Discos de estréia dos Beatles viram guerra de fãs

Edna Gundersen

Quando "Meet the Beatles!" chegou aos EUA, em 1964, as harmonias dos Fab Four varreram o país. Hoje, a desarmonia recebe a volta dos discos no país, incluídos em "The Beatles: The Capitol Albums Vol. 1", uma caixa com os quatro primeiros álbuns americanos da banda, pela primeira vez em CD.

A coleção está gerando um debate entre a geração do "baby-boom", que deu as boas vindas às reproduções, e os fiéis britânicos, que consideram as versões americanas um travesti nunca sancionado pelos Beatles.

Quando a banda britânica atravessou o oceano, a Capitol cuidou de seu marketing nos EUA e fez quatro álbuns a partir de três lançados no Reino Unido: "Meet the Beatles!", "The Beatles Second Álbum", "Something New" e "Beatles '65". A ordem das músicas foi trocada e o som alterado por Dave Dexter Jr., executivo da Capitol que tirou os créditos do produtor George Martin dos dois primeiros discos e acrescentou o seu aos próximos dois.

Em meados dos anos 80, os Beatles nomearam como definitivas as cópias britânicas e não relançaram as configurações americanas em CD. Os britânicos deram vivas, e os fãs americanos se sentiram traídos.

Pete Howard, o americano indignado, e Martin Lewis, o inglês orgulhoso, concordam que todo mundo deveria conhecer os Beatles, mas discordam violentamente se "Meet the Beatles!" é uma apresentação apropriada. Abaixo, discutem as vantagens e desvantagens da caixa.

Lewis: Depois que os Beatles padronizaram seu catálogo no mundo inteiro, eles deixaram claro que nunca voltariam às versões americanas. A Apple aceitou em fazer essa "caixa canibalizada". É lamentável. Em geral, a Apple tem agido corretamente com a herança dos Beatles, mas este é um exercício cínico da nostalgia. Nossa, veja só, foi lançada seis semanas antes do Natal. Será uma bela homenagem a 1964 ou um produto fabricado para a geração do "baby-boom?"

Howard: Em 1964, eu comprei, toquei e ouvi sem parar os quatro álbuns americanos dos Beatles. Não estão apenas marcados para sempre na minha memória --já fazem parte do meu DNA; são a minha mocidade, a trilha sonora da minha vida. E nada do que você ou outra pessoa possa dizer vai mudar isso. Se pudesse voltar no tempo, certamente mudaria a política da Capitol e todos teriam ouvido os mesmos discos. Mas essa não é a realidade.

Lewis: Os lançamentos americanos foram um acidente comercial. As faixas dos discos foram escolhidas para dar lucro à Capitol, que tirou algumas músicas para gerar um terceiro disco a partir de cada dois do Reino Unido, onde os discos eram formulados com extremo cuidado. Na Capitol, eles foram tratados com desdém.

Howard: As pessoas assumem incorretamente que os primeiros álbuns britânicos seguiam inteiramente a visão dos Fab Four. Precisamos acabar com esse mito de que os Beatles faziam decisões desse tipo. A Parlophone (na Inglaterra) mandava e era tão inocente quanto a Capitol.

Lewis: Dave Dexter, a pessoa responsável por esse processo bastardo, negou-se a fechar contrato com os Beatles quatro vezes em 1963. Depois, ele fez a temeridade de remixar as faixas e acrescentar um estéreo falso. Foi uma atitude paternalista. George Martin deixou claro que os primeiro quatro álbuns deviam ser ouvidos em mono.

Howard: As pessoas citam "She's a Woman" e "I Feel Fine" como as faixas mais "Dexterizadas". São as que eu mais gosto. Adoro o som saturado "duofônico", porque foi isso que mudou minha vida. Esses métodos de engenharia faziam parte da arte.

Lewis: Dave Dexter, que arrogantemente disse que os Beatles eram bastante incapazes, decidiu que George Martin não sabia produzir. Ele jogou um eco e escolheu as músicas ao acaso. "Duofônico" significava duas versões mono fora de sincronia. Os Beatles conseguiram seduzir o público americano com "I Want to Hold Your Hand" pelo rádio porque era a mixagem de George Martin.

