Inteligência dos rebeldes desafia os EUA

John Diamond
USA TODAY

As implicações do audacioso ataque suicida, no centro de uma base militar americana fortemente guardada em Mosul, vão além da falha na segurança da instalação.

O ataque é a prova mais recente de que os rebeldes do Iraque possuem melhor serviço de inteligência sobre as tropas americanas do que os dados que as tropas americanas têm sobre os rebeldes.

"O ataque à base significa para o iraquiano normal que, se os americanos não conseguem proteger seus próprios soldados em suas próprias bases, como conseguirão proteger a população?", questiona Andrew Krepinevich, um
analista militar junto ao Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias.

"Essa guerra é combatida em grande parte pela inteligência", diz o analista. "E os rebeldes parecem estar se aprimorando cada vez mais na inteligência".

Como os rebeldes souberam quando e onde as três autoridades eleitorais
estariam viajando, no último final de semana, pela região de Bagdad, antes de eles serem arrancados de seus veículos em plena luz do dia e de eles serem assassinados por rebeldes armados com pistolas? Como os rebeldes foram capazes de penetrar na Zona Verde altamente protegida - o centro nervoso político e diplomático de Bagdad?

Essas perguntas atormentam os funcionários do Pentágono, que tentam
estabelecer uma estratégia bem-sucedida no Iraque.

"É um negócio bem difícil e complicado", disse o secretário de Defesa Donald Rumsfeld. "O inimigo tem um cérebro. O inimigo altera sua tática... E a intimidação é o tipo de atitude que pode impedir as pessoas de fornecerem (dados para) inteligência".

Já o general Richard Myers, comandante da Junta dos Chefes de Divisões,
disse nesse mesmo encontro no Pentágono que a solução é simples.

"A melhor maneira de prevenir é vencer. E é isso o que iremos fazer", disse Myers.

Rumsfeld e Myers encaram escolhas difíceis para lidar com o que, eles
reconhecem, é uma insurgência que continuará violenta até mesmo após as
eleições iraquianas, previstas para 30 de janeiro.

Os dois altos funcionários consideram que a recente tomada de Falujah por
parte dos americanos é uma tática que serve de modelo para ser empregada em outros locais do país.

Mas a concentração de forças em Falujah exigiu o deslocamento de soldados, esvaziando áreas como Mosul, o que ajudou a disseminar a violência nessa cidade do norte do Iraque. A varredura de Mosul, quarteirão por quarteirão, em busca dos rebeldes envolvidos no ataque contra os americanos, começou nessa última quarta-feira. Mas a cidade é quase quatro vezes maior que Falujah.

A resposta mais freqüentemente emitida por especialistas externos - mandar mais soldados - tem lá os seus riscos, adverte Rumsfeld. Mandar mais soldados, diz o secretário, "tem o aspecto contraproducente de criar alvos adicionais e de gerar a sensação de uma ocupação do país".

Logo após o ataque de Mosul pelos rebeldes, a palavra de ordem imediata para as tropas americanas passa a ser a proteção dos soldados. O general Myers disse que essa é a "Tarefa Um". Mas essa opção também tem seus pontos negativos.

"Teremos que gastar mais recursos para dar segurança às bases, o que nos
deixará com menos recursos para enfrentar os rebeldes", diz o analista
Krepinevich.

Kenneth Allard, um coronel aposentado do Exército, alertou contra "um certo grau de complacência" que pode se estabelecer entre os soldados, mesmo nas zonas de guerra: "Nunca se chegará ao ponto da segurança absoluta. Agora, uma coisa que se pode fazer é tentar não criar alvos chamativos".

Patrick Lang, um especialista no Iraque e ex-oficial da inteligência do
Exército, considera que os jipes Humvees blindados e refeitórios revestidos de aço não poderiam ter prevenido esse último ataque, e que seriam como "Band-Aids" ineficazes diante da hostilidade generalizada enfrentada pelos americanos e pelas tropas aliadas no Iraque.

"É muita bobagem achar que temos muitos aliados por lá, essa não é uma boa atitude", diz Lang. "Terá que haver um apoio muito maior entre a população, de gente que não vire as costas nem se faça de cego, que não colabore com eles".

Nos meses após o final da "fase de invasão" da guerra no Iraque, os
dirigentes americanos associaram as escaladas de violência a uma série de
acontecimentos que, supostamente, fariam diminuir os ataques. Primeiro foi a captura de Saddam Hussein, depois a preparação de uma constituição, seguidos pelo estabelecimento de um governo interino e, agora, as eleições de janeiro.

Os duros últimos meses de combates abalaram as previsões otimistas, agora
substituídas por um grave senso de realidade no Pentágono.

"Imaginar um Iraque pacificado após as eleições seria um erro", disse
Rumsfeld. "Acho que nosso nível de expectativa deveria ser bem realista a
esse respeito".

Rumsfeld ainda fala de um Iraque pacificado, democrático e próspero. Mas,
nessa quarta-feira, o secretário de Defesa advertiu sobre as conseqüências de um fracasso: "Não podemos permitir que pessoas que decepam cabeças assumam o poder". Americanos estõa sofrendo ataques cada vez mais ousados Marcelo Godoy

UOL Cursos Online

Todos os cursos