Cultura pop satura a campanha eleitoral dos EUA

Chuck Raasch
Em Washington

À medida que se aproxima o dia das eleições [2 de novrembro, próxima terça-feira], como estariam exatamente o "coração e a alma" dos Estados Unidos?

Seria o país de Bruce Springsteen, o astro de rock dos operários, que apresentou o concerto anti-Bush "Vote for Change" ("Vote pela Mudança") nos Estados onde a eleição está sendo mais disputada? Ou os Estados Unidos que se agrupam nos circuitos de Nascar, vermelhos, brancos e azuis, para apoiar o presidente Bush?

As respostas dividem o país, vizinho a vizinho. E aquilo que define o coração e a alma dos Estados Unidos, tanto quanto a guerra no Iraque ou a reforma do sistema de saúde, é a razão pela qual a cultura popular se tornou parte tão integrante da campanha de 2004.

Quando o candidato democrata John Kerry descreveu um grupo de músicos e atores que criticaram o presidente Bush --às vezes com palavras pesadas-- como a representação do "coração e da alma" do país, isso intensificou a guerra de cultura pop que foi injetada na campanha desde o primeiro dia.

Os republicanos contra-atacaram rapidamente, rotulando os comediantes Chevy Chase e Whoopi Goldberg --que lideraram o evento para arrecadação de verbas para Kerry-- de elitistas sem vínculos com a realidade, sem nada de significativo a dizer, e que apelam para um humor humilhante e para a baixaria crua.

Mas a batalha foi além da caricatura ou dos ataques verbais. Do polêmico filme anti-Bush de Michael Moore, "Fahrenheit 9/11", visto por milhões praticamente da noite para o dia, e atacado como falso e difamatório, às respostas pró-Bush dos astros da Federação Mundial de Luta Livre e cantores de música country, a cultura popular envolveu a campanha de 2004 de formas sem precedentes.

Há dois motivos principais para isso:

  • O 11 de setembro permeou toda a cultura, da religião a Hollywood. "As pessoas costumavam ver a política da mesma forma que viam o vôlei olímpico --algo ligeiramente interessante a cada quatro anos", diz Matthew Felling, diretor de mídia do Centro de Mídia e Questões Públicas. "Mas o 11 de setembro nos fez acreditar que o nosso comportamento no dia da eleição pode nos afetar a qualquer momento, e quando menos esperarmos".

  • A cultura rapidamente se dividiu em nichos de audiência, especialmente os canais a cabo e os grupos de interesse que se proliferam --um grupo de observação de pássaros recentemente anunciou o seu apoio a Kerry.

    Para se comunicar politicamente com as pessoas, é preciso atingir os nichos. É por isso que Bush ou Kerry aparecem no programa "Live with Regis and Kelly" ou se sentam com Jon Stewart no "Daily Show", sem, entretanto, darem as caras no "Face the Nation".

    "As campanhas políticas precisaram procurar cada nicho de audiência para alcançar aqueles mágicos 50,1%", diz Felling. "Não há carência de vozes que te digam isso. Não dá para nos fragmentarmos ainda mais".

    Os republicanos responderam à turnê "Vote for Change" de Springsteen enviando uma carreta de 18 rodas a corridas de Nascar e feiras estaduais para registrar eleitores. Com iniciativas desse tipo, os republicanos afirmam ter conseguido registrar mais de 3 milhões de novos eleitores.

    Há quem pense que isso tem atraído eleitores notadamente jovens. Um recente relatório estima que 30% dos eleitores com idades entre 18 e 30 anos se registraram nos últimos seis meses.

    Mas as imagens culturais geram mais votação?

    "O que elas podem fazer é atrair a sua atenção, permitindo que os partidos possam transmitir suas mensagens", explica Kathleen Hall Jamieson, diretora da Escola de Comunicação Annenberg, da Universidade da Pensilvânia. "A pergunta interessante é: será que essas turnês de artistas mobilizarão o eleitor?".

    Alguns eleitores jovens acreditam que sim.

    "Desta vez ouvi mais políticos falando do que no passado", diz David Ruby, um correligionário de Kerry de 22 anos da Universidade de Wisconsin-Oshkosh que assiste regularmente ao programa de Jon Stewart.

    O programa zomba da política e da cobertura tradicional feita pela mídia, mas se tornou uma fonte importante de informação política para jovens telespectadores, de acordo com vários estudos.

    "O que ele passa são informações que podemos obter em qualquer lugar, mas ele as apresenta de uma forma que zomba de todos os aspectos dessas notícias", diz Ruby. "Assim, isso torna divertida a assimilação das informações, e ele nos provoca para procuremos informações em outros locais".

    Mas Hall Jamieson também acha que Stewart pode ser uma arma secreta de Kerry porque o comediante tem demonstrado ser muito contrário a Bush. Outros se preocupam com a possibilidade de que programas como o de Stewart ou os concertos acordem os eleitores, sem, entretanto, informá-los.

    "Creio que eles têm um impacto sobre o eleitor, mas não sei se esse impacto é bom", diz Nicole Fischer, 21, eleitora de Bush e estudante da Universidade de Wisconsin, que, como Ruby, diz que não se deixa influenciar pelo que dizem os apresentadores de TV. "Espero que tenhamos votos conscientes, ao invés de apenas ignorância".

    Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em março de 2003, a instituição Pew Research Center for the People & the Press descobriu que amigos e a família tinham uma influência sobre os pontos de vista de 53% dos entrevistados. As posições dos líderes religiosos afetaram 33% dos entrevistados, mas os astros de Hollywood apenas 7%.

    O diretor do Pew, Andrew Kohut, diz que se os apresentadores de TV tiverem influência sobre o eleitor em 2004, isso vai ajudar os democratas, porque grande parte dos apresentadores apóia Kerry. Mas ele afirma que tal impacto pode ser mínimo, se comparado ao contato direto com amigos, familiares ou cabos-eleitorais.

    E quando se trata desses contatos, os republicanos estão em vantagem. A pesquisa feita pelo Pew entre 15 e 19 de outubro revelou que 7% dos entrevistados foram abordados por militantes republicanos, 6% pelos democratas e 7% por ambos.

    "Eu não sei se entendo bem o impacto que os astros de Hollywood podem ter ao dizerem aos eleitores em quem votar", diz Nicolle Devenish, diretora de comunicações da campanha de Bush. "Essa certamente não é uma estratégia na qual confiamos". Artistas, músicos e apresentadores tentam influenciar o público Danilo Fonseca
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