Howard: Pouco importa o fato de Dave Dexter ser arrogante. Não importa o fato de as músicas terem sido eliminadas dos LPs americanos por razões financeiras, que os Beatles não tenham aprovado a seqüência escolhida ou que a Capitol tenha remixado e acrescentado um eco. O que importa para os americanos é o elo profundo, intocável e emocional que temos com esses discos. Todas as justificativas acadêmicas não podem alterar isso em 2004.

Lewis: Os Beatles são o santo graal da música contemporânea e merecem o melhor. É imperativo que seu catálogo seja bem cuidado e tratado com uma herança de nossa geração. Fazer um relançamento oficial desses discos cria confusão.

Howard: Só um americano pode entender a bomba atômica que explodiu na cultura pop em 1964, com o "Ed Sullivan Show" e "Meet the Beatles!" Foi um abalo sísmico que até hoje afeta nossas vidas. Você quer nos forçar a comprar o "Meet the Beatles!", ponto marcante de nossas vidas, em um formato diferente, apenas para satisfazer seu sentido histórico? Quando ouço "MTB" até hoje, ouço a inocência, a pureza de um LP que custou, o que, US$ 2,98 (em torno de R$6), quando grandes empresas, conglomerados da música e o intelecto acadêmico ainda não tinham dominado tudo. É esse o sentimento que quero manter em uma garrafa.

Lewis: Se você quer ouvir essas mixagens horríveis, compre alto-falantes baratos, coloque-os em uma lata de lixo, encha os ouvidos de bolinhos com creme e toque os CDs corretos dos Beatles, lançados em 1987. Eles terão o mesmo som dos velhos discos de vinil americanos que você teve em 1964. O mínimo que devemos aos artistas é respeitar sua visão.

Howard: Acho que os Beatles não se incomodaram tanto assim com o lançamento dos LPs alterados nos EUA, em 1964, ou teriam fincado o pé, como fizeram com tudo a que davam importância. Em 1964, a música adolescente era um mercado de canções. Posso imaginar John Lennon segurando o LP "Beatles'65" e dizendo: "Isso é estranho, mas tudo bem, terão as músicas".

Lewis: Quando saiu "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", eles realmente insistiram: "Ninguém vai mexer no nosso trabalho" e o disco ficou intacto. Mas se a Capitol tivesse canibalizado o "Sgt. Pepper", os fãs ainda o teriam adorado, porque a música era inegavelmente ótima. Mas eles teriam perdido um álbum muito melhor.

Howard: O mundo se alinhou em 1967 com "Sgt. Pepper" porque era um "álbum conceitual", simplesmente por isso --a história mostrou que não era assim tão conceitual. Mas foi esse o gatilho para fazer os países se alinharem. Além disso, houve o surgimento do LP de rock (liderado pelo "Blonde on Blonde", de Bob Dylan).

Lewis: Não sou antipático aos fãs americanos, absolutamente. É natural gostar daquilo que se ouve na adolescência. Além disso, é um testemunho ao som dos Beatles o fato de vocês gostarem tanto dos discos, apesar das aberrações. Mas se um distribuidor no Reino Unido tivesse pegado "Casablanca", trocado as cenas, mudado para uma cor sépia e chamado de "Meet the Casablanca!", você acha que haveria um lançamento oficial em DVD, 40 anos depois? Não estou dizendo que não você não possa ouvir seus velhos discos ou fitas cassetes ou gravar em seu iPod, mas por favor, não faça um lançamento oficial.

Howard: A discussão seria diferente se estivessem substituindo as versões britânicas. Então precisaríamos de uma reunião entre a Câmara dos Comuns e o Congresso. Há espaço nesse mundo para os dois, assim como há várias versões da Bíblia. E é por isso que, por fim, deve-se dar apoio à Capitol por lançar essa caixa. Alguns gritam: "Ambiciosos". Eu choro: "Por que vocês demoraram tanto? Finalmente responderam ao que os fãs americanos tanto imploraram." Gravação americana de 1964 é ignorada; versão inglesa é "oficial" Deborah Weinberg

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