Redes de doação dão aos usuários a satisfação de ajudar

Janet Kornblum
USA TODAY

Quando a menina Kinley Doud, de 5 anos, deu uma geral na casa de sua avó, a poucas semanas do Natal, ela percebeu que alguma coisa de muito importante estava faltando.

Kinley, a irmãzinha dela e a mãe, Amy Doud, da cidade de Hampton, no estado da Virgínia, passarão o Natal com a "vovó", enquanto o pai delas, da Marinha, está servindo na guerra do Iraque.

"Como é que Papai Noel vai entrar?", ela perguntou. "Nós não temos uma
chaminé. Falta uma chaminé".

Felizmente para a garota, a mãe dela faz parte de uma comunidade via e-mail chamada Freecycle (Livre Ciclagem), na qual pessoas em todos os Estados Unidos doam aos seus vizinhos e amigos eletrônicos várias mercadorias. Naquela mesma semana, a família Doud recebeu, gratuitamente, uma espécie de lareira elétrica.

Kinley adorou a idéia: "Agora Papai Noel pode entrar".

Os Douds não são os únicos que se beneficiaram da "bondade de estranhos".
Vítimas dos furacões na Flórida e famílias carentes da Virginia estão entre as pessoas que receberam ajuda de estranhos, que se aproximaram através da Internet.

O serviço Freecycle foi lançado em maio de 2003 por um ambientalista em
Tucson, no estado do Arizona. Ele queria encorajar as pessoas a reciclar, em vez de jogar coisas fora quando não mais necessitavam delas. Agora isso parece ter inspirado uma tendência altruística pelo interior dos Estados Unidos, com novos sites de doações, tais como o Angels in Action (Anjos em Ação), em Virginia Beach.

Carros,roupas, brinquedos, geladeiras, máquinas de lavar, até comida -
praticamente tudo o que pode ser transportado ou carregado já foi oferecido e recebido pelo site Freecycle, através de algum site derivado ou por algum site comunitário como o Craigslist.

"Quando eu comecei, achava mesmo que era um lance típico de quem abraça
árvores", diz o fundador do Freecycle, Deron Beal. "Achava que outras
pessoas que abraçam árvores diriam, 'Legal, essa é uma oportunidade de não entupir os aterros sanitários'. Mas o que descobri tem uma base bem mais ampla".

Freecycle poderá nunca chegar à altura do site eBay, onde as pessoas vendem suas tralhas em vez de doa-las. Mas o número de pessoas que já usaram o Freecycle já chega aos 700 mil, em cerca de duas mil cidades, a maioria delas nos Estados Unidos. Cada comunidade tem sua própria listagem de e-mails.

"De uma forma estranha, e com o devido apelo psicológico, o site estimula
aquele lado de cada um de nós que quer fazer o bem", diz Beal. O Freecycle funciona por causa "daquele momento inspirador em que você vê alguém usando algo que você deu para essa pessoa. É um momento tão intenso que só faz aumentar as doações".

Sherrie Cagle levou essa máxima a um extremo. Ela era uma usuária normal do Freecycle, mas que decidiu fazer algo a mais.

O Freecycle permite a seus membros anunciar itens específicos que serão
doados ou itens específicos que eles gostariam de ter. Mas Sherrie queria
montar uma lista em que ela pudesse relacionar toda espécie de bens colhidos entre os membros da comunidade, para depois doa-los a famílias carentes. Foi com esse objetivo que ela abriu uma corrente de e-mails em separado, os Angels in Action.

Os mais de 200 "anjos" colecionam roupas, mobílias, comida e até fraldas,
provenientes de todas as fontes, incluindo amigos, famílias, vizinhos - e, claro, os Freecyclers em geral.

As pessoas descobriram o serviço dos "Anjos" basicamente através da
propaganda boca-a-boca. O grupo quer ajudar famílias da região de Hampton
Roads, na Virgínia, área afetada por problemas variados, inclusive
financeiros, diz Sherrie Cagle.

A fundadora dos "Anjos" diz que cerca de 100 famílias foram ajudadas através dessa rede; ela e outros "anjos" adotaram 10 famílias da região durante o período natalino, como já havia acontecido na época de Ação de Graças. Muitos dos itens coletados são usados. Mas alguns voluntários estão comprando presentes novos com seu próprio dinheiro.

Como acontece com o Freecycle, as negociações são baseadas num sistema de
honra. Se as pessoas quiserem podem enganar as outras dizendo que são
carentes quando não o são. Mas Sherrie Cagle, 38 anos, que planeja atingir o status de entidade não-lucrativa assim que puder fazer essa requisição, está convencida de que as pessoas estão sendo honestas.

"Eu tenho pequenos cartões prontos, onde eu escrevo que ali estão 'pessoas ajudando pessoas', diz Sherrie Cagle. "Não quero ninguém se sentindo desprezado, porque não é isso o que estamos fazendo. Eu já estive na situação em que tinha apenas U$ 5 na época do Natal, e já fui despedido um dia após a data de Ação de Graças. Eu quero ajudar as pessoas porque eu sei como elas se sentem (nos momentos difíceis)."

Muitas pessoas que recebem doações através dos Angels in Action ou do
Freecycle também se transformam em doadoras.

Alguns dos itens doados são pequenos em tamanho; outros são bem grandes.

Deb Young e o marido dela, que foram assolados por dois furacões na Flórida e que acabaram voltando para seu estado natal, o Maine, disseram que receberam uma camionete minivan de 13 anos em bom estado, de um homem que anunciou a doação no Freecycle.

O doador disse que ficou comovido com a história da família Young, diz Deb Young. "Embora posa parecer piegas, o movimento Freecycle realmente nos deu esperança de que as pessoas possam ser melhores umas com as outras. E existem pessoas por toda parte querendo ajudar outras pessoas". Marcelo Godoy

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