Diferenças políticas podem arruinar o casamento

Marilyn Elias

As profundas divisões políticas dos Estados Unidos, assim como as que existem numa eleição em qualquer país, refletem-se em terríveis brigas conjugais, enquanto casais de opiniões políticas opostas transformam suas conversas íntimas em guerras de palavras.

"As diferenças políticas estão causando muito mais problemas aos casamentos do que antes. É uma febre", diz Anthony Jurich, terapeuta de casamento há 35 anos e professor da Universidade Estadual do Kansas, na região central dos EUA.

Em Washington D.C., capital do país, a psicóloga Renata Brooks percebeu a mesma coisa. Até poucos anos atrás, os casais nunca listavam brigas políticas como problema nos questionários anteriores à terapia; hoje, mais de um terço mencionam a política como ponto doloroso.

Até os solteiros estão adotando uma abordagem mais politicamente polarizada ao procurarem parceiros. Hoje, multiplicam-se os serviços de namoro na Internet ligados a preferências políticas. ConservativeMatch.com e SingleRepublican.com pendem para a direita, e DemocraticSingles.net e ActForLove.org pendem para a esquerda.

Barbie Adler, presidente de uma empresa de namoro para solteiros ricos Selective Search, observou uma mudança nos cinco anos que está no ramo para preferências partidárias mais definidas.

Apesar disso, as diferenças políticas não deveriam arruinar os relacionamentos, dizem os especialistas. Os casais que se amam e se comunicam com respeito podem suavizar a dura experiência de sempre cancelar o voto do outro.

Essas brigas parecem sedutoras durante o namoro, mas "depois do casamento, as luvas são retiradas", diz Joshua Coleman, psicólogo de San Francisco e autor de "The Marriage Makeover: Finding Happiness in Imperfect Harmony" (As Pazes no Casamento: Encontrando Felicidade na Harmonia Imperfeita).

Coleman acha que propagandas políticas muito agressivas na televisão estão inflamando os casais. "Esses programas parecem mais entretenimento dos tempos dos gladiadores do que debates razoáveis sobre as questões específicas", diz ele.

As pessoas estão discutindo tanto porque estão com medo, diz Jurich. "Cada lado acha que, se o outro lado entrar, estaremos perdidos".

Quando o World Trade Center caiu, "tivemos a sensação de estar em guerra permanente", diz Brooks. "As pessoas sentem como se sua sobrevivência estivesse em jogo."

"Quando você está desesperado, você se apega ainda mais ao bote salva-vidas. É difícil ser agradável com uma pessoa cujas decisões podem tirar isso de você", diz Marion Solomon, psicóloga de Los Angeles e autora de "Narcissism and Intimacy: Love and Marriage in an Age of Confusion" (Narcisismo e Intimidade: Amor e Casamento na Era da Confusão).

Mulheres democratas X maridos republicanos

Alynne Sharp, artista de Jacksonville, ama seu marido. "Mas nós dois temos opiniões tão fortes e divergentes nessa eleição que tem sido difícil para mim", diz ela. Seu marido, Philip, Republicano, "assiste a Fox, Fox e Fox, o tempo todo", diz ela. O canal de notícias da Fox nos EUA apóia a reeleição de Bush incondicionalmente.

"Aí, entramos no carro e é Rush Limbaugh", diz ela, referindo-se a um dos locutores mais conservadores do país, que defende os republicanos. Ela insiste em dividir o tempo de rádio: meia hora da Rádio Pública Nacional para cada meia hora de Limbaugh.

Quando vai à casa de sua sogra, Republicana de toda a vida, a implicância aumenta. "Eles não param, e acho difícil argumentar. Algumas vezes, tento fechar o assunto, dizendo: 'Vocês podem estar certos'. Na minha cabeça estou dizendo: 'Mas não estão.'"

Gretchen Klein, professora de Lincolnshire, Illinois, freqüentemente discute com seu marido, Bennett Rodick. "Ele me provoca. Ele diz: 'Vocês liberais... veja o que estão tentando fazer agora. Vocês todos querem me fazer pagar mais impostos!'" Quando Klein fala da necessidade de consciência social, ele atira de volta: "'Por que você não manda um cheque para o governo? Por que não devolve o dinheiro do alívio fiscal, Gretchen?'"

A política é importante para Klein, cujo pai concorreu para o Senado de Nova York pelo Partido Democrata. Ela fica feliz em ver que seu filho David, de 15 anos, tende para a esquerda (Philip, de 12, ainda não fala de política) e até conta para ela piadas de Jay Leno contra Bush.

Apesar de suas disputas políticas, Klein diz que seu casamento é basicamente feliz. "Concordamos em tantas coisas: como criar os filhos, como lidar com dinheiro, religião e valores. Mas a posição política de Bennett me incomoda. Ainda tenho esperanças de fazê-lo mudar de idéia."

Os que conseguem lidar bem com as diferenças políticas tendem a ser os mesmos que mostram respeito e tolerância em outras áreas. Se surgem batalhas selvagens em torno da política, "em geral, há um histórico de desrespeito mútuo", diz Solomon.

