Pesquisa questiona se os EUA estão no limiar de sua autodestruição

Dan Vergano

Darr Beiser/USA Today

Edifício do Império Maia, antiga civilização pré-colombiana, na cidade de Tulum, México
Será que os americanos estão seguindo o caminho já percorrido pelos maias?

O vencedor do premio Pulitzer Jared Diamond considera a possibilidade de que as modernas civilizações venham a desaparecer, seguindo o rumo dos antigos Maias, do Reino Polinésio da Ilha de Páscoa, dos Vikings da Groenlândia e dos Anasazi do sudoeste dos EUA.

Em seu novo livro, "Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed"(Colapso: Como as Sociedades Escolhem entre o Fracasso e o Sucesso, lançado nos Estados Unidos pela editora Viking, por US$ 29.95), Diamond observa as civilizações que sucumbiram. E ele faz uma reflexão sobre como as sociedades contemporâneas poderão se esquivar do destino de suas desaparecidas antecessoras.

Diamond apresenta relatos detalhados das civilizações exterminadas, começando com as mais antigas para depois se deter em fracassos contemporâneos, em locais como Rwanda e o Haiti. Ele também estuda os casos de sucesso, como a Islândia e o Japão, que superaram seus problemas ambientais.

"Eu vejo cada capítulo como parte de uma grande história detetivesca", diz Diamond, 67 anos, professor de geografia na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles). O livro anterior de Diamond, "Guns, Germs and Steel" (Armas, Germes e Aço), que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer, foi um surpreendente campeão de vendas, trazendo um olhar revigorante sobre os fatores geográficos que levaram à ascensão das nações ocidentais.

Diamond andou em ziguezague pela sua carreira. Treinado como médico fisiologista, ele fala 12 idiomas e também é um renomado especialista em vesícula biliar e...nos pássaros da Papua Nova Guinea. "Acho que me dei conta que a sociedade humana é mais importante que a vesícula biliar", constata Diamond.

E os estudos que ele faz, observando o que acontece tanto no Estado de Montana como na China e em Rwanda, não lhe deram garantias quanto ao futuro da sociedade moderna.

A devastação das florestas tropicais, a escassez de peixes no oceano, erosão generalizada do solo, declínio das reservas de petróleo e de gás natural e a poluição crescente são problemas que acontecem em todo o planeta.

O mais preocupante, segundo Diamond, é o aumento previsto para a população mundial, que deverá crescer 50 por cento nos próximos 50 anos, o que acontece num período histórico em que as nações do terceiro mundo buscam estilos de vida semelhantes ao do primeiro mundo, o que deverá multiplicar a utilização de seus recursos naturais cerca de 32 vezes.

"O que está ocorrendo é uma corrida de cavalos exponencial, entre as forças da destruição e as forças da sanidade", ele diz. "Saberemos quem foi o vencedor já nas próximas décadas".

Desde o "Ensaio sobre as Populações" de Thomas Malthus, escrito em 1798, pensadores têm alertado sobre os perigos sociais do crescimento descontrolado. Diamond diz que ignorar esses alertas é ignorar a história das sociedades que consumiram indiscriminadamente seus recursos e aumentaram sua produção e a população até o ponto de colapso.

O livro "Collapse" chega num momento fértil para historiadores, antropólogos e analistas políticos que estudam o declínio das civilizações, acredita o cientista político Thomas Homer-Dixon, da universidade de Toronto.

Esse campo de estudos cresceu nas últimas duas décadas, para constituir uma autêntica e autônoma disciplina acadêmica. E embora muitos dos estudiosos dessa nova disciplina tenham as mesmas preocupações de Diamond, é variável a avaliação deles sobre a ênfase que ele dá aos fatores ambientais.

"Eu espero que o livro realmente obrigue as pessoas preocupadas com o colapso civilizatório a encarar seriamente os problemas que enfrentamos", diz o historiador ambiental aposentado Alfred Crosby, da Universidade de Texas em Austin. "O livro não faz alarde sobre nossos problemas, mas coloca as coisas de um jeito que particularmente me assusta muito."

"A virtude do livro é que ele proporciona uma maneira bem sistemática de se observar os papéis dos fatores ambientais no colapso e declínio civilizatório e político", diz o historiador da Universidade de Georgetown John McNeill. Mas ele faz uma ressalva: "Minha posição pessoal nessa história é um pouco mais complicada".

Joseph Tainter, autor de um importante livro escrito em 1988, "The Collapse of Complex Societies (O Colapso das Sociedades Complexas)" considera que o meio ambiente é apenas um dos problemas da civilização. Como exemplo de sua visão, a Roma Antiga --que não é abordada no livro de Diamond-- desmoronou porque o império se tornou caro e complexo demais, diante de perigos como invasões bárbaras e epidemias.

"Quando fica impossível a resolução de seus problemas, você se torna vulnerável ao colapso", diz Tainter.

A antropóloga Lisa Lucero da Universidade Estadual do Novo México em Las Cruces contesta o ponto de vista de Diamond quanto ao colapso da civilização Maia. Ela acha que ele aceitou uma estimativa excessivamente alta, quando disse que "milhões" de maias haviam desaparecido subitamente.

"Não há provas de que tenha havido violência e doenças em grandes proporções entre os Maias clássicos", diz a antropóloga. A população simplesmente se dispersou devido a uma seca devastadora, Segundo Lisa Lucero.

Diamond desmente que seja um profeta da destruição. Ele deposita sua fé no poder das comunicações globais contemporâneas e no florescimento dos movimentos ecológicos como instrumentos de salvação para as sociedades modernas.

"Ainda estou otimista quanto ao futuro", diz o autor. "O fato de que temos a capacidade de aprender do que ocorreu no passado é nosso maior motivo de esperança".

Fatores de colapso

No livro "Colapso: Como as Sociedades Escolhem entre o Fracasso e o Sucesso", Jared Diamond define o colapso de uma civilização como uma "drástica diminuição no tamanho da população e/ou na complexidade política/econômica/social, num território considerável, por um longo tempo".

Ele detecta cinco fatores que causam o fracasso das sociedades:

  • Danos ambientais

    Na Ilha de Páscoa, no Pacífico Sul, a devastação das florestas levou à guerra, revoltas e a uma queda na população, por volta do ano 1600.

  • Mudanças climáticas

    Para o povo Anasazi do sudoeste dos Estados Unidos, anos de severas secas resultaram na decadência, no ano 1200.

  • Vizinhos hostis

    Para os Maias na América Central, a hostilidade dos vizinhos (somada à devastação ambiental e às mudanças climáticas) conduziu ao colapso, por volta do ano 850.

  • Falta de parceiros comerciais

    Na Polinésia, as populações das Ilhas Henderson e Pitcairn foram extinguindo seu sistema comercial, antes de desaparecerem, por volta do ano 1500.

  • Ausência de reações por parte da sociedade

    Os Vikings que colonizaram a Groenlândia não conseguiram reagir à destruição das florestas, à mudança climática, aos vizinhos hostis e à ausência de comércio, o que levou ao desaparecimento de sua civilização, por volta do ano 1450. Os americanos estão seguindo os passos da civilização Maia? Marcelo Godoy
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