Clinton inaugura biblioteca em meio a choradeira

Bill Nichols e
Richard Benedetto
Em Little Rock, Arkansas

As semanas não melhoram se você é William Jefferson Clinton. Pela terceira vez, em 12 anos tumultuados, esta cidade sulista orgulhosa está enfeitada com faixas e cartazes para receber visitantes de todo o mundo, desta vez para a inauguração da biblioteca presidencial de Clinton, de US$ 165 milhões (em torno de R$ 500 milhões).

São esperados trinta mil visitantes, o começo do que os políticos da cidade esperam que sejam décadas e milhões de dólares de benefícios econômicos.

Amigos de Clinton de toda a vida estão aqui. Membros das equipes dos dois mandatos turbulentos dirigiram-se ao sul, para uma reunião de turma emotiva. "Para muitos de nós, não formamos apenas um elo político. Há amizades da vida toda aqui. É algo para se alegrar", disse o deputado Democrata Rahm Emanuel, de Illinois, que foi assessor da Casa Branca.

Mas, para Bill Clinton, nada, nem a alegria, é simples. Em meio a todas as festividades, os participantes estão conscientes de que a derrota de John Kerry, há duas semanas, criou trevas na alma do Partido Democrata. E muitos Democratas estão procurando Clinton e aproveitando-se da reunião de sua tribo para anunciar uma nova era da política centrista do "terceiro caminho", que lhe deu a Casa Branca.

"A inauguração veio na hora certa. Os Democratas precisam pensar sobre o que foi que Bill Clinton fez para ser eleito e reeleito presidente", disse o ex-chefe de gabinete Leon Panetta.

O que era para ser uma melancólica rememoração tornou-se um comício para Democratas que querem capturar a magia de Clinton, colocá-la em uma garrafa e abri-la em tempo para a disputa presidencial de 2008, talvez até com a senadora de Nova York Hillary Rodham Clinton como porta-estandarte do partido.

"Estou cansado de ficar estudando mapas de Estados azuis e vermelhos", disse o ex-presidente, na terça-feira (16/11), em um discurso em uma escola de ensino médio de Little Rock. "Estou cansado de ouvir que há mais coisas que nos dividem do que coisas que nos unem", disse Clinton, ainda magro e fraco de sua cirurgia de ponte cardíaca há dois meses.

Logo após o presidente Bush derrotar Kerry, muitos ex-membros da equipe de Clinton temeram que essa celebração se tornasse um velório. O oposto parece ser verdade: Clinton corre de evento em evento, como se estivesse em campanha, apesar dos assessores dizerem que se cansa com facilidade e que, algumas vezes, evita as festas lotadas que sempre apreciou.

"Ele não é do tipo de ficar sentado reclamando dos resultados das eleições. Houve poucos momentos funéreos na história de Clinton", disse o ex-secretário de imprensa, Jake Siewert.

A cidade é só orgulho com a inauguração de quinta-feira da biblioteca de Clinton, em um terreno de 120.000 metros quadrados nas margens do Rio Arkansas. A instituição já ajudou a transformar o centro de Little Rock, que era um apanhado de hotéis, lojas de departamento antigas e vitrines vazias, quando Clinton concorreu à presidência em 1992. Hoje, algumas dessas vitrines tornaram-se galerias de arte, lojas de presentes e restaurantes chiques.

As autoridades dizem que a biblioteca, a 13ª instituição desse tipo nos EUA, atraiu mais de US$ 1 bilhão (em torno de R$ 3 bilhões) em investimentos na cidade, desde que Clinton anunciou o projeto, em 1997.

"Achei que devia ao meu Estado natal", disse Clinton, que mora em Nova York, sobre a escolha do local. "Queria fazer uma contribuição ao desenvolvimento desta cidade que amo tanto", disse à Câmara de Comércio na terça-feira.

Além de ganhar um atrativo para turistas, a prefeitura espera que a região ganhe prestígio com atividades em torno da fundação presidencial de Clinton, que terá um escritório na biblioteca. Além disso, será criada a Escola Clinton de Serviço Público, um braço da Universidade de Arkansas, que vai oferecer mestrado em serviço público e terá David Pryor, amigo de Clinton e ex-senador de Arkansas, como seu primeiro diretor.

Clinton passou os últimos quatro anos trabalhando para a criação de sua fundação presidencial, que lida com questões como HIV-Aids no mundo. Ele também pagou suas dívidas legais com o que arrecadou em palestras e com um livro de memórias, "Minha Vida". Agora, ele promete passar mais tempo no Arkansas. O terceiro andar da biblioteca tem um apartamento de dois quartos, de 180 metros quadrados.

Em um canto do primeiro andar há uma exibição sobre o impeachment de Clinton. A mostra chama o inquérito sobre suas finanças de "A política da perseguição". A investigação expandiu-se para outras áreas, inclusive seu envolvimento com Mônica Lewinsky, diz a exibição. "Clinton admitiu que não tinha sido claro sobre o relacionamento", diz.

