Bush perde oportunidade de ser um líder mundial

Chuck Raasch
Em Washington

Jornalistas, pelo menos os melhores deles, têm sempre consciência da linha que divide o ceticismo do cinismo. Mas, pelo amor de Deus, essa nossa cidade bem que poderia se esforçar mais.

Nessa época, em que os líderes da nação poderiam ter aproveitado melhor momentos simbólicos diante do mundo e de seus próprios cidadãos, eles têm sido lentos na resposta ou surdos aos apelos coletivos. Como conseqüência, os republicanos --saídos de sua maior vitória eleitoral desde a revolução no partido, há 10 anos-- estão minando sua própria autoridade moral para governar. E os Estados Unidos podem ter perdido uma oportunidade excelente para reverter sua imagem negativa em todo o planeta.

Considerem o seguinte:

  • Os americanos responderam, como sempre, com sua compaixão e seus recursos, para ajudar as vítimas do tsunami na Ásia e na África, que pode ter ceifado pelo menos 150 mil vidas.

    Tanto individualmente como por seu governo, os americanos agiram com generosidade, embora atrás da Austrália, da Alemanha e do Japão em ajuda governamental. Foi uma mudança refrescante ver os militares americanos flagrados em operações de resgate, depois de meses em combate no turbulento Iraque. Imagens como essas poderiam ajudar a reverter a imagem dos Estados Unidos, tão corroída no mundo inteiro desde a invasão do Iraque.

    Mas até chegarmos a esse ponto houve controvérsias demais e política demais.

    O presidente Bush levou vários dias após o tsunami para efetivamente responder. Um funcionário do setor de ajuda das Nações Unidas criticou obliquamente as primeiras ofertas do governo americano, considerando-as muito modestas. Isso pode não ter sido uma crítica justa --outras nações ricas, especialmente no mundo árabe, contribuíram com bem menos-- mas a polêmica deu uma idéia de que os americanos estariam esgotando seu senso crítico e sua compaixão.

    Bush foi corretamente aplaudido por nomear dois ex-presidentes, o pai dele e Bill Clinton, como líderes de uma campanha para ajudar a recuperação do tsunami.

    Mas até essa atitude ficou envolvida por política, quando críticos questionaram porque outro ativo ex-presidente, Jimmy Carter, não foi incluído nessa lista. Carter tem sido um crítico destemido da Guerra no Iraque.

    Bush enviou seu irmão, o governador da Flórida Jeb Bush, e o secretário de Estado, que está de partida, Colin Powell, para visitarem a região assolada pelo tsunami e mostrarem que há um compromisso dos americanos no apoio às populações atingidas.

    Seria essa dupla uma futura chapa presidencial Republicana para 2008?

    Mas se ele mesmo fosse lá, o presidente Bush poderia ter feito muito mais para definir positivamente as intenções americanas no mundo pós-guerra do Iraque. Imagine Bush presente, lá onde as necessidades são maiores, proclamando a bondade que existe nos corações americanos --americanos salva-vidas, e não vingadores.

    Essa imagem poderia ter formado uma seqüência poderosa daquela outra imagem de Bush, no meio dos escombros logo após os atentados de 11 de setembro, quando ele proclamou que os terroristas iriam logo conhecer a nossa resposta.

  • Dez anos após o "Contrato com a América", essa semana os republicanos relaxaram as regras éticas pelas quais governam, essencialmente complicando sua situação na Câmara dos Representantes, no que diz respeito à investigação e à punição de seus próprios integrantes por violações éticas. Enfrentando a pressão dos democratas e de alguns políticos de suas próprias fileiras, os líderes republicanos repeliram tentativas de investigar o líder da maioria na Câmara, Tom DeLay, pelos gastos realizados na campanha no Estado do Texas.

    Há dez anos, completados nesse mês de janeiro, saídos de sua primeira vitória na Câmara após 40 anos, os Republicanos chegaram à cidade de Washington cheios de promessas para mudar o que eles apropriadamente consideravam como atitude arrogante no poder por parte dos Democratas. Aqueles eram tempos de rompantes de permissividade, incluindo um escândalo de emissão de cheques onde os políticos eram capazes de constantemente gastar dinheiro que não possuíam.

    Os Republicanos então prometeram maior rigor com suas regras éticas e governar de forma mais transparente e menos conivente com os veteranos e com os poderes que existiam do lado de fora da Câmara.

    Podemos creditar aos Republicanos a aprovação de reformas que diminuíram a influência dos lobistas e de poderosas associações comerciais e industriais.

    Mas agora os Republicanos estão se movendo numa direção oposta.

    Os revolucionários de 1994 se encontrarão num sofisticado resort do Arizona nesse próximo final de semana para celebrar seus 10 anos de poder na Câmara.

    O acadêmico especialista em Congresso Norman Ornstein disse ao jornal "The Arizona Republic": "Eu espero que eles retrocedam e tenham um olhar introspectivo sobre como estão se transformando numa caricatura dos Democratas em sua pior fase no poder". E, nos EUA, seu partido só se preocupa em concentrar mais poder Marcelo Godoy
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