Terror e economia dominam eleição na Austrália

David J. Lynch
Em Sydney

Em dois dias, os australianos escolherão para líder um dos maiores aliados do presidente Bush na guerra do Iraque ou um político que diz que o líder americano "é o presidente mais perigoso e incompetente na recente memória".

O primeiro-ministro em exercício, John Howard, que enviou 2 mil soldados americanos ao Iraque juntamente com a força americana de invasão em 2003, está tentando um quarto mandato consecutivo na eleição parlamentar deste sábado (09/10). O Partido Trabalhista, da oposição, é liderado por Mark Latham, 43 anos, que prometeu retirar os soldados australianos remanescentes no Iraque até o Natal.

Não há dúvida sobre qual é o preferido de Bush na disputa, que permanece apertada demais para se prever. Durante a visita do líder australiano ao rancho de Bush em Crawford, Texas, em 2003, Bush rotulou Howard, 65 anos, de um "homem de aço". Neste verão, o presidente disse que a retirada liderada por Latham do Iraque seria "desastrosa" e "encorajaria o inimigo".

O atual papel da Austrália no Iraque se limita a modestos 850 soldados e marinheiros. Mas a eleição australiana é significativa: marcará a primeira vez em que um líder que enviou soldados para compor a invasão liderada pelos americanos no ano passado enfrentará os eleitores. E o momento levanta a possibilidade de Washington poder perder um forte aliado no Iraque 24 dias antes da eleição presidencial americana.

A profunda diferença em relação ao Iraque entre a coalizão de governo Liberal-Nacional de Howard e seus oponentes trabalhistas gerou a preocupação de que a Al Qaeda poderia tentar influenciar a votação. Um ataque terrorista antes da eleição na Espanha, de autoria de um grupo afiliado da Al Qaeda, provocou a derrota do governo que apoiou a guerra.

No final de agosto, o ex-czar americano de contraterrorismo, Richard Clarke, alertou em uma entrevista para a Australian Broadcasting Corp. que a Al Qaeda poderia tentar um ato semelhante na Austrália. Dez dias depois, um poderoso carro-bomba explodiu do lado de fora da embaixada australiana em Jacarta, Indonésia, matando nove pessoas e ferindo mais de 100.

Os dois candidatos suspenderam a campanha por três dias antes de se encontrarem em um debate transmitido pela televisão. Durante o debate, Latham acrescentou ao seu plano de retirada do Iraque uma fala dura sobre eliminar os grupos terroristas regionais em "nossa parte do mundo".

Nos últimos dias de uma campanha apertada, o Partido Trabalhista está lutando para conquistar as 12 cadeiras de que necessita para formar o próximo governo. E apesar de algumas pesquisas nacionais apontarem os trabalhistas com uma ligeira vantagem sobre a coalizão de Howard, os candidatos trabalhistas estão atrás em distritos chaves.

Se Howard se mantiver no poder, isto ocorrerá apesar do amplo desconforto popular com sua política em relação ao Iraque. Ao ser perguntado sobre a situação lá em uma breve entrevista para o USA Today em meio à campanha, Howard disse: "Eu não tenho nenhum arrependimento sobre nossa decisão".

Mas a maioria dos eleitores diz que o envolvimento da Austrália na guerra foi um erro, e 62% dizem que acreditam que Howard os enganou, segundo Sol Lebovic, diretor administrativo da firma de pesquisa Newspoll.

O Iraque tem sido ofuscado na campanha pela economia e por planos rivais para novos programas sociais. Mas o legado político da guerra esteve evidente no último domingo, dia 3, quando cerca de 6 mil manifestantes se reuniram ao lado da prefeitura de Sydney sob faixas que diziam: "Acabem com os mentiras. Tragam as tropas para casa".

Enquanto a multidão cantava "chega de mentira", a estudante de doutorado Kathy Rockwell disse culpar as políticas pró-Estados Unidos de Howard pelo aumento do risco de ataques terroristas aqui. "John Howard é o único responsável por atrair o flagelo da Al Qaeda para a Austrália. (...) Agora nós somos um dos quatro principais alvos da Al Qaeda, enquanto antes eles provavelmente nem tinham conhecimento de nós", disse ela.

