Com novo filme sobre boxe e indicação ao Oscar, Hilary Swank está de novo no ringue

Donna Freydkin
Em Nova York

Robert Deutsch/USA Today

Atriz ganhou o Oscar em 2000 pela atuação em "Meninos Não Choram"
Hilary Swank se diverte com o cachorrinho. Acabou um longo dia de fotografias de moda para a revista "Vogue" italiana, e agora, quando já são 19h numa noite gelada em Manhattan, está encolhidinha numa cadeira na cozinha do estúdio do fotógrafo, com a vira-lata de um ano, Karoo, nos braços. O animal parece satisfeito e está adormecendo enquanto Hilary Swank, esbelta e lânguida usando jeans apertados, tênis e casaco desbotado de griffe, rosto lavado sem maquiagem, suavemente acaricia a cabeça da cadelinha.

"Ela é uma grande garota", diz Hilary. "Essa foi uma sessão bem longa para a Karoo. E ela está ficando tão famosa!"

O mesmo vale para a atriz, que encantou os críticos e conquistou sua segunda indicação ao Oscar de melhor atriz, pela interpretação em "Menina de Ouro" (Million Dollar Baby), que estreou nos Estados Unidos dia 28 de janeiro (com estréia no Brasil prevista para fevereiro).

Ela vive a musculosa e decidida lutadora de boxe Maggie, marrenta e determinada a fazer sucesso com o apoio de um treinador excêntrico, interpretado por Clint Eastwood, que também é o diretor. O filme, um tanto árido e sério, concorre a sete indicações aos Oscars, após estrear num circuito americano restrito em dezembro.

E Hilary, que já recebeu uma torrente de prêmios por essa interpretação --incluindo seu segundo Globo de Ouro como protagonista, há duas semanas-- está de volta ao topo de suas possibilidades como atriz. Agora ela é a concorrente a ser vencida quando chegar a entrega do Oscar, uma ficha que parecia ainda não ter caído quando Hilary ligou de volta no dia 25 de Janeiro, 20 minutos após ter ouvido seu nome ser anunciado para o grande prêmio e poucos dias após a nossa conversa tête-à-tête.

"É surpreendente, excitante e totalmente inacreditável. Não consigo falar mais nada agora", disse a atriz, que conquistou seu primeiro Oscar em 2000, pelo filme "Meninos não Choram".

Na época, Swank surpreendeu a todos e encantou os críticos com o papel extraído da vida real, de Teena Brandon/Brandon Teena, uma garota atormentada e sexualmente confusa que tenta se passar por um rapazinho e que acaba perdendo a vida.

A história se repete e a corrida do Oscar novamente coloca Hilary frente a frente com Annette Bening, atriz de "Being Julia", que há cinco anos perdeu o prêmio para Swank quando foi indicada por "Beleza Americana". Mas Hilary ainda não tem como certo o próximo prêmio.

"Não me sinto necessariamente como a favorita. Não penso dessa forma".
Mas não diga isso para Clint Eastwood, homem de poucas palavras que se torna particularmente efusivo quando fala de Hilary: "Ela é a melhor. É absolutamente encantadora, e a pessoa mais verdadeira que você poderá conhecer. A Hilary que você conhece, tenha certeza, é a Hilary de verdade".

O diretor, de 74 anos, e Hilary, aos 30 anos, formam uma parceria um tanto improvável, que faz lembrar a união que surge no filme, entre o treinador briguento e sua pupila obstinada. Eastwood ensinou Hilary a confiar em seus instintos e a não duvidar de si mesma. Entre os dois, segundo a atriz, houve uma conexão imediata:

"Quando começo a falar sobre isso, sempre sinto uma força interior. A gente se aproximou muito. E Clint é muito autêntico, não sofre de complexo de superioridade".

Swank é contida e direta. Sorri freqüentemente, mas não dá risadas assim tão facilmente. Na verdade, ela tem muito a ver com Eastwood, homem firme e invariavelmente educado. De acordo com outra estrela de "Menina de Ouro", Morgan Freeman, a atriz é "muito modesta e despretensiosa".

Ela é capaz de procurar a repórter após a entrevista para agradecer efusivamente várias vezes por ter demorado a aparecer, pede desculpas pelo cansaço e dá um bom abraço de despedida antes de ir para casa, onde está o marido, Chad Lowe, que voou de Los Angeles.

Hilary, que boceja várias vezes, bem que merecia uma noite de descanso, de tão ocupada que anda, promovendo o filme durante dois meses e, antes disso, se forçando ao máximo na preparação, "até o limite".

Ela treinou por três meses antes do início das filmagens, passando quatro horas por dia com o lendário treinador de boxe Hector Roca no ginásio Gleason do distrito de Brooklyn, em Nova York, se preparando com lutadores de verdade. Mas a pugilista interior dela demorou um pouco a emergir. Para constrangimento do treinador, Hilary pediu desculpas à adversária na primeira vez em que acertou um soco.

"Mas de repente saiu. Fui atingida no rosto, no corpo... E quanto mais apanhava, mais eu percebia que tinha mais é que devolver o golpe".

Para ganhar massa corporal, Hilary levantou pesos e ingeriu 210 gramas de proteína por dia, bebendo 60 claras de ovo, comendo a cada hora e meia e acordando no meio da noite para consumir shakes de proteína. Segundo a própria atriz, ela ganhou mais de 10 quilos de músculos, e o corpo inteiro se modificou. Felizmente para ela, ainda está com mais de dois quilos acima do peso que tinha antes de começar esse filme.

"Tudo foi feito para a minha preparação mental como boxer. Esse é o meu trabalho. Preciso ser capaz de me assemelhar a uma lutadora de boxe".

