Gravidade das acusações a Michael Jackson pode reduzir o interesse em seu julgamento

Peter Johnson
Na Califórnia

Em 1995, o julgamento de O.J. Simpson por crime de assassinato cativou a atenção dos Estados Unidos, em parte porque o acusado era uma estrela do futebol americano e porque seu julgamento foi exibido ao vivo pela televisão a cabo, permitindo aos espectadores acompanharem o desdobramento do drama.

Já o julgamento por assassinato de Scott Peterson repercutiu porque envolveu um casal ostensivamente ordinário, para quem coisas horrorosas aconteceram. O julgamento não foi exibido pela TV, mas o interesse esteve em alta até Peterson ser condenado por assassinar a mulher dele, Laci, e o filho que nem chegou a nascer, Conner.

Agora vem o caso de Michael Jackson, ícone pop cujo julgamento pelas acusações de ter molestado um rapaz de 13 anos começou nesse 31 de janeiro, em Santa Maria, na Califórnia.

Quando Jackson, 46 anos, entrar no tribunal para observar a seleção dos jurados, cerca de mil jornalistas credenciados estarão a postos, número muito maior que os 160 assentos disponíveis para a platéia no julgamento.

Enquanto acontecer a seleção dos jurados, será admitido apenas um pool de seis repórteres; os outros terão que acompanhar de uma outra sala, superlotada.

Os programas "Entertainment Tonight", "Access Hollywood" e "Extra" já estão acampados por lá, assim como os canais Fox News, CNN, MSNBC, Court TV e Telemundo. Quando começarem os depoimentos, dentro de um mês, o canal E! irá encenar reconstituições diárias.

As grandes redes CBS, NBC e ABC, assim como jornais mais importantes como o "The New York Times", estarão todos representados, assim como revistas de celebridades como People e a Us Weekly. Outras equipes estão chegando, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da Ásia e da Austrália.

Mas e quando o julgamento começar? Os editores e produtores estão divididos quanto à repercussão --será que Jackson irá despertar aqueles papos de bebedouro, na mesma intensidade dos casos Simpson e Peterson?

Embora alguns digam que o status de celebridade de Jackson irá garantir a extensão da cobertura, outros dizem que o assunto em questão --abuso infantil-- irá diminuir o interesse.

No ultimo domingo (30/01), os produtores do programa da CNN "Larry King Live" tentavam decidir se na segunda-feira cobririam as eleições do Iraque ou o caso Jackson. Isso é digno de nota, porque "Larry King Live" adora casos criminais de repercussão, e já se fixou um longo tempo em Simpson e Peterson.

Mas o diretor da CNN Jon Klein sente que não quer uma repetição do julgamento de O.J. Simpson, durante o qual a CNN foi acusada de ter dado uma ênfase exagerada, na busca pela audiência.

"A tendência agora será não nos deixarmos influenciar por todos os ruídos que cercam o caso. Se tivermos algo de único que nos leve além das manchetes, iremos lá", diz Klein, numa avaliação semelhante à encontrada nos canais Fox e MSNBC.

Do outro lado do espectro está a produtora Linda Bell Blue, que despachou "um pequeno exército" de 35 funcionários dos programas "Entertainment Tonight" e "The Insider" para a cidade de Santa Maria, que acompanharão cada passo e cada reviravolta no julgamento. (O programa "ET" alugou um telhado de um prédio próximo ao tribunal em busca dos melhores ângulos de câmera.)

"Há um interesse mundial", diz Blue. E mesmo que a escolha de jurados possa ser um assunto meio árido, há sempre a imagem do excêntrico Jackson entrando e saindo do tribunal. "Nunca se sabe o que esperar quando Michael Jackson entra num tribunal com sua família".

Levando isso em conta, ainda assim alguns prevêem que o interesse irá diminuir porque o julgamento não será exibido ao vivo. E o juiz já ordenou aos funcionários do tribunal uma restrição da circulação de informações, limitando a alta voltagem que caracterizou o caso O.J. Simpson.

Outros também registram que o auge do brilho estelar de Michael Jackson ocorreu há 15 anos e que alguns já chegaram a uma conclusão sobre ele há 11 anos, quando Jackson pagou a outro rapaz de 13 anos US$ 20 milhões (cerca de R$ 55 milhões) para evitar um julgamento muito semelhante a esse que ele precisa encarar agora.

"Não há muitas pessoas que consigam se identificar com Michael Jackson. Você não olha para ele e diz,'Esse poderia ser um membro da minha família'", diz Bonnie Fuller, diretora editorial do grupo American Media, que publica a revista Star. "Ele tem sido um desastre já há muito tempo. O fascínio se evaporou".

A editora da revista Us, Janice Min, enviou um repórter para cobrir o julgamento de Jackson, mas tem dúvidas sobre a rentabilidade do caso. "Essa história é muito pra baixo".

Os programas matinais rivais na TV aberta, "Today" da NBC e o "Good Morning America" da ABC --que cobriram extensivamente os casos Simpson e Peterson-- deverão abordar cada ângulo do novo julgamento. A NBC não economizou recursos, erguendo do lado de fora do tribunal um container de dois andares já chamado de "Torre do Pavão (animal-símbolo da rede)".

Mas dentro das redes ABC e NBC discute-se quanto tempo deverá ser dedicado ao julgamento. "Vamos ver o que irá ocorrer. O assunto é espinhoso", diz o produtor do "Today" Tom Touchet. "Teremos muitos pais assistindo com seus filhos".

Cynthia McFadden, veterana repórter da ABC especializada em assuntos legais que recentemente furou os concorrentes ao antecipar segredos de bastidores do julgamento de Jackson, prevê que o caso "não produzirá aquele mesmo alvoroço nas conversas como aconteceu na época do O.J. Simpson, quando não se entrava num elevador sem que alguém estivesse comentando algo sobre a testemunha do dia".

(Numa declaração através de um vídeo, aprovada pelo tribunal e que desde domingo está no site de Michael Jackson, o mjjsource.com, o astro condenou os vazamentos de informação como "abomináveis e falsos" e previu que será absolvido. "Por favor mantenham a mente aberta... Eu tenho direito a um julgamento justo como qualquer outro cidadão americano".)

Apesar disso, a repórter Cynthia McFadden diz que a ABC irá cobrir o caso de maneira agressiva. "Essa história tem aspectos libidinosos, mas isso não quer dizer que ela não seja importante. São acusações extraordinariamente sérias, e um homem pode ser condenado a muito tempo de prisão se for considerado culpado nessas alegações".

Diane Dimond, da emissora de TV a cabo Court TV, que deu em primeira mão a notícia de um processo de abuso sexual contra Jackson, no programa Hard Copy em 1993, está preparada para ficar alguns meses em Santa Maria, até o verão americano. Ela trouxe quatro malas com ela, fora as roupas que já havia despachado antecipadamente. "No aeroporto eu era a própria Imelda Marcos". Abuso de crianças é considerado mais grave do que assassinatos Marcelo Godoy

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