A posição de Howard em relação ao Iraque também lhe arranjou um outro adversário na disputa pela sua cadeira no Parlamento: Andrew Wilkie, 42 anos, um ex-oficial da inteligência que renunciou em março de 2003 por causa da guerra. "Muitos australianos estão dizendo que John Howard tem uma relação obsessiva com o governo Bush, a ponto de estarmos perdendo nossa independência em política externa e segurança nacional", disse Wilkie, que se tornou oficial de inteligência após 20 anos de carreira militar.

É a economia, idiota

Mas apesar de a maioria reprovar o envolvimento no Iraque, a questão não tem muito peso político. A alegria dos eleitores com a atuação de Howard na economia, agora em seu 13º ano consecutivo de crescimento, aparentemente supera a inquietação diante da política externa.

Os analistas dizem que Howard foi cuidadoso desde o início ao limitar o envolvimento da Austrália e minimizar o risco político potencial para seu governo. Nenhum soldado australiano foi morto até o momento. O pedido de Howard para permanência "até a conclusão do trabalho" parece ter conquistado pelo menos um apoio contrariado mesmo por parte dos oponentes da decisão inicial de envolvimento.

A coalizão de governo de Howard, diferente do Partido Trabalhista do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, continua unida em relação ao Iraque.

É considerada certa a manutenção de sua cadeira no Parlamento, que ele ocupa desde 1974. E os eleitores continuam preferindo Howard a Latham como primeiro-ministro potencial, especialmente como administrador da economia, segundo a Newspoll. "Ele não é necessariamente apreciado, mas há um respeito", disse Lebovic.

Em uma parada de campanha pelo shopping center suburbano Macquarie Center, na manhã de sábado, Howard, que é um tanto displicente como candidato, atraiu multidões calorosas que o aplaudiram enquanto passava.

"Eu acho que o primeiro-ministro conquistou resultados surpreendentes (...) um pequeno milagre econômico australiano", disse David Robinson, 39 anos, um investidor autônomo.

Latham tem sido mais cauteloso em relação ao Iraque após a repercussão negativa à sua promessa de retirar as tropas até o Natal. Seu índice de aprovação caiu de 66% para 52% desde que apresentou o plano em um comentário improvisado durante uma entrevista de rádio, em 23 de março. "Latham tornou mais difícil para si mesmo explorar preocupações genuínas sobre o Iraque ao ir longe demais. (...) Não foi seu melhor momento", disse Hugh White, diretor do Instituto Australiano de Política Estratégica.

De lá para cá, Latham tem assegurado aos eleitores seu compromisso com a aliança de defesa de 52 anos da Austrália com os Estados Unidos. Ele nomeou um ex-ministro da Defesa, com reputação pró-Estados Unidos, para seu Gabinete paralelo e prometeu deixar no Iraque um pequeno número de australianos para proteger os diplomatas do país.

Ele também tem falado sobre a necessidade de combater o Jemaah Islamiyah, que reivindicou a responsabilidade por dois ataques terroristas, incluindo o atentado a bomba de 2002 que matou 202 pessoas, 88 delas australianas, em Bali, Indonésia. Mas para a maioria das pessoas aqui, tanto o Iraque quanto a ameaça terrorista parecem distantes. Ao redor da Ópera de Sydney, o famoso cartão-postal, não há barreiras de concreto ou polícia altamente armada como em Washington ou Nova York.

"Há um pouco de esquizofrenia nacional. Intelectualmente, as pessoas reconhecem que a Austrália está correndo um risco maior de ataques terroristas do que antes", disse White. "Mas a Austrália continua, talvez insensatamente, muito mais relaxada e à vontade a respeito. Não é uma questão tão visceral aqui como é nos Estados Unidos." Aliado e opositor de Bush se enfrentarão nas urnas neste sábado George El Khouri Andolfato

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