Democratas ainda não vêem saída para sua crise

Chuck Raasch
Analista político
Em Washington

Neste mês, faz dez anos que Washington experimentava a vanguarda da nova revolução republicana. O partido conquistou 54 cadeiras na Câmara e dez no Senado. A nova maioria congressual representou um desafio tão grande para Bill Clinton que um jornalista chegou a perguntar ao então presidente se este se sentia relevante.

Clinton mostrou ser relevante --mas, preponderantemente, à sua própria maneira. Ele se reelegeu com facilidade em 1996. Mas a sólida maioria governamental de que desfrutava ao chegar pela primeira vez à presidência, em 1992 --com uma vantagem espetacular de 14 cadeiras no Senado sobre os republicanos e de 82 na Câmara--, se evaporou.

Os democratas sentem nostalgia pelo período de supremacia que tiveram na década de 90 com Clinton, mas aquela foi uma década de perdas políticas. O domínio de 40 anos do partido no Congresso é atualmente uma memória.

Após a eleição do mês passado, parece ainda mais provável que o Partido Republicano tenha transformado a sua revolução em uma maioria governamental bem mais modesta --mas persistente. A reeleição do presidente Bush foi suficientemente decisiva para fazer com que os democratas caíssem em um processo de auto-reflexão. Ainda não emergiu nenhum líder democrata provável para a era pós-Bush.

Enquanto isso, o Partido Republicano fortaleceu o seu domínio sobre o Congresso. A sua bancada de 55 senadores é a maior desde aquela de 56 cadeiras durante a presidência de Herbert Hoover (1929-1932). Apesar das promessas repetidas dos democratas de retomarem a Câmara nas seis últimas eleições, o Partido Republicano conta com aproximadamente a mesma vantagem que tinha há dez anos.

Três pontos são mais relevantes no momento em que Bush se prepara para o seu segundo mandato. Por ora, todos favorecem os republicanos:

  • A manutenção de Karl Rove no cargo

    Houve quem pensasse que o assessor político de Bush, o mais poderoso da sua geração, poderia retornar ao Texas. Ele deu a entender em um café da manhã com jornalistas uma semana após a eleição que essa foi a sua última campanha.

    Mais tarde, porém, ele disse a Howard Fineman, da revista "Newsweek", que a sua declaração foi prematura. Rove gostaria de transformar o legado de Bush em uma maioria republicana permanente comparável ao legado de 60 anos do New Deal do democrata Franklin Delano Roosevelt.

    A sua receita: fazer dos republicanos o partido crescente, apelando aos eleitores que se mudam para os exúrbios, as áreas de rápida expansão fora das regiões suburbanas e zonas urbanas.

  • Os hispânicos conservadores

    A nomeação por Bush de hispânicos influentes para o seu gabinete e a cúpula de poder se seguiu à ampliação da participação dos eleitores hispânicos na eleição do mês passado. Esse bloco eleitoral que emerge rapidamente é a chave para a próxima geração de políticos. E os republicanos --embora ainda atraiam uma minoria dos votos hispânicos--, estão nitidamente na ofensiva.

    Valores e espírito empreendedor --dois grandes temas usados pelos republicanos-- conquistaram a simpatia dos eleitores hispânicos. Os democratas precisam mostrar como podem reconquistar os hispânicos nessa área.

  • Sombra de Clinton ainda paira sobre os democratas

    A maior comemoração do partido neste ano ocorreu durante a inauguração da biblioteca do ex-presidente em Little Rock, Arkansas, logo após a eleição. Quando se percebeu que John Kerry estava em apuros na corrida presidencial, ele apelou para Clinton, ainda que o ex-presidente estivesse convalescendo de uma cirurgia cardíaca.

    Os democratas precisam encontrar uma maneira de honrar o legado de Clinton e, ao mesmo tempo, escapar da formidável sombra feita pelo ex-presidente. Foi isso o que fizeram os republicanos na era pós-Reagan, após passarem alguns anos no limbo político, ao encontrarem um candidato novo, atraente e que não fazia parte do grupo de personalidades conhecidas do partido --George W. Bush.

    Mas o Bush dos democratas ainda não se materializou. Clinton não pode concorrer novamente, e os democratas não podem se dar ao luxo de cultivar mais nostalgia. Partido permanece fora da presidência e minoritário no Congresso Danilo Fonseca
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