Vacina contra a Aids ainda é um sonho distante

Steve Sternberg

Quando a Aids era uma doença nova, os pesquisadores depositavam as suas esperanças para o fim da epidemia na descoberta rápida de uma vacina. Vinte anos depois, eles percebem que o trabalho ainda está apenas começando.

Essa constatação deriva de uma série contínua de resultados desencorajadores, o mais recente ocorrido neste mês, na Conferência sobre Vacinas Contra a Aids 2004, na Suíça, e em julho, na 15ª Conferência Internacional da Aids em Bancoc.

"Estamos lidando com um formidável desafio científico", diz Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. "Essa provavelmente será a vacina mais difícil de ser desenvolvida em toda a história das pesquisas com vacinas".

Ao contrário de outros vírus, o da Aids não produz imunidade em pessoas expostas a ele porque ataca o próprio sistema imunológico. Pessoas que já foram infectadas com uma variedade de HIV ainda são vulneráveis à infecção por outras variedades, uma catástrofe conhecida como "superinfecção".

Como resultado, a maior parte das vacinas testadas até o momento não ficou à altura das expectativas, dizem os pesquisadores. O fracasso mais amplamente divulgado foi a Aidsvax, da VaxGen, que no ano passado falhou em testes em larga escala com 8.000 pessoas na América do Norte e na Tailândia após anos de pesquisas caras.

Quase duas dúzias de protótipos de vacinas estão sendo testadas em seres humanos, comparadas a apenas sete a dois anos. Onze delas fazem parte do programa Rede de Testes de Vacina para o HIV, patrocinado pelo governo dos Estados Unidos.

Várias delas usam combinações caleidoscópicas de genes ou proteínas do HIV --retalhados de forma que não possam se reproduzir e fazer com que as pessoas peguem Aids-- empacotadas em uma vasta gama de vírus enfraquecidos. Até o momento, os pesquisadores dizem que não descobriram nenhuma combinação que gere de forma confiável respostas imunológicas suficientemente poderosas.

Como resultado, dizem eles, a pesquisa da vacina da Aids está em uma encruzilhada, já que abordagens anteriormente promissoras foram postas de lado, havendo pouca certeza quanto ao que se fará daqui por diante.

"Chegar a becos sem saída faz parte da investigação do desconhecido. É assim que a ciência é feita", diz Emilio Emini, diretor de pesquisas com vacinas do grupo Iniciativa Internacional pela Vacina da Aids. "Não é que tenha começado a faltar idéias. Os fracassos te ensinam a modificar o caminho".

As vacinas que são atualmente testadas incluem algumas feitas com fragmentos de material genético puro do vírus da Aids, desprovidos das partes que permitiriam que o HIV se reproduzisse e se tornasse vivo.

Essas que são chamadas vacinas de DNA, que já foram tidas como promissoras, desde então têm sido motivo de desapontamento. Outras são vacinas "cavalo de tróia", feitas a partir do preenchimento do vírus com proteínas inativas do HIV, que os pesquisadores esperam que superestimulem o sistema imunológico.

Várias questões básicas continuam sem resposta. Por exemplo, ninguém sabe que respostas imunológicas protegem mais contra a infecção pelo HIV.

E ninguém descobriu como produzir uma vacina capaz de fazer com que o sistema imunológico gere anticorpos capazes de matar o vírus da Aids antes que este se estabeleça no corpo humano. Os chamados de anticorpos neutralizadores são fundamentais para a eficácia de qualquer vacina.

"Muitos laboratórios estão trabalhando vigorosamente nesse problema", diz Paul Spearman, da Universidade Vanderbilt.

Atualmente, a maior parte das vacinas em desenvolvimento ativa uma parte muito diferente do sistema imunológico, aquele criado para livrar o corpo das células infectadas. Embora essas vacinas não impeçam a infecção, os pesquisadores esperam que elas sirvam como uma espécie de terapia imunológica capaz manter o vírus sob controle, impedir o surgimento dos sintomas e prolongar a vida dos pacientes. As vacinas testadas até o momento não geraram uma resposta forte o suficiente.

Atuais promessas

Alguns testes em seres humanos que devem ser acompanhados atentamente são:

  • Um terceiro teste da Aidsvax está em andamento na Tailândia, envolvendo 16 mil pessoas. Esse estudo utiliza a Aidsvax como uma dose preparatória para um segundo protótipo de vacina feito a partir da combinação de genes inócuos do HIV e do vírus canarypox, pela companhia farmacêutica Aventis.

    Esse estudo tem sido criticado como sendo uma perda de tempo e recursos. "Há evidências substanciais de que essa combinação de vacinas não confere proteção", afirma Charles Rinaldo, da Universidade de Pittsburgh.

  • Um teste de eficiência em pequena escala da vacina da Merck, está planejado para ter início com cerca de 1.500 voluntários até o final do ano. Uma outra vacina cavalo de tróia, ela envolve um gene do HIV inserido em um vírus da gripe comum. Os testes demonstraram que tais vacinas são seguras, mas não previnem a infecção. Ao invés disso, elas ajudam o sistema imunológico a manter o HIV sob controle.

  • Testes preliminares de um protótipo da vacina são desenvolvidos pelo Centro de Pesquisa de Vacinas Niaid. Esse produto encerra vários genes do HIV, de diferentes variedades do vírus, em vírus da gripe modificados por engenharia genética.

    Spearman diz que as últimas vacinas são as que mais entusiasmam entre aquelas que estão sendo desenvolvidas.

    Quando uma abordagem não funciona, deixamo-la de lado e seguimos em frente, explica Seth Berkley, diretor do Instituto Internacional pela Vacina da Aids. Berkley diz que deve desacelerar os testes com uma vacina bastante promovida, que a sua organização financiou e testou em Londres e em Nairóbi, no Quênia. Os estudos revelaram que a vacina só ativou o sistema imunológico de 20% daqueles que a receberam.

    Não há forma de evitar tais fiascos, já que os estudos das vacinas contra o HIV em macacos mostraram não possibilitar a previsão de como essas vacinas atuariam em seres humanos.

    Esse fracasso gerou uma profunda mudança na estratégia de pesquisa, diz Lawrence Corey, diretor da Rede de Testes de Vacinas Contra o HIV.

    Ao invés de selecioná-las com testes em animais, os pesquisadores precisarão realizar dispendiosos testes em pequena escala em seres humanos, diz Corey.

    Segundo Gary Nabel, diretor do Centro de Pesquisas de Vacinas Niaid, o processo exigirá paciência. "Nada acontece do dia para a noite", diz ele. "Especialmente em medicina". Depois de 20 anos, pesquisas não chegam a resultados animadores Danilo Fonseca
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