Política e religião marcaram o cinema em 2004

Anthony Debarros
Em McLean, Virgínia

O ogro verde favorito dos Estados Unidos, personagem de "Shrek 2", pode ter liderado as bilheterias dos cinemas em 2004. Mas foram dois sucessos inesperados --um documentário politicamente carregado e uma caracterização da crucificação de Jesus com imagens impressionantes-- que deram o tom do ano nas telas.

"Fahrenheit 11/9", de Michael Moore, e "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, se transformaram em marcos culturais numa nação dividida, em pleno ano eleitoral. Também impulsionaram uma das maiores tendências do ano em Hollywood: a controvérsia como arma de marketing.

"Quando as pessoas foram assistir à 'Paixão de Cristo', não era apenas para ver um filme --era para confirmar uma crença", diz Brandon Gray, diretor do boxofficemojo.com, um web site da indústria cinematográfica americana. "Com 'Fahrenheit 11/09' foi a mesma coisa, só que era uma mensagem pregada para um público diferente".

O teor anti-Bush de "Fahrenheit" alimentou diariamente os apresentadores das rádios conservadoras, enquanto que "A Paixão" foi um filme alvejado pelos que nele perceberam um viés anti-semita.

Ambos os filmes se aproveitaram dessa controvérsia. "A Paixão" faturou US$ 370,3 milhões, se colocando em terceiro lugar nas bilheterias americanas, atrás de "Shrek 2" (US$ 436,7 milhões) e de "Homem Aranha 2" (US$ 373,4 milhões). "Fahrenheit" foi o documentário que mais faturou nos Estados Unidos em todos os tempos, com U$ 119,1 milhões.

Outras tendências observadas nas bilheterias em 2004:

Ben Stiller domina

Mesmo com o fracasso "Envy", Stiller teve um ano excepcional. Três de seus filmes, "Dodgeball" "Quero ficar com Polly" e "Meet the Fockers" ("Entrando numa Fria Maior Ainda") abriram já no primeiro final de semana na primeira posição. "Starsky & Hutch" abriu em segundo lugar, e poderia ter sido o número um, se não tivesse enfrentado a avalanche de "A Paixão de Cristo".

"O cara faz os filmes abrirem bem porque tem um apelo junto aos mais jovens e também junto aos mais velhos", diz Paul Dergarabedian, da empresa Exhibitor Relations (Relações com Exibidores). Ele compara o 2004 de Stiller com o 1994 de Jim Carrey, que na época arrebentou com "O Máscara", "Debi&Lóide" e "Ace Ventura: Detetive de Animais": "Stiller com certeza está no primeiro time".

Tom Hanks esfria

A atuação em animação no filme "O Expresso Polar" deu a Tom Hanks um empurrão de final de ano, mas as interpretações como um imigrante isolado em "O Terminal" de Steven Spielberg e o excêntrico ladrão sulista em "Matadores de Velhinhas" dos irmãos Coen não conseguiram conquistar grandes platéias.

"Esse ano de 2004 prova que Tom Hanks não pode fazer qualquer tipo de papel e esperar que as pessoas compareçam às bilheterias", diz Gitesh Pandya do boxofficeguru.com. "Nós gostamos de vê-lo atuar com seu sotaque americano habitual, fazendo comédias para o grande público ou dramas edificantes".

Mas não descartem Hanks antes da hora. Ele já assinou para fazer o protagonista de "O Código da Vinci" com o diretor Ron Howard.

As famílias comparecem aos cinemas

Quando "A Lenda do Tesouro Perdido" (com Nicolas Cage) faturou U$ 35,1 milhões, liderando as bilheterias em seu final de semana de abertura, em novembro, os analistas se surpreenderam. Quando o filme liderou as bilheterias por três finais de semana seguidos, esses analistas perceberam um fenômeno em andamento: a revitalização do segmento de filmes para toda a família, que nos Estados Unidos recebem a cotação PG ("Parental Guidance suggested", ou "Sugerimos comparecimento com os pais").

A partir de outubro, filmes PG como "O Espanta Tubarões", "Os Incríveis", "A Lenda do Tesouro Perdido" e "Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events" ou "Desventuras em Série" (com Jim Carrey) praticamente dominaram as primeiras posições nas bilheterias. Segundo Gray, "o público apoiou filmes 'limpos', numa proporção bem elevada".

O 'Grito' mostrou poder de lucro

Filme de horror orçado em US$ 10 milhões, "O Grito" se tornou um belo investimento para a Sony. A produção estrelada por Sarah Michelle Gellar faturou mais de US$ 110 milhões.

Segundo Pandya, "foi um filme de baixo custo com uma boa estrela, muito conhecida num gênero em que as pessoas gostam de vê-la atuar. E ainda foi lançado antes do Halloween".

Outro filme de baixo orçamento --para os padrões dos estúdios americanos-- que teve grande retorno foi "Diário de uma Paixão" (de Nick Cassavetes), que custou US$ 30 milhões e faturou US$ 81 milhões. "O filme não tinha grande poder estelar e foi lançado no meio do verão americano; mas ofereceu material maduro para mulheres, que estavam sendo ignoradas por todos aqueles filmes de ação", analisa Pandya.

Épicos decepcionam

Muitos dos épicos retumbantes e de grande orçamento de 2004 --uma conseqüência um tanto retardada do sucesso do campeão de Oscars "Gladiador"-- não conseguiram conquistar as platéias americanas. "Tróia" alcançou U$ 133 milhões, mas "O Rei Arthur" evaporou na temporada de verão, "O Álamo" foi logo esquecido e "Alexandre" murchou com a má repercussão no boca-a-boca.

Alternativos fazem bonito

Embora não somem bilhões nas bilheterias, alguns aclamados filmes menores proporcionaram boas experiências às pessoas que foram vê-los nos cinemas, diz Dergarabedian.

"Filmes como "Sideways", "Napoleon Dynamite", "Garden State", "I Heart Huckabees" (ainda sem títulos em português) ...incrementaram a boa vontade das platéias", segundo Dergarabedian. "Quando as pessoas saem de "Sideways" (com Paul Giamatti, e indicado a vários Globos de Ouro), elas realmente ficam satisfeitas com a escolha que fizeram. Tenho esperanças de que provoquem vontade de assistir a mais filmes em 2005". "Fahrenheit 11/9" e a "A Paixão de Cristo" dão lucro e repercussão Marcelo Godoy

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