China está pronta para vestir o mundo

David J. Lynch
USA Today

DONGGUAN, China - Debaixo de luzes florescentes, várias moças dobram suéteres, pregam etiquetas e empacotam habilmente roupas em sacolas plásticas.

Dobrar, alfinetar, empacotar. Dobrar, alfinetar, empacotar. As trabalhadoras diligentes da Zhongsheng Ltda. raramente fazem uma pausa.

É provável que fiquem ainda mais ocupadas. No dia 31 de dezembro, o setor de vestuário global embarca em sua maior mudança em 30 anos, eliminando as quotas que limitam a quantidade de bens que um país pode vender aos EUA ou à Europa. Quando as quotas forem eliminadas, varejistas como Wal-Mart e L.L. Bean terão a liberdade de comprar tantas camisetas, calças jeans e toalhas quanto quiserem de qualquer fábrica no mundo.

Parece um conceito simples. Mas o fim das quotas vai mexer com US$ 350 bilhões (em torno de R$ 1 trilhão) do comércio global, enviando tremores por comunidades da Carolina do Norte até Bangladesh. A indústria têxtil americana, que perdeu 355.000 empregos desde janeiro de 2001, antecipa perder outras dezenas de milhares dos 691.000 restantes.

Os grandes vencedores serão os fabricantes chineses e os consumidores, que usufruirão da queda dos preços. A fatia de 16% do mercado americano dominada pela China deve pular para 50%, de acordo com a Organização Mundial de Comércio.

"No ano que vem, deve haver mais encomendas. Pretendemos substituir alguns equipamentos e talvez contratar mais funcionários", concorda Zhong Zhiqiang, 46, gerente de exportações da Zhongsheng.

Uma questão importante, entretanto, paira sobre essa nova era. Temendo ser pisoteada por uma China sem freios, a indústria têxtil americana está fazendo uma petição ao governo Bush, para que adote medidas de "salvaguarda" em várias categorias de roupas femininas e masculinas. As medidas temporárias limitariam em 7,5% qualquer aumento de carregamentos chineses nas categorias instituídas -isso significaria, efetivamente, um relaxamento, mas não uma eliminação das quotas nacionais. A China aceitou a possibilidade de salvaguarda quando se uniu à Organização Mundial de Comércio, em 2001.

O governo já impôs esses limites sobre sutiãs e roupões. Mas o destino de outras petições, em relação a itens que vão desde calças de algodão até camisas de fibras feitas a mão, vai demorar meses para ser resolvido. Essa incerteza está atrasando a corrida à China.

"Não planejamos grandes mudanças em nossos fornecedores. Não temos certeza de como isso vai se resolver", disse Bill Wertz da Wal-Mart.

Antecipando alguma medida americana draconiana, Pequim anunciou, no dia 12 de dezembro, que vai criar uma tarifa para a exportação de têxteis. Isso tornaria os produtos chineses mais caros e poderia conter os lucros de Pequim com o fim das quotas. Como o valor da tarifa não foi especificado, há dúvidas de que seja suficiente para realmente afetar as exportações.

Em observações no site do Ministério do Comércio, o porta-voz Chong Quan disse que a medida se destinava a estimular uma mudança para a produção de roupas mais caras, em vez de camisetas, meias e cuecas baratas.

Para os revendedores, a eventual suspensão das quotas vai tornar a vida mais fácil. A lista do Serviço Aduaneiro dos EUA especifica exatamente quantos casacos de lã, pijamas, camisas de algodão e 88 outros itens a China pode enviar aos consumidores americanos. Por exemplo, as fábricas chinesas podem enviar 870.371 dúzias de camisas de algodão aos EUA, e nem uma dúzia a mais.

Esses limites podem explicar porque os varejistas como a Wal-Mart compram de fornecedores de 60 países. Quando as quotas desaparecerem, esse número deverá encolher para meia dúzia. Fornecedores tradicionais dos EUA no México e na América Central estão preocupados em ficar de fora das listas de algumas redes varejistas. Algumas plantas, em locais mais distantes como Maurício e África do Sul, já fecharam.

No entanto, em meio às discussões calorosas nos EUA sobre como segurar a China com medidas de salvaguarda, está claro que não se sentirá grande parte das vantagens de um mundo livre de quotas por algum tempo.

