Muito dinheiro em caixa pode reconduzir os democratas a vitórias nos EUA

Chuck Raasch
Analista político
Em Arlington, Virgínia

A longa estrada dos democratas de volta ao poder poderá começar aqui, nesse Estado do sul que viverá uma dura eleição para governador no próximo mês de novembro. Isso é, se a mensagem nacional dos democratas estiver à altura da máquina financeira que Terry McAuliffe está deixando para eles.

Esse nativo de Syracuse, Nova York, sairá no dia 10 de fevereiro do cargo de presidente nacional do Partido Democrata, apesar de tentativas feitas por alguns veteranos de mantê-lo no posto por pelo menos mais um ano. E eles têm uma boa razão para fazer esse pedido.

Desafiando os prognósticos de que o Partido Democrata, a nível nacional, se tornaria um dinossauro cambaleante após a reforma do sistema de financiamento das campanhas em 2002, McAuliffe em vez disso transformou o partido num verdadeiro caixa eletrônico com dinheiro às pencas.

Ele já disse que quando assumiu o comando, há quatro anos, o comitê do Partido Democrata vivia apertado nos compromissos com a folha de pagamento. Esse ano, o comitê democrata tem saldo suficiente para oferecer uma quantia sem precedentes, US$ 5 milhões (equivalente a quase R$ 15 milhões), para ajudar o vice-governador da Virgínia Timothy Kaine a concorrer ao cargo de governador esse ano.

Está certo que eles perderam a disputa presidencial e também perderam terreno no Congresso em 2004, mas os democratas foram derrotados mais por falta de uma mensagem, e não por falta de recursos. Pela primeira vez que se tem notícia, o Partido Democrata arrecadou mais dinheiro que o Republicano --no ano de 2004, o faturamento democrata foi de US$ 400 milhões, comparado com os U$ 385 milhões arrecadados pelos republicanos.

McAuliffe modernizou os contatos do partido pela Internet e o sistema de arrecadação de fundos. Ele também expandiu a lista de doadores confiáveis, de cerca de 400 mil para cerca de 3 milhões. McAuliffe diz que a idade média de um financiador democrata era de 78 anos, há quatro anos; hoje em dia, chega praticamente à metade disso.

Os democratas há muito tempo vinham dependendo de doações volumosas e do chamado "soft money" (dinheiro doado de maneira indireta) para acompanhar o ritmo dos republicanos. E depois da reforma no financiamento das campanhas, muitos duvidaram que os democratas pudessem chegar ao nível dos republicanos, com sua lista bem mais extensa de pequenos financiadores.

Porém McAuliffe alcançou esse patamar, em parte devido à força de sua personalidade. Ele assumidamente adora o trabalho de arrecadar fundos. Ele nos faz lembrar daquele garoto que quando via um monte de estrume saía logo a procurar o pônei.

Devotado aos tapinhas nas costas, é o tipo de homem estridente que você freqüentemente pode ouvir, antes mesmo de vê-lo. E desde que o amigo dele, Bill Clinton, saiu da Casa Branca, os candidatos democratas não têm nem de longe uma voz tão eloqüente quanto a de McAuliffe.

E é aí que entra o estado da Virginia em 2005.

Esse é um Estado essencialmente vermelho (cor relativa ao domínio republicano). A Virgínia é sulista e sempre vota com os republicanos nas eleições presidenciais. O candidato democrata à presidência, John Kerry, até que fez alguns esforços, mas não chegou a competir seriamente por aqui. Os chamados valores morais têm muita importância na Virgínia, e poderão ser decisivos na disputa para governador, entre o democrata Kaine e o republicano, ex-procurador geral, Jerry Kilgore.

Católico Romano praticante, Kaine está sendo alardeado como um prototípico democrata "de valores", capaz de vencer no sul e em qualquer outro lugar. Ele é a favor da livre iniciativa, e fala abertamente sobre sua fé, tanto quanto George W. Bush. Em 1980, se afastou durante um ano da escola de direito de Harvard para cumprir trabalho missionário em Honduras. Ele descreve a atividade política como "parte da missão espiritual em que estou envolvido".

"Eu não abro mão da fé ou das questões de valores por ninguém, porque creio ser essa a essência da minha vida", disse Kaine numa recente aparição ao lado de McAuliffe aqui em Arlington, subúrbio da capital Washington.

O sucessor em potencial de McAuliffe, o ex-governador de Vermont, Howard Dean, terá trabalho em consertar algumas cercas, aqui em Virgínia e em outras regiões do sul.

Dean agradou bastante a alguns democratas do sul quando, disputando a indicação democrata à presidência, utilizou o estilo "caminhonete e bandeira dos Confederados" para definir o tipo de eleitores que o partido precisa buscar.

Dean conquistou apoio de figures decisivas entre os sulistas democratas, como parte de sua estratégia para tentar chegar á presidência do partido.

Outros postulantes ao cargo são o ex-representante (equivalente a deputado) Martin Frost, que está apelando às suas raízes texanas, e o ex-representante Tim Roemer, do Estado de Indiana, contrário ao aborto. O ex-prefeito Wellington Webb, de Denver, é negro e também concorre ao comando do partido, que conquistou 90% do eleitorado negro nas eleições de novembro.

Apesar de alguns democratas se preocuparem com a natureza às vezes um tanto rude de Howard Dean, e de eles acharem que a decidida oposição do ex-governador de Vermont à guerra no Iraque poderia ser problemática nesse cargo de presidente do partido, ele parece estar em melhor situação que os outros.

Mas, de acordo com a veterana ativista democrata Donna Brazile, observa-se que mais da metade dos 447 membros do Comitê Nacional do Partido Democrata ainda não tomou a decisão, isso a duas semanas da eleição para o cargo.

Enquanto isso, é possível encontrar McAuliffe se despedindo do cargo no circuito dos programas de entrevistas, às vezes ao lado do ex-presidente do Partido Republicano, Ed Gillespie.

McAuliffe, pai de cinco crianças entre 2 e 13 anos de idade, diz que já perdeu partidas esportivas demais, por ter que trabalhar seis ou sete dias por semana.

Se a mulher dele, Dorothy, lesse nos jornais que ele estava considerando a possibilidade de continuar no cargo, "todos os móveis da minha casa seriam destruídos imediatamente quando voltasse para casa", diz McAuliffe, rindo carinhosamente. Marcelo Godoy

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