Estados republicano e democrata explicam EUA

Chuck Raasch
Colunista do USAT
Em Washington

Cenário: Estúdios da FNN ("Ferret News Network", onde o lema é: "Nós descobrimos, vocês ouvem". Gravação do popular programa político "Túnel do Vento", cujo apresentador, Gil O'Grady recebeu os dois principais convidados da recente eleição --um Estado vermelho (republicano) e um azul (democrata).

Vejamos o programa desde o princípio.

O'Grady (OG): Boa noite, Estados. Quero ir direto ao assunto. O que aconteceu em 2 de novembro?

Estado Vermelho (EV): O bem triunfou sobre o mal. O povo temente a Deus e que vai à igreja derrotou os humanistas e secularistas. E Michael Moore finalmente calou a boca.

Estado Azul (EA): Por favor. Quem pensou, votou em Kerry. Quem não pensou, votou em Bush. Foi simples assim.

OG: Acusações pesadas por parte do EA. O que você diz, EV?

EV: Veja bem, os Estados Azuis passaram toda a eleição olhando para nós com arrogância. Mas tenho uma notícia para eles. O "Flyover Country" (algo como "país-viaduto", nome pejorativo usado pelos habitantes das costas Leste e Oeste para se referirem à região central dos EUA, que seria apenas um "viaduto" ligando as duas extremidades do país) é agora a Maioria Silenciosa. Os Estados Azuis não entendem o que estava em jogo nessa eleição: a camuflagem de John Kerry, o ataque iraquiano aos Estados Unidos em 11 de setembro e o seio exposto de Janet Jackson.

EA: Mas o Iraque NÃO nos atacou no 11 de setembro!

EV: Questão polêmica. Se eles pudessem, teriam atacado. Nós, os Estados Vermelhos, nos preocupávamos com o PRÓXIMO 11 de setembro. E Bush entendeu o nosso medo. Kerry sequer achou que estivéssemos em guerra. Sendo assim, pelo que os nossos jovens estariam lutando e morrendo? Os Estados Azuis prefeririam ter Saddam Hussein como presidente do Iraque a Bush como presidente da boa e velha América.

OG: Acusações pesadas do EV. O que você diz, EA?

EA: Bush entendeu o nosso medo? Ele ALIMENTOU o nosso medo. Você não sabia que em política o maior motivador das massas é o medo? Como ele vai liderar um país no qual a metade da população está morta de medo e a outra metade quer se separar da União?

EV: Veja, lá vem você de novo. Nós, Estados Vermelhos, perdemos uma eleição e fincamos o mastro da bandeira um pouco mais profundamente, trouxemos George W. Bush como o "conservador compassivo" e recuperamos a Casa Branca. Já os Estados Azuis, quando perdem, querem fazer as malas e deixar o país.

Eles apontam o dedo para todos, exceto para si próprios. Eles acusam os Estados Vermelhos de serem demasiadamente estúpidos, atrasados e tradicionais. Eles culpam o seu candidato --um senador rico, aristocrata, educado em uma universidade da Ivy League-- por não falar a linguagem do povo.

Mas é ASSIM que vocês ganham eleições --atacando os eleitores que vocês teriam de convencer a votar em vocês e culpando o candidato que escolheram. Os Estados Azuis são como crianças que perdem o jogo. Eles querem pegar a bola e se mudar para o Canadá ou para a França.

EA: Mas você não entende como isso é sério. Eu olho para os Estados Vermelhos e tudo o que consigo ver é a continuação da novela Jerry Falwell e a Moral Majority (Falwell é um pastor batista fundamentalista e televangelista que fundou a organização conservadora Moral Majority, ou "Maioria Moral"). Eu não teria coragem de me aventurar em um Estado Vermelho. Para mim, eles são como uma terra de Talebans. Neles eu não reconheceria mais o meu país.

EV: Temos dito isso a respeito dos EA por 40 anos. Programas vagabundos de TV, filmes violentos e rádios vulgares. Liberais barulhentos que pregam a tolerância, mas não a praticam. Se você adora a Deus, é visto de forma estereotipada como antiquado e fanático. Se apóia os valores tradicionais como o casamento entre uma mulher e um homem, é um intolerante. Se acha que o seu país é o melhor do mundo e que vale a pena protegê-lo fazendo uma guerra, é um belicista.

OG: Eis uma argumentação séria. O que você diz, EA?

EA: Por onde começo a lição? Sabe, os Estados Azuis são tão patriotas quanto os Estados Vermelhos, mas a mente estreita do Estado Vermelho jamais admite isso. Você só vê as coisas de forma unilateral: Ame-o ou deixe-o. Será que você não entende que o dissenso foi o princípio fundador desta nação? E o que dizer desse individualismo áspero que eles acreditam ser uma preciosa virtude do Estado Vermelho? Se é cada um por si, por que é que seres humanos que são gays não podem desfrutar dos mesmos valores familiares que vocês propagandeiam incessantemente? E, por falar nisso, tenho uma novidade para você. Os Estados Vermelhos também têm gays.

OG: Boa observação. O que diz, EV?

EV: Olha, Estado Azul, se o que você quer é hipocrisia e ignorância, fale com alguns dos tagarelas que estão do seu lado. Madonna, a autoproduzida "Material Girl" que fez fama e fortuna com a luxúria, diz que os norte-americanos foram "egoístas e limitados em seu pensamento" ao conduzirem Bush de volta à presidência. Barbra Streisand prega a tolerância e a paciência e, a seguir, nos compara a bruxas.

EA: Ela estava citando Thomas Jefferson. Acredito que você já tenha ouvido falar dele.

EV: Isso é algo sobre o qual podemos concordar. Alegoria de uma América dividida ajuda a entender o país de Bush Danilo Fonseca

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