Aos 65 anos, cantora Tina Turner está de volta com a coletânea 'All the Best'

Elysa Gardner
Em Nova York

Barton Silverman/NYTimes

Cantora se apresenta antes da final do futebol americano em 2000
Sim, ela ainda arrasa no visual.

A superestrela do rock e do soul conhecida como Tina Turner agora tem 65 anos na contagem humana. E já faz quase meia década desde que ela interrompeu aquelas apresentações ao vivo hiper-aeróbicas, que costumavam servir como seu regime de fitness básico. Mas, ao vê-la perto da janela em sua suíte de hotel, com a pele banhada por aquela luz do sol natural que seria evitada por muitas divas que têm metade da idade dela, percebe-se que Tina ainda é um modelo de beleza gloriosa que desafia o passar do tempo.

O que a sorte tem a ver com isso?

Muito pouco, dá para suspeitar. Tina Turner reconhece que estava um pouco nervosa antes de começar os esforços promocionais em torno de "All the Best", sua retrospectiva em CD duplo, que chegará às lojas americanas essa semana.

"Comecei a praticar Pilates há cerca de um ano. Mas cheguei a pensar que teria engordado uns quilinhos agora no Natal. Mas que nada! Comecei a colocar minhas roupas de trabalho, e disse ao meu namorado, 'Olha só! Nem fiz dieta! E nem parei com o meu champagne!' Então acho que o treinamento com Pilates está dando certo."

O DNA, ela admite, também teve sua influência. "Sim, a genética provavelmente ajudou --graças a Deus", diz Tina Turner, rindo e esfregando as mãos.

As faixas da coletânea "All the Best" apresentam muitas provas da duradoura exuberância de Tina. Com exceção das músicas do álbum de 1973 "Nutbush City Limits", que ela gravou com o ex-marido Ike Turner, o material é retirado das últimas duas décadas, começando com o estrondoso álbum que marcou a volta da cantora em 1984, "Private Dancer." Há também quatro novas faixas, entre elas o single ("música de trabalho") "Open Arms", onde Tina promete, com sua típica bravura: "Seja o que for que a vida aprontar contigo, sua amiga estará aqui".

"Achei que seria uma boa mensagem, especialmente com o mundo do jeito que está agora", diz a cantora. "O mundo está bem pesado, não é?"

Ela não se refere apenas às óbvias "tempestades e guerras" que se tornaram acontecimentos globais, mas também à forma como a indústria que ela integra está lidando com os novos tempos. Parte do problema, acredita Tina, é a atitude de voyeurismo banal estimulada na cultura contemporânea.

"Tudo está baseado demais no sexo", diz a mulher que vem aumentando temperaturas masculinas por mais de 40 anos. "Quando eu trabalhava com minhas bailarinas, a gente usava vestidos curtos, mas estávamos bem cobertas e cuidávamos de nossos movimentos. Agora está tudo escancarado, bem de frente. Imagine como é tentar passar uma mensagem quando você está tatuada e com o vestido até aqui. Hoje em dia o que vale não é chegar com uma grande canção que virá para inspirar as pessoas; o que vale é saber quem é o nome quente e bem novo e que irá adiante".

Antes que seja confundida com uma reacionária excepcionalmente bem conservada, Tina Turner acrescenta: "Sei que há muitos jovens talentosos por aí, mesmo sem ter muito boas influências. E os que realmente têm esse talento conseguirão encontrar um jeito de brilhar".

Desde que encerrou sua última turnê de concertos no ano de 2000, Tina Turner deu um tempo na carreira. Ela passa a maior parte do tempo sozinha ou então com o maridão que lhe acompanha há algum tempo, o executivo de gravadoras Erwin Bach, nas casas que ela possui na Suíça e na França.

"Estava cansada de hotéis e de viagens", confessa a cantora. "As pessoas podem ter pensado que eu estava por aí badalando no jet-set, mas não --nada de aviões nem trens. Eu fiquei viajando de carro, com meu companheiro, tendo momentos de quietude em casa, praticando yoga e meditando. Foi algo que eu realmente precisava fazer."

Tina Turner não rejeitou essa nova etapa, uma espécie de retorno ao foco dos refletores que parece ser mais extenuante que um simples lançamento de coletânea. Ela discute a produção de um musical inspirado em seu trabalho. E no ano passado aceitou o papel de uma deusa indiana num próximo filme da dupla Merchant/Ivory.

Esse ultimo projeto está em suspenso devido ao que Tina considera "um problema com o roteiro. Mas não estou preocupada, já que Merchant e Ivory (especializados em filmes com temática histórica, como 'Uma Janela para o Amor" e "Retorno a Howards End") têm uma boa folha corrida, e eu já aprovei inicialmente o projeto. Nunca quis estar nas telas desesperadamente, a ponto de topar qualquer papel, mas se for a coisa certa eu farei."

Tina Turner aplica essa mesma filosofia à vida dela. A autobiografia de 1986, "Eu, Tina", foi adaptada para um filme de sucesso, "What's Love Got to Do With It" --no Brasil "Tina"--, com Angela Basset. "Acho que ajudei as pessoas, na medida em que disse: 'Continuem. Não importam o que aconteça na vida, simplesmente sigam em frente.'"

Quando lhe perguntam se tem planos para uma sequência, a estrela sorri. "Ainda não, teria que estar um pouco mais velha."

A cantora explica que "a sabedoria vem com a idade, especialmente quando se está no ponto em que estou, ainda absorvendo e procurando e aprendendo. Ainda sinto como se algo estivesse chegando para mim, algo de muito importante."

"Poderei ter 90 ou 100 anos de idade, mas ainda serei capaz de dizer, 'Eu consegui!'" Faixas da coletânea trazem provas de sua duradoura exuberância Marcelo Godoy

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