou aqui?" Stockdale saiu-se tão mal que muitos continuavam perguntando isso após o debate. Lances decisivos em confrontos na TV não podem ser desperdiçados Deborah Weinberg
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