Mudanças culturais levam as mulheres a abraçar suas "Amélias" interiores

Sharon Jayson

Eileen Blass/USA Today

A contadora Tara Condit, de 29 anos, trocou carreira pela casa após casar
As donas de casa já não são mais aquelas: os tipos caseiros estilo anos cinqüenta agora dão lugar a uma atitude mais cool, mais na moda, de acordo com os novos tempos.

As novas donas de casa têm consciência do seu estilo, são dotadas de cérebro e também podem ser bem sexy.

A mudança foi popularizada por filmes como a nova versão de "Stepford Wives" ("Mulheres Perfeitas", com Nicole Kidman) e séries de TV de sucesso como "Desperate Housewives" (exibido no Brasil pelo canal Sony, quintas às 21h); a apresentadora de TV Martha Stewart também ajudou a elevar a vida doméstica a um status artístico e a romantizá-la.

Até a revista Playboy está planejando uma edição sobre donas de casa.

Apesar do seu teor satírico, "Desperate Housewives" efetivamente consegue, de algumas formas, abordar as donas de casa de um ponto de vista realista.

"'Dona de casa' sempre foi vista como uma expressão negativa", diz Carla Hilbig, 33 anos, moradora em The Woodlands, no Texas, e que fica em casa cuidando de suas duas crianças. "Agora você ouve tudo isso em torno de "Desperate Housewives", com toda essa atenção que elas estão recebendo. Eu acho ótimo. Isso melhora a nossa imagem."

Mesmo que as mulheres residentes na rua chamada Wisteria Lane sejam mais caricaturas do que propriamente personagens, elas serviram para despertar um maior interesse sobre o que significa ser uma dona de casa --uma ocupação que muitas pessoas que hoje em dia estão na meia-idade, os chamados baby boomers, desvalorizaram durante a eclosão do movimento feminista.

Mas isso parece estar mudando. Hoje em dia as mulheres mais jovens, muitas das quais com mães da meia-idade que por sua vez já tentaram equilibrar a carreira e a família, dizem que não têm mais nada o que provar a ninguém. Elas sabem que as mulheres podem alcançar as posições mais altas nos ambientes de trabalho, então por que não passar algum tempo em casa?

Monica Freely, 34 anos, de Filadélfia, gosta desse atual reconhecimento que as donas de casa recebem. Ela lançou um site há dois anos, para vender camisetas divulgando o orgulho em ser dona de casa.

"Acho que ainda terei muitos trabalhos nessa minha vida", ela diz. "Agora a minha escolha é ficar em casa, e eu estou abraçando totalmente essa expressão 'dona de casa'."

Tara Condit, contadora na cidade de Filadélfia que trabalha em expediente inteiro e que se casou em julho, recebeu a tal camiseta na sua despedida de solteira.

"Essa condição literalmente significa que você tem uma casa e é uma esposa e que tentará fazer de tudo", acredita a jovem.

Algumas donas de casa --diante do estigma de que as "mulheres de carreira" eram as espertas e mais na moda, enquanto que as donas de casa eram bobinhas descerebradas-- costumavam se chamar pela alcunha de "engenheiras domésticas."

Mas agora, o aspecto "domesticado" já perdeu o encanto, diz Miriam Peskowitz, autora do livro "The Truth Behind the Mommy Wars: Who Decides What Makes a Good Mother" (A Verdade sobre a Guerra das Mamães: Quem Decide o que Faz Uma Mulher Ser Uma Boa Mãe), que será lançado em abril.

"Muitas mães que ficam em casa se definem enquanto mães que escolheram ficar com seus filhos, considerando o termo 'dona-de-casa' um tanto antiquado, mas tomando conta de seus maridos e da casa", analisa Miriam Peskowitz.

"A expressão tem várias conotações dos anos 50, fazendo lembrar a imagem propagada pela atriz June Cleaver", diz Lauren Howley, 35 anos, que vive perto da cidade de Chattanooga, no Estado sulista do Tennessee.

Ela não se importa com a imagem divulgada pela nova série, das donas de casa como mulheres de estilo sexy, mas de qualquer forma essa não é a realidade dela.

"Será que somos mulherões fogosas a caminho do jardim de infância? Não, na minha cidade isso não acontece", garante Lauren.

Mas algumas donas de casa são sim "material" para a Playboy. Uma das próximas edições da revista trará um ensaio com as "donas de casa mais quentes" dos Estados Unidos, selecionadas entre aquelas que responderam à convocação feita pela revista, às mulheres que "sabem como esquentar as coisas na cozinha enquanto seus homens estão chegando com o bacon."

Até mesmo sites pornô estão refletindo essa nova imagem, mandando mensagens em spam que mostram donas de casa como a mais recente fantasia sexual popular.

E as donas de casa que "costuram para fora", com casos extraconjugais, atraíram o interesse de duas residentes em Westchester County, no Estado de Nova York, curiosas para desvendar esses segredos. Elas entrevistaram donas de casa suburbanas que tiveram ou têm um caso, ou então as que estão pensando seriamente no assunto. O resultado está no livro "To Love, Honor, and Betray: The Secret Life of Suburban Wives" (Amor, Honra e Traição: As Vidas Secretas das Donas de Casa Suburbanas), escrito por Stephanie Gertler e Adrienne Lopez, com lançamento previsto para semana que vem nos Estados Unidos.

"Quisemos fazer um livro bem 'para as garotas', onde as mulheres não fiquem se sentindo sozinhas, isoladas ou diferentes", diz Gertler. "Não é um livro de auto-ajuda. É triste. Muitas dessas mulheres são solitárias e se sentem mal amadas."

Então com tanta ênfase nas donas de casa de estilo sexy, será que o feminismo agora estaria a reboque da feminilidade?

"Eu vejo um retorno à glorificação da casa e da família", diz Deborah Siegel, diretora de projetos especiais no Conselho Nacional de Pesquisas Sobre Mulheres em Nova York. "Mas acho que se você observar estatisticamente as tendências sociológicas, as mulheres estão trabalhando e querendo trabalhar, da mesma forma como sempre aconteceu".

Um estudo recém-divulgado sobre comportamento feminino e aspirações da mulher ao poder, elaborado em 2003 e 2004 pela Faculdade Simmons de Assuntos Gerenciais, corrobora a conclusão de Deborah Siegel.

A pesquisa realizada entre quase mil mulheres executivas descobriu que 47% delas querem os mais altos cargos de liderança. Também foi percebida uma maior percentagem de mulheres com menos de 35 anos expressando essa vontade --nessa faixa etária, 55% das mulheres procuram os mais altos cargos.

Outro estudo da Faculdade Simmons sobre aspirações profissionais, feito entre cerca de quatro mil adolescentes, descobriu que apenas 6% das moças dizem que irão parar de trabalhar e que não voltarão mais, depois de terem seus bebês. Mas 86% das moças planejam dar um tempo para cuidar dos filhos e depois voltar a trabalhar.

"Eu quero fazer valer o meu diploma até os 26 anos mais ou menos, e depois, se eu estiver casada, quero poder ficar em casa, ter filhos e cuidar deles", diz Sara Feher, de 22 anos, cursando o segundo ano da Faculdade de Educação na Universidade do Tennessee em Chattanooga. "Mas sei que isso está fora de moda". "Desperate Housewives" expõe resgate da imagem da dona-de-casa Marcelo Godoy

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