O maior objeto em exposição é o Cadillac preto blindado usado por Clinton. Depois, há um vídeo saudando o Serviço Secreto. A maior atração do segundo andar é uma réplica em tamanho original do Escritório Oval de Clinton.

A inauguração desta quinta-feira será um espetáculo presidencial. Bush estará presente com dois ex-presidentes: seu pai e Jimmy Carter. Gerald Ford, com 91 anos de idade, não viaja muito, disseram seus representantes. Bono, vocal da banda de rock irlandesa U2, fará uma apresentação, assim como seu guitarrista, The Edge. O ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, enviará suas saudações por vídeo.

Democratas no divã

A equipe de Clinton e seus irmãos Democratas começaram a chegar na terça-feira, para o início das festividades, sendo que um vôo fretado por ex-assessores pousou na cidade na quarta. Muitos expressaram uma necessidade maior: de uma visão renovada para o partido, transformado por Clinton após derrotas presidenciais igualmente devastadoras em 1980, 1984 e 1988.

"Não há dúvidas de que haverá muitas discussões sobre o que funcionou e o que deu errado nas eleições de 2004. Está claro para muitos de nós, ex-membros da equipe de Clinton, que precisamos tirar as melhores idéias da esquerda e da direita para criar um terceiro caminho na política americana, que desafia rótulos fáceis. Essa é a fórmula certa para um bom governo e também para uma política eleitoral de sucesso", diz David Leavy, que foi porta-voz do Conselho Nacional de Segurança no segundo mandato de Clinton.

Nos termos de Clinton, isso significa conservadorismo fiscal, políticas de defesa agressivas, soluções de centro para questões sociais polarizadoras, como aborto e direitos de homossexuais, e uma dedicação incessante a programas para melhorar o bem estar econômico do americano médio.

"Precisamos trazer o partido de volta à era moderna", disse John Podesta, que foi chefe de gabinete da Casa Branca de Clinton. "Bill Clinton acreditava em idéias, e a inauguração da biblioteca será um lembrete disso."

Bruce Reed, que foi assessor de política doméstica da Casa Branca e hoje chefia o Conselho de Liderança Democrata, de centro, concorda. "O Partido Democrata tem muito a aprender com Bill Clinton e seu sucesso", disse Reed. "Ele levou uma dúzia de Estados vermelhos em 1992 e 1996... Sua abordagem é a única fórmula vencedora que os Democratas tiveram nos últimos 30 anos."

No Partido Democrata dividido, haverá opiniões divergentes sobre qual caminho tomar para 2008 e além. Muitos Democratas advertem agora --e advertiram quando Clinton era presidente-- que o partido não pode esquecer suas raízes de defensor do povo e dos desprivilegiados, de direitos iguais e de políticas sociais progressistas.

Durante sua campanha para as primárias, o ex-governador de Vermont Howard Dean referiu-se aos que se atêm a essas associações como "a ala Democrata do Partido Democrata".

Há também o assunto Hillary Clinton. A maior parte das pesquisas revela que a senadora é a principal competidora da nomeação presidencial Democrata de 2008. Ela está tomando o cuidado de permanecer discreta durante os eventos em torno da inauguração da biblioteca. Entretanto, quase todos que têm contatos com os Clinton acreditam que está pensando em concorrer.

A candidatura sem dúvida refletiria o governo moderado de Bill Clinton. No entanto, muitos Republicanos acreditam que Hillary Clinton seria uma repetição da disputa de 2004, ou seja, de outra uma senadora do Nordeste que tem uma história documentada de protestos políticos nos anos 60.

O governador do Mississippi Haley Barbour, diretor nacional do Partido Republicano nos primeiros seis anos de Clinton na Casa Branca, diz que a marca de Clinton foi criticada como liberalismo tradicional em seu primeiro mandato, e foi resgatada por conquistas depois que os Republicanos dominaram o Congresso em 1994.

"Tenho certeza de que será um ótimo tributo", disse Barbour dos eventos de quinta-feira. "Mas não vejo como isso pode produzir alguma coisa para o Partido Democrata. Na campanha de Kerry, parecia que o pessoal de Clinton tinha assumido o comando. Se houvesse sentido em fazer as coisas do jeito de Clinton, Kerry teria vencido."

Os seguidores de Clinton admitem que seu sucesso pode ter resultado não só de suas políticas, mas também de suas habilidades únicas. Mas esses Democratas sabem que tiveram sucesso com Clinton e querem repetir o feito.

É simples, disse o velho mestre nesta semana: adicione alguns toques liberais a uma pitada de tempero conservador.

No almoço na Câmara de Comércio, Clinton falou de seu amor pelos floreios arquitetônicos do complexo da biblioteca, de 14.000 metros quadrados, e reclamou que uma revista britânica chamou-o de trailer glorificado.

"Acho que sou só eu", disse Clinton. "Um pouco de vermelho e um pouco de azul." Democratas usam o espaço para entender a derrota e a si próprios Deborah Weinberg

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