Não foram só os religiosos que votaram em Bush

Chuck Raasch
Em Washington

Depois das eleições de 2000, o guru político do presidente Bush, Karl Rove, deixou claro que não haveria um segundo mandato para Bush se milhões de evangélicos não fossem persuadidos a votar em 2004.

Isso aconteceu, mas é apenas parte da razão para vitória de Bush. Apesar de maior número de evangélicos ter votado em Bush nas eleições do mês passado, o presidente, de fato, fez maiores conquistas em 2004 entre os não religiosos.

Pesquisas de boca-de-urna e outras, desenvolvidas pelo Centro Pew de Pesquisa para o Povo e a Imprensa, derrubam teorias de que Bush foi reeleito por essa onda repentina de conservadorismo religioso. Na verdade, a base para vitória foi muito mais ampla.

"Em relação a quatro anos atrás, Bush fez ganhos relativamente maiores entre pessoas que não freqüentam a igreja do que entre os eleitores religiosos ativos", disse o diretor do centro Pew de pesquisa, Andrew Kohut.

É verdade que Bush conseguiu uma percentagem maior de votos dos evangélicos protestantes (de 68%, em 2000, para 78%, neste ano). No entanto, como o número de votantes aumentou em todos os setores, a percentagem de eleitores evangélicos, no geral, foi exatamente a mesma de 2000, 23%.

Enquanto isso, Bush cresceu em apenas um ponto percentual entre os que vão à igreja pelo menos uma vez por semana, mas ganhou 4 pontos entre os que nunca vão à igreja e 3 pontos entre os que vão raramente, de acordo com as pesquisas de boca-de-urna e as análises do centro Pew de pesquisa. Além de evangélicos, Bush também conquistou maiores porcentagens de eleitores católicos e judeus do que em 2000. Por exemplo, ele teve 12% dos votos de judeus na Flórida em 2000 e 20% neste ano.

Além disso, o estudo mostra que os eleitores deste ano eram menos praticantes do que em 2000. Naquelas eleições, os que nunca iam à igreja eram 14% dos eleitores; desta vez, 15%. O número de eleitores que vão à missa semanalmente de fato caiu de 29% para 27%.

E tem mais. Neste ano, 14% dos eleitores de Bush citaram sua fé religiosa como principal razão para votar nele, 29% citaram suas qualidades de líder e 27% sua posição clara nas questões.

Por que isso é tão importante? Nos primeiros relatos da história, os especialistas e críticos de Bush reduziram a vitória do presidente a uma retomada político-religiosa, o triunfo dos chamados eleitores de "valores". Mas, na verdade, a vitória de Bush é muito mais ampla --um produto de uma tendência mais importante da política americana nos últimos 25 anos.

A participação dos eleitores evangélicos faz parte de um movimento na direção dos Republicanos, que se iniciou nos anos 80, mesmo antes de seu pai ser eleito.

Um estudo do Pew de 1987 indica que 34% dos evangélicos se alinhavam com os Republicanos, e 29% com Democratas. Hoje, o GOP [Great Old Party --Grande Velho Partido-- forma como o Partido Republicano costuma ser chamado nos EUA] tem uma vantagem de 48% contra 23% entre esses eleitores. A mudança veio em duas etapas, de acordo com Kohut: primeiro entre evangélicos do sul; depois entre evangélicos de tudo o país.

Haverá pressão considerável para Bush agradar aos conservadores religiosos, por meio de leis e nomeações judiciais. Entretanto, os que votaram em uma forte defesa nacional e cortes nos impostos também fazem parte de sua coalizão, assim como moderados inseguros com a capacidade de liderança do Democrata John Kerry e sua ideologia.

As pressões sobre Bush dos conservadores religiosos não são mais fortes do que as pressões que teriam caído sobre Kerry se tivesse sido eleito. Os eleitores que são membros dos sindicatos de trabalhadores [uma das bases do Partido Democrata] são quase a mesma percentagem que os evangélicos, e têm uma voz ao menos igualmente forte na coalizão Democrata.

A maioria dos americanos defende algumas restrições ao aborto, mas os ativistas exercem tal influência no Partido Democrata que a discussão sobre qualquer restrição é virtualmente inexistente da plataforma do partido ou em seu palco de convenção.

Pergunte ao recém derrotado líder Democrata no Senado, Tom Daschle, sobre isso. Fazendo campanha pela reeleição, viu-se constantemente tendo que defender seus laços com grupos de direito ao aborto no conservador Estado de Dakota do Sul, no interior dos EUA. Pesquisa mostra que o presidente obteve ganhos em outros grupos Deborah Weinberg

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