Só um clone de Clinton daria vitória a democratas

Chuck Raasch
Em Washington

Não foi tão perto assim.

A magnitude da reeleição de George W. Bush e o triunfo devastador das propostas contra o casamento gay, colocadas em votação nas urnas de 11 Estados, podem não representar um oceano de mudanças na política norte-americana, mas certamente indicam uma direção. O 2 de novembro foi um dia esplêndido para conservadores sociais, redutores de impostos e defensores da doutrina política antiterrorista do presidente baseada na ação preventiva contra supostos inimigos, externos e domésticos.

Embora o foco tenha-se concentrado em alguns poucos Estados, Bush venceu por três pontos percentuais em nível nacional, e ultrapassou o limite de 50% dos votos populares que nenhum presidente rompera desde 1988. Até mesmo as vitórias morais foram poucas e esparsas para os democratas: os candidatos ao senado em Illinois (Barack Obama) e Colorado (Richard Salazar). Bush retorna a Washington acreditando que é dono de um mandato incontestável e de um Congresso republicano mais forte para apoiá-lo.

Os democratas estão em um estado de confusão pior do que aquele que assolava o partido esfacelado que Bill Clinton revigorou após 1988, porque os republicanos tiveram 16 anos para fortificar o sólido Sul, boa parte da região ocidental das Montanhas Rochosas e as Grandes Planícies. Hillary Rodham Clinton não conta com a popularidade do seu marido no Sul e nas áreas rurais.

Sob uma perspectiva nacional, os democratas estão sem liderança, formando uma coleção balcanizada de interesses que apostou pesadamente na possibilidade de que o ódio a Bush, no final do jogo, fosse a carta decisiva com a qual contavam.

E um grande indicador do estado atual dos democratas é o fato de o partido de Mike Mansfield e Lyndon Johnson estar olhando para Obama, que possui um atraente currículo de século 21, mas que nunca serviu um dia sequer no Senado, e que está sendo assinalado como um líder nacional imediato.

Grande parte das atenções da imprensa antes da eleição se voltou para os esforços dos democratas no sentido de aumentar o comparecimento dos eleitores às urnas, já foi o Partido Democrata que dedicou mais tempo a essa meta. Mas os republicanos seguiram o script de Karl Rove de forma mais discreta e eficiente e ganharam a batalha pelo comparecimento do eleitorado. Eles se basearam mais em voluntários, enquanto os democratas pagaram US$ 8 a hora aos seus cabos eleitorais pelo mesmo serviço.

"Não é possível comprar a simpatia do eleitor", diz Ed Gillespie, diretor nacional do Partido Republicano. Os republicanos transformaram uma eleição difícil em um mandato nítido para Bush por meio da paixão dos voluntários.

Será que John Kerry representará o ápice do atual Partido Democrata? Ele foi o segundo liberal de Massachusetts a perder uma eleição em 16 anos, mas recebeu também o segundo maior número de votos já dados a qualquer candidato presidencial da história.

Mas o seu partido foi também massacrado no Sul, onde cinco cadeiras democratas no Senado passaram para os republicanos. O partido não chegou sequer a apresentar competitividade em vastas porções das Grandes Planícies e do Oeste, onde não há muitos votos, mas que são locais de onde vieram várias lideranças passadas do Partido Democrata (Mansfield, de Montana, e George McGovern, e o recém-derrotado Tom Daschle, de Dakota do Sul).

O fato de não ser competitivo em metade do país é algo que coloca em dúvida o alegado status nacional do partido. É difícil imaginar qualquer democrata ganhando a Casa Branca até que as lideranças do partido encontrem um jeito de clonar Bill Clinton ou de falar aos eleitores sulistas em uma linguagem que não pareça ser culturalmente descompassada ou condescendente.

Vários momentos da campanha indicaram problemas culturais dos democratas:

  • A afirmação de Howard Dean, nas primárias, de que os democratas precisavam falar às pessoas que agitam bandeiras confederadas e dirigem picapes. Vários sulistas encararam isso como um estereótipo condescendente.

  • A sugestão de Kerry de que um presidente não precisaria do Sul para vencer.

  • O namoro do partido com o polêmico cineasta Michael Moore, que esteve na Convenção Nacional Democrata e que provocou os delegados republicanos em Nova York. Moore é um cineasta brilhante, conforme evidenciado pelo sucesso dos seus filmes. Mas o seu ódio por Bush é tão óbvio, o seu estilo tão impetuoso, que os republicanos acreditam que, mais do que persuadir alguém a votar em Kerry, ele estimulou os apoiadores de Bush.

  • O fiasco do intervalo do Super Bowl, quando o seio da cantora Janet Jackson foi exposto em cadeia nacional de televisão. Quando a Comissão Federal Eleitoral puniu mais tarde as redes que mostraram o incidente, Jackson acusou Bush de atacá-la a fim de desviar as atenções voltadas para a guerra no Iraque.

  • Kerry descrevendo a comediante Whoopi Goldberg e outros apresentadores como "o coração e a alma" dos Estados Unidos, após eles terem ridicularizado Bush com piadas pesadas em um evento para arrecadação de verbas em Nova York.

    Ao enviar representantes para cautelosamente retirar a declaração sobre "coração e alma", Kerry perdeu o seu "momento Sister Souljah". Clinton obteve uma decisiva vantagem cultural em 1992 quando, em uma reunião de apoiadores, criticou a cantora de rap Sister Souljah por ter polarizado racialmente as letras das suas músicas.

    Os democratas cometerão um erro se virem essa eleição como uma oportunidade que foi perdida por pouco. Em 15 eleições desde a Segunda Guerra Mundial, apenas dois dos candidatos presidenciais do partido obtiveram a maioria dos votos populares. Sete republicanos realizaram tal proeza, e o Partido Republicano controla o Congresso há quase dez anos. Sem dúvida, o partido político mais antigo dos Estados Unidos tem pela frente grandes questões a enfrentar. Resultado da eleição evidencia uma intensa crise cultural do partido Danilo Fonseca
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