As autoridades chinesas vêem a imposição imediata das restrições de comércio como injustas. Essas restrições temporárias renováveis anualmente por três anos foram criadas como resposta às atuais ondas de importação, não um recurso em antecipação ao aumento, dizem.

Apesar da irritação em Pequim, a maior parte dos analistas diz que é pouco provável que haja uma guerra comercial, especialmente depois do anúncio de criação de tarifa pela China. As duas nações têm muito em jogo. A economia da China, que depende da exportação, precisa do enorme mercado americano como cliente, e as corporações americanas são viciadas em seus fornecedores chineses baratos. Estima-se que entre 15 a 20% dos lucros anuais das empresas que compõem o S&P 500 resultam da revenda de produtos de baixo custo da China, diz o economista Andy Xie, da Morgan Stanley. "Falar de uma guerra comercial é loucura", diz Xie.

A preocupação obsessiva atual com o crescimento da China não era antecipada em 1994, quando os membros da OMC concordaram em eliminar as complexas quotas. Na época, a maior parte dos países em desenvolvimento estava confiante que a mudança permitiria um aumento de vendas aos EUA e Europa. Ninguém esperava que a China, que estava começando seu desabrochar capitalista, se tornasse tão ferozmente competitiva.

Agora, a dominação eventual comércio global de roupas e têxteis pela China é considerada inevitável. Em janeiro de 2002, os EUA começaram a eliminar quotas sobre alguns produtos têxteis -como roupas infantis e meias. Nesses itens, a fatia do mercado abocanhada pela China pulou de 9% para 65%.

Desde então, os produtores chineses tornaram-se mais competitivos. No ano passado, a Zhongsheng, de 10 anos e com cerca de US$ 4 milhões (em torno de R$ 12 milhões) de vendas anuais, instalou novos teares automáticos. Agora, a empresa planeja gastar US$ 1,2 milhão em máquinas de costura japonesas automáticas, para aumentar sua capacidade em 20%.

Modernizações similares aconteceram em todo o país. Nos últimos dois anos, as fábricas chinesas se anteciparam ao fim das quotas e investiram quase US$ 9 bilhões (em torno de R$ 27 bilhões) em importações de maquinário têxtil, a maior parte do Japão e da Alemanha, de acordo com dados da alfândega chinesa. Em outubro, a Fountain Set, de Hong Kong, disse que ia gastar US$ 121 milhões (aproximadamente R$ 363 milhões), em cinco anos, para aumentar em 25% sua capacidade de tingimento em sua planta de Dongguan. A Texhong Textile de Xangai planeja gastar parte dos US$ 32 milhões (em torno de R$ 96 milhões) que levantou com uma oferta pública inicial neste mês para construir novas linhas de produção para suas roupas de spandex.

Críticos americanos dizem que os exportadores chineses se beneficiam das leis trabalhistas flexíveis e da moeda fixa, que deu aos bens produzidos no país uma vantagem de preço artificial.

Quase todas as fábricas de roupas da China são privadas. Mas as plantas estatais ainda produzem mais de um terço de tecidos na China, de acordo com um relatório da Organização de Cooperação Econômica e Desenvolvimento. Mais de 41% das empresas estatais operaram no negativo em 2001, de acordo com os dados mais recentes.

É certo que os fabricantes nos EUA e na Europa têm dificuldades em competir com as empresas chinesas. A remuneração média por hora dos operários nos EUA é de US$ 20,32 (em torno de R$ 61), incluindo benefícios. Na China é de US$ 0,75 (cerca de R$ 2,25), que às vezes também inclui alojamento e refeições.

Há mais do que baixos salários por trás da prosperidade pós-quota esperada na China. Outros países com indústrias têxteis significativas -como Bangladesh e Índia- têm salários baixos. Mesmo assim, é a China que deve disparar na frente, e não seus vizinhos asiáticos.

Alguns fatores que explicam o fenômeno são estradas melhores do que a maior parte dos países em desenvolvimento e a qualidade aceitável dos produtos. No entanto, a vantagem mais vital da China é a produtividade, diz Paul McKenzie, diretor de pesquisa de consumo da CLSA Ásia Pacific Markets, em Hong Kong. Um operário em uma fábrica do sul da China precisa de 12,5 minutos para produzir uma camisa de algodão. Em Bangladesh ou na Índia, demora 22,2 minutos para produzir a mesma camisa. Os mexicanos demoram de meia hora.

