"Diários" devem ir de motocicleta até o Oscar

Susan Wloszczyna
Em Toronto

O que você recebe quando escala um cineasta brasileiro de primeira linha que dirige um ator mexicano de sucesso, para viver um jovem médico argentino que um dia se tornará o modelo rebelde marxista para a revolução cubana?

A resposta é: "Diários de Motocicleta", uma inspiradora história sobre amadurecimento e camaradagem ao longo de uma longa estrada cheia de visuais magníficos, humor do dia-a-dia e emoções universais, que poderá seguir até os Oscars. O filme tem estréia ampla na América do Norte nessa sexta-feira, dia 1º de outubro.

"Diários", que foi aplaudido nos festivais de cinema de Sundance e Toronto, é um filme baseado numa viagem real que aconteceu em 1952 através da América do Sul. Juntos na viagem com a velha motocicleta, que acaba pifando e obrigando os amigos a seguirem a pé, estão o gordinho Alberto, 29 anos, um bioquímico fanfarrão, e o asmático Ernesto, 23 anos, um estudante de medicina de olhar sonhador. Que mais tarde seria conhecido como Che Guevara.

"O que nos atraiu foi a extraordinária humanidade presente nesses dois personagens", diz o diretor Walter Salles, 48 anos, cujo "Central do Brasil" ganhou duas indicações ao Oscar em 1998. "O filme nos permitiu um olhar sobre a história que precedeu a História com H maiúsculo".

Atualmente, "El Che" pode até ser uma figura obscura para muitos nos Estados Unidos, apesar da presença como ícone macho pop presente nas camisetas. Mas, antes de sua execução em 1967, o inventor das táticas de guerrilha chegou a ser temido e reverenciado por seu compromisso com a causa comunista.

Mas a política explícita está basicamente fora do quadro em "Diários". Em vez disso, o foco está nas pessoas. Salles, que revive a rota original através do Chile, do Peru e pela Amazônia, apresenta o futuro Che como um aventureiro romântico que desenvolve uma consciência social, depois de encontros emocionantes com camponeses, bóias-frias e leprosos.

Quem incorpora Ernesto com vivacidade é Gael Garcia Bernal, 25 anos, cuja sensibilidade aqui contrasta luminosamente com a carranca ao estilo de Marlon Brando presente no erótico "E sua Mãe Também", de 2001.

Bernal já havia interpretado uma versão mais velha de Che em "Fidel", minissérie de 2002 produzida pelo canal Showtime. "O filme para a TV me ajudou em dois aspectos", diz o astro mexicano. "Ajudou a pagar o aluguel, esse foi um dos aspectos. E também me ajudou a fazer justiça ao personagem.

De certa forma, sou a pessoa que sou por causa da revolução cubana. Foi um acontecimento que mudou o mundo".

Quando lhe perguntam por que escolheu Bernal como seu protagonista, Salles diz: "Eu queria um ator com a densidade e a intensidade de alma que Guevara tinha aos 23 anos, e também com o seu grau de maturidade. Eu o havia visto em "Amores Perros" (onde Bernal se lançou internacionalmente em 2000), e fiquei tocado com a força do desempenho dele, poderoso e ao mesmo tempo econômico."

Tanto Salles como Bernal estão na linha de frente da nova onda ascendente do cinema latino-americano, que também inclui diretores como Alfonse Cuarón (que veio a fazer "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban") e Alejandro Gonzalez Inarritu ("21 Gramas" e "Amores Perros").

Salles e Gael não se importam se a mídia tende a colocar os cineastas
latino-americanos "no mesmo saco". "Nossas fronteiras são apenas administrativas, não valem tanto assim na vida real", diz Bernal, para depois acrescentar: "A não ser que se esteja jogando futebol".

Outra cinebiografia de Che está sendo produzida, um relato em língua inglesa sobre seus anos posteriores, menos compassivos e mais radicais, estrelado por Benício Del Toro e dirigido por Steven Soderbergh.

E por que essa súbita onda de interesse pelo revolucionário?

Bernal sugere que "o fato de ele ter sido sempre verdadeiro com si mesmo explica por que ele permaneceu como um ídolo contemporâneo."

Salles está atualmente trabalhando em Hollywood, envolvido com a pós-produção de um suspense para a Disney, "Dark Water", refilmagem de um roteiro japonês sobre uma mãe solteira (Jennifer Connelly) e sua filha, que se mudam para um apartamento assombrado. O cineasta brasileiro o compara ao arrepiante "Repulsa ao Sexo", de Roman Polanski.

Mas ele já volta ao Brasil ano que vem para realizar um pequeno filme sobre quatro irmãos. "Eu não tenho tanto interesse no que você chamaria de uma carreira. Estou interessado em fazer filmes que sejam interessantes num determinado momento específico, para depois voltar às minhas raízes".

Gael Bernal, que já namorou Natalie Portman, estrela de um dos recentes episódios de "Guerra nas Estrelas", fica irritado com as sugestões de que ele poderia se tornar "hollywoodiano".

Mas ele virá aos Estados Unidos. Gael acabou de rodar no Texas uma produção independente, "The King", para o documentarista britânico James Marsh, sobre um veterano da Marinha que tenta se reaproximar do pai religioso e recluso, vivido por William Hurt.

O outro sucesso de Bernal no circuito dos festivais é o noir homossexual "Má Educação", do autor espanhol Pedro Almodóvar, com estréia americana prevista para 19 de novembro. O dinâmico Gael aparece em três papéis bem diferentes, entre eles um misterioso travesti junkie chamado Zahara.

O ator se diverte um pouco quando ouve que, de peruca loura e roupa provocante, parece com Julia Roberts. "Para mim isso até que é bom. Não sei se é para a Julia Roberts".

Salles provoca ao perguntar se Gael preferiria ser comparado a Penelope Cruz. Diplomático, o mexicano responde: "Por que ter que optar? Depende do ângulo. Pela esquerda, Julia Roberts. Pela direita, Penelope Cruz". Aí ele sorri e arremata: "E, por baixo, Shrek." Filme de Walter Salles é inspiradora história de amadurecimento Marcelo Godoy

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