Deborah Voves, gerente de escritório, discorda de seu marido, Steve, partidário de Bush. "Nós também temos diferenças religiosas, diferenças em como educar os filhos, em como lidar com o dinheiro e tantas outras", diz ela. Eles decidiram ficar juntos --por enquanto-- e parar de discutir, para evitar constrangimentos aos seus dois filhos adolescentes.

"Somos mais como colegas de quarto", diz Voves. Ela entende que suas brigas políticas refletem como são diferentes, e essas diferenças centrais, que estão além da política, realmente prejudicam o casamento.

Os casais que conseguem trafegar com sucesso por uma "casa dividida" mostram respeito, usam de humor e se atêm às questões em vez de recorrerem a xingamentos, dizem os especialistas.

Quando Sharp encontrou uma garrafa grande de Ketchup com a letra "W" em sua cozinha, não teve dúvidas sobre quem a colocara ali. "Achei tão engraçado", diz ela. Sharp ainda fala bem de seu marido, Philip. "Eu o respeito por ter sua opinião, mesmo que não seja a minha. Ele se preocupa com as coisas, ele tem conhecimento e está fazendo uma decisão informada sobre o que ele quer."

Jerry Lewine, consultor de informática em Agoura Hills, Califórnia e partidário de Bush, conversa sobre política com sua mulher liberal, a administradora de hospital Sheryl Rudie. "Ela é realmente teimosa, mas brilhante. Ela faz círculos a minha volta", diz Lewine. "Mesmo quando sei que ela está errada, tento manter a paz. Digamos que nós dois sabemos quando parar."

Ambos vieram de casamentos infelizes e criam três filhos. "Amamos-nos", diz Lewine. "Nossos valores são absolutamente os mesmos, e fomos criados de forma similar. Não vamos deixar a política atrapalhar".

É um mito achar que as pessoas precisam de uma alma gêmea, que concorda com tudo, para terem um casamento feliz, diz Diane Sollee da SmartMarriages.com, um centro de informações sobre o casamento. Casais casados ou que se divorciam têm o mesmo número de desavenças, segundo as pesquisas. A diferença está que os que se separam ridicularizam culpam e criticam seus cônjuges durante as brigas.

O ambiente político pesado depois de 11 de setembro pode estar encorajando tal falta de respeito, diz Sollee. Casais que brigam devem tentar fazer cursos de educação de casamento para aprender a viver em paz com diferenças políticas ou outras, aconselha.

Os opostos podem se atrair

Para os casais que sabem discutir, a política pode criar casais estranhos --porém felizes. Por exemplo, a união de Christine Black e B. Jay Cooper pode parecer brincadeira do destino.

Cooper foi subsecretário de imprensa da Casa Branca no governo Reagan e do primeiro Bush e também trabalhou para o Comitê Nacional Republicano. Black, jornalista política, trabalhou para Teresa Heinz Kerry e ainda é consultora dos programas filantrópicos de Kerry. Ela conhece John Kerry há 32 anos e diz que já perdeu a conta das contribuições que fez a ele. Black e Cooper casaram-se em julho, depois de não se verem por 30 anos, desde que foram colegas de faculdade.

Cooper acha que deu a Black e seus amigos Democratas um banho de água fria de realidade: "Eles acham que todos os Republicanos são contra o aborto, contra os gays, contra os pobres", diz ele.

Não que tenha atraído Black ao partido. "Temos discussões apaixonadas. Não acho que jamais a convenci de nada e que nunca a convencerei". Mas ele a ama e adora tentar. "É divertido, é intelectualmente estimulante. Apreciamos estudar os anúncios políticos objetivamente e discutir as campanhas.'

Black vê seu marido como um idealista leal, apesar de enganado. "Ele gosta tanto do pai de George Bush e conhece tanto a família Bush que não consegue acreditar que sejam tão venais quanto eu acredito. Ele simplesmente aceita com fé."

Um problema para o casamento? De forma alguma, diz Black. "A vida é muito curta. Somos duas pessoas que encontraram o par perfeito aos 50".

Wade Horn, psicólogo, foi criado nos anos 60, em meio a diferenças políticas desse tipo em casa. Sua mãe era esquerdista ardente, seu pai um homem de negócios conservador. Nos debates à mesa, esperava-se que os filhos participassem.

"A idéia que eles pudessem se separar parecia tão improvável quanto um dia acordar na Lua", diz Horn, subsecretário de crianças e famílias do Departamento de Saúde de Serviços Humanos. "Estava claro que seu compromisso era muito maior do que suas diferenças nessas questões."

Agora, Horn diz que seus seis irmãos adultos têm opiniões políticas variadas. Seus pais acabam de celebrar seu 52º aniversário de casamento.

E Horn recomenda o ritual de seu pai ao final do jantar, para os pais que buscam paz. "Ele se levantava e dizia: 'Acho que é isso que faz um cavalo correr' e ia lavar os pratos", diz Horn. Durante eleições, maridos e mulheres vivem choque de ideologias Deborah Weinberg

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