"A China vence todo mundo em produtividade", disse McKenzie. "Os funcionários trabalham duro e todo mundo se concentra em ganhar o máximo possível."

Como a maior parte dos 800 funcionários de Zhongsheng, Xin Chanfeng, 20, migrou para o centro industrial do sul da China em busca de trabalho. "Venho de uma aldeia. Queria fazer alguma coisa diferente, em vez de plantar, então vim para cá", disse ela carregando uma caixa de suéteres para sua estação de trabalho.

Zhongsheng é seu segundo empregador. Ela está trabalhando aqui, oito horas por dia, seis dias por semana, há cerca de três meses. Com piso de linóleo pálido e dutos de aquecimento aparentes, a fábrica não é nenhum palácio. Mas não é escravidão. Xin e suas colegas trabalham em uma sala iluminada e com pé-direito alto. Uma brisa suave passa pelas janelas. Na base da escada, tem uma estátua vermelha de Guan Gong, deus taoísta da guerra e da fortuna.

Como as mulheres que trabalham ao seu lado, Xin foi atraída pela simples matemática. "Essa fábrica é melhor que a outra em que trabalhava", disse ela. "Fazemos mais dinheiro aqui."

Xin, em geral, ganha cerca de 1.000 yuans por mês, ou em torno de R$ 363. Isso é muito na China, mesmo depois de deduzir 75 yuans por mês para comer na cantina da empresa. Ela divide um quarto em um dormitório da fábrica com cinco colegas, dormindo em beliches e compartilhando um banheiro.

Apesar da força da China, os revendedores vão continuar fazendo encomendas em diferentes países, mesmo depois do fim das quotas. A possibilidade de eventos não previstos, como a epidemia de Sars do ano passado ou o movimento deste ano do governo de diminuir o ritmo de uma economia superaquecida, tornam uma dependência excessiva da China arriscada demais. Nos últimos meses, com o padrão de vida na China rural melhorando, muitas empresas chinesas começaram a ter problemas em atrair trabalhadores suficientes.

"Precisamos evitar colocar ovos demais na mesma cesta", escreveu em mensagem eletrônica Rich Donaldson, porta-voz da L.L. Bean em Freeport, Maine.

Um dos principais fornecedores de L.L. Bean foi forçado a adiar uma grande expansão neste ano, quando Pequim apertou os regulamentos para uso da terra. A TAL Apparel, de Hong Kong, que produz as camisas e calças que não amassam para a Bean, planejara construir uma segunda fábrica de 32.000 metros quadrados em Dongguan. Mas quando Pequim determinou uma moratória na conversão de terras agricultáveis para usos industriais, o projeto foi engavetado, diz S.N. Yip, 51, diretor das operações no continente da empresa.

L.L. Bean acredita que haverá agora uma "consolidação limitada da produção" de outros países para a China, com o fim das quotas, disse Donaldson.

No longo prazo, o progresso econômico da China parece incansável. Há uma geração, o local da fábrica de Zhongsheng era um campo de arroz. Hoje, essa parte de Dongguan é um grande bairro comercial, de fábricas e depósitos, epicentro da manufatura chinesa.

Zhong chegou aqui na Revolução Cultural, quando, como milhões de moradores da cidade, foi "enviado" para trabalhar com os camponeses. "Era basicamente agricultura. Tudo que você vê aqui agora não existia", disse ele.

Zhong está diante de um novo prédio de seis andares que abrigará a sede da empresa e um salão de exibições. Enquanto isso, um trabalhador empurra uma carroça cheia de tecido dourado e cor de vinho. O prédio, cercado de andaimes de bambu, deve ser inaugurado no início do ano que vem. Nessa época, Zhong talvez esteja recebendo novas encomendas.

"Muitos clientes de países estrangeiros já estão nos procurando", disse ele. "Tenho que dizer, os negócios só fazem melhorar." Com o fim de cotas, vendas têxteis do país devem explodir Deborah Weinberg

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