Desistindo da vaidade, Hilary entrou no ringue sem um protetor nasal, porque o uso desse recurso "prejudica a visão periférica", acredita a atriz. "Com o protetor eu não teria a mesma movimentação. Fiquei com o nariz machucado, sem nem conseguir tocá-lo, por duas semanas. Tudo isso faz com que o rosto se movimente, é preciso aprender".

E, às vezes, isso vem do jeito mais difícil. Após estourar uma bolha do jeito que ela achava que um lutador faria, Hilary desenvolveu uma perigosa infecção por staphilococcus nos pés, segundo disse a atriz ao programa "60 Minutes".

Assim como Maggie, a pugilista de origem proletária obcecada com a vitória, Hilary cresceu em circunstâncias difíceis na cidade de Bellingham, no estado de Washington. "Eu senti esse paralelismo, essa coisa de ter um sonho e vir lá de baixo. Eu cresci num estacionamento de trailers, ela também. Então havia a mesma motivação, paixão, determinação".

Diz Eastwood: "Ela trabalha de um jeito incrivelmente puxado". Hilary ralou bastante lutando com a campeã de boxe Lucia Rijker, que é a sparring dela no filme. Uma vez, lembra Lucia, ela acidentalmente deu uma cabeçada em Hilary, que reagiu com calma mas ficou com um lábio inchado.

Numa outra vez, de tão cansada, Hilary esqueceu de proteger a cabeça quando Lucia atacou. Diz a campeã: "Ela começou a rir, e disse, 'Uau, OK, levei uma! Aí ela me disse para que eu fizesse o que tinha que ser feito, para que acontecesse como numa luta real".

Segundo Lucia, fora do ringue Hilary "quer ter certeza de que todos estão bem. Ela é muito seletiva quanto às pessoas que traz para o seu círculo. Mas quando se faz parte dele, ela realmente se importa com você".

Uma das pessoas próximas à Hilary é a cantora de Los Angeles Karen Giffin. Karen e o marido conheceram o casal Swank e Lowe há oito anos, quando eram vizinhos no bairro de Pacific Palisades. Karen diz que Hilary é uma amiga generosa, capaz de convidar, com tudo pago, para a estréia de "Menina de Ouro" em Nova York e para ficar em Paris durante uma semana quando a atriz filmava "O Enigma do Colar".

Segundo Karen, "ela leva as amizades muito a sério. Costumávamos tricotar juntas. Sempre nos encontramos para tomar café e conversar".

Elas saíam juntas quando Hilary estava filmando "Menina de Ouro" em Los Angeles. Conta a amiga: "Entre a malhação dela na academia e as filmagens, ela chegava com fome e eu preparava uma salada. Hilary sempre prestava muita atenção no que poderia comer. É muito determinada e trabalha duro".

Ela também se esforça na manutenção do casamento. Hilary e Chad Lowe, 37 anos, se encontraram há 12 anos numa festa, e trocaram alianças em 1997. Hilary diz: "Ele tem um grande coração. Eu soube com certeza que queria ficar com ele. E estamos juntos desde aquele primeiro jantar".

Eles se mudaram para Nova York há quatro anos e meio, quando Hilary começou a se sentir solitária e deslocada em Los Angeles. Agora o casal vive no bairro de Greenwich Village, com dois cachorros, dois pássaros, um gato e um coelho.

"Eu adoro essa cidade, adoro a cultura dessa cidade. Sinto-me numa cidade agitada, onde pego o metrô e ando pelas ruas o tempo todo".

É possível ver Hilary correndo com o cachorro, andando pela cidade ou almoçando com amigos.

"Eu levo uma vida muito sossegada. Sou uma garota sem maiores emoções, que tem vários animais e que limpa caca de coelho".

Ela e o marido fazem pequenas viagens pelo campo, com os bichos. E não se hospedam em hotéis Four Seasons, mas em simples motéis de estrada. Em Manhattan, eles saem para jantar ou vão ao cinema. Ou então recebem amigos para jogar muito, muito mesmo. Hilary conta: "Acho que por ter sido uma atleta na minha vida inteira, tão envolvida com esportes, adoro um bom jogo'.

A atriz é boa no xadrez e no jogo de scrabble, mas já perdeu para o marido algumas vezes nessas modalidades.

O único pedido que Chad faz à esposa tão esportiva? Que ela não pratique pára-quedismo, conta Swank, se divertindo. Ela também gosta de se divertir nos filmes que faz. O próximo será com Brian De Palma, "The Black Dahlia", história do assassinato de uma mulher, Elizabeth Short, na Los Angeles dos anos quarenta; as filmagens começam daqui a alguns meses.

Mas aos diretores de escalação em Hollywood, um aviso: Hilary adoraria fazer uma comédia romântica com Ewan McGregor. Ela é engraçada. É mesmo!

"Posso fazer coisas estranhas, como curvar meus dedos da mão para trás", diz a atriz, ainda enrolando a língua para acrescentar impacto. "Sou uma espécie de Jim Carrey feminina".

Basta observá-la imitando o Carrey dos tempos de comédia mais rasgada. Hilary contorce o rosto, mexe com o queixo, abre a boca, salta os olhos... Ace Ventura ficaria orgulhoso.

Mas será que Hilary, como Carrey, consegue se contorcer tanto a ponto de falar com o próprio traseiro? É aí que a atriz pela primeira vez cai na gargalhada de verdade, sacudindo a cabeça. E diz: "Acho que Jim Carrey e eu deveríamos fazer um filme escalados como irmão e irmã. Disse isso a ele na entrega dos Globos".

E o que foi que ele disse, Hilary?

"'Somos mesmo parecidos'". Atriz é a protagonista de "Menina de Ouro", de Clint Eastwood Marcelo Godoy

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