Leilões de roupas e objetos usados por celebridades arrecadam cada vez mais

Maria Puente

Ainda bem que Elvis não mora mais aqui, porque até ele poderia ficar confuso com essa onda maluca: leilões públicos de estranhas peças que foram usadas por celebridades.

Como as três colheres que supostamente serviram água num concerto do Rei Elvis em 1977, recentemente vendidas no site de leilões eBay por US$ 455 (cerca de R$ 1.300). Além disso, não é que apareceu alguém para pagar milhares de dólares por uma peça, "atração especial" no leilão? Tudo isso por um simples copo plástico usado por Elvis num concerto há quase 30 anos...

Recentemente, alguém pagou quase US$1.500 (mais de R$ 4.000) por uma bola da mesa de bilhar do Rei do Rock. Também uma espécie de porta-samambaia em macramê vinda de Graceland, palácio de Elvis na cidade de Memphis, saiu por US$ 633, incluindo uma planta de plástico. E também num leilão alguém pagou U$ 748 por um tronco de árvore que "misteriosamente" se partiu e caiu ao chão durante o enterro de Presley em Graceland, no ano de 1977.

Todos nós sabemos que os fãs de Elvis podem ser bem doidos, e que Elvis realmente ocupa um lugar de honra no panteão das celebridades mortas.

Mas o que dizer da excitação que cercou a venda especial de bugigangas pertencentes à falecida Jacqueline Kennedy Onassis?

A célebre casa londrina de leilões Sotheby espera arrecadar pelo menos US$ 1 milhão em peças de Jackie como seus jarros de vidro, cestas de vime, iscas para caça aos patos e luvas --sujas-- de limpar forno. Alguns especialistas acreditam que essa estimativa é baixa demais --eles acham que muitos itens serão vendidos por 10 vezes mais.

Gastar muitos dólares numa relíquia autêntica que já pertenceu aos Kennedys é uma coisa. Mas torrar centenas de dólares por jarrinhas Mason que eram de Jackie?

"Há por aí muita gente entediada e solitária, e essas coisinhas dão a eles aquela sensação de que tem alguma coisa que fazia parte dos bens dos Kennedys", diz Lynn Dralle, autora do livro "As 100 Melhores Coisas que Eu Vendi Pelo EBay."

Ou talvez isso tudo seja uma grotesca manifestação da "síndrome de adoração às celebridades", que para muitos especialistas está afetando um número crescente de pessoas em nossa cultura tão saturada desses famosos. Um estudo recente sobre o fascínio com os famosos sugere que a necessidade humana pela adoração ritualizada aos seus ídolos foi transferida para esse culto às celebridades, o que em alguns casos pode chegar às raias do comportamento psicótico.

"Quando a pessoa começa a se viciar em ter informações sobre sua celebridade favorita, ela precisa cada vez mais de emoções extremas para se sentir conectada", diz James Houran, psicólogo e co-autor do livro "Adoradores de Celebridades: Dentro das Mentes dos Admiradores das Estrelas": "As pessoas compram esses itens pessoais dos famosos mesmo que eles não tenham nenhum valor intrínseco --qualquer coisa que lhes dê uma ilusão ou que alimente a sensação de ter alguma íntima conexão pessoal com a tal celebridade."

Um boom de coleções e colecionadores

Sejam quais forem as motivações, não há dúvidas de que está crescendo esse negócio envolvendo leilões de peças dos famosos. Os leilões "estelares" ainda não dominam as casas mais conceituadas --pinturas e jóias são os itens que mais rendem dinheiro-- mas há mais "leilões de celebridades" agora que há 20 anos, e eles estão cada vez mais atraindo compradores entre investidores e colecionadores milionários.

Há uma década, as maiores casas realizam um ou dois leilões com peças oriundas de Hollywood ou com memorabilia do rock; hoje em dia a quantidade já subiu para seis por ano --isso sem falar no movimento que ocorre nas casas de leilão regionais e no site eBay. Enquanto isso, o mercado colecionador em geral atualmente é uma indústria que movimenta US$ 120 bilhões no mundo inteiro, com 110 milhões colecionadores apenas nos Estados Unidos.

Só que recentemente parece que alguns "leilões de celebridades" atingiram os píncaros do pavoroso e do grotesco. Já aconteceu uma venda por US$ 175 de um frasco vazio de tinta para cabelos, usado por Kurt Cobain. Até mesmo a veneranda instituição Christie uma vez vendeu uma torrada já mordida por George Harrison.

Pelo menos Elvis, Jackie, Kurt e George já não estão mais por aqui para ver quanta bobagem foi feita de seus bens mais íntimos ou prosaicos. Já alguns famosos bem vivos, submetidos a leilões bizarros, não tiveram tanta sorte: nos últimos anos, teve gente que tentou leiloar chicletes supostamente mascados e dispensados por Britney Spears; uma pastilha anti-tosse que Arnold Schwarzenegger teria cuspido; os supostos dentes de leite de Jack Nicholson; e as meias sujas de Bryan Adams.

"Há pessoas que colocam as celebridades num pedestal tão alto que serão capazes de tudo o que puderem, sendo fãs verdadeiros ou extremos", diz Dana Hawkes, diretora da seção de itens colecionáveis para a Casa Bonhams & Butterfields (a Bonhams uma vez leiloou restos do lixo de Elton John em Londres). Segundo essa diretora, "no passado ninguém chegava a pensar em vender meias sujas, mas agora se percebe que alguém realmente será capaz de comprá-las."

Mas imagine como deve ser estranha a condição de celebridade sujeita a esse tipo de atenção, diz David Redden, vice-presidente e leiloeiro da Sotheby's, casa que abrigou vários "leilões de celebridades" nos últimos anos. "Há essa situação bem peculiar de não poder tocar em algo sem que essa coisa fique de alguma forma associada á sua personalidade, e aí o famoso acaba não querendo mais tocar em nada", diz Redden.

Vai ver que foi esse o erro do cantor Justin Timberlake em 2000, quando ele apareceu numa estação de radio de Nova York e acabou não terminando a torrada "French toast" que lhe foi servida. A torrada semideglutida acabou vendida no eBay por mais de U$ 3.100.

Afinal, o que está acontecendo por aqui? Por que, por exemplo, Chas Welch, 31, de Atlanta, guardaria um guardanapo do casamento de Prince em 1996, com a marca do símbolo misterioso, que o astro pop estava utilizando na época, no lugar do seu próprio nome? Welch diz que é porque "essa é uma conexão com a tal pessoa que ninguém poderá ter... E é isso que motiva os colecionadores --eles querem essa sensação de que são as pessoas mais importantes do mundo."

Mas o que dizer de Wade Jones, 40 anos, vendedor na cidade de Charlotte, que manteve --por 27 anos-- um copo plástico utilizado por Elvis ? "Era meu aniversário, eu tinha 13 anos e tinha que ir vê-lo", diz Jones, que surrupiou o copo plástico do palco logo depois do concerto. "Assim que eu cheguei em casa, envelopei, passei goma e coloquei no congelador, em temperatura máxima."

Corta em parênteses para novembro de 2004, numa grande venda de sanduíches de queijo, onde a metade de um sanduíche desses, que supostamente estaria refletindo a imagem da Virgem Maria, foi vendida no eBay por US$ 28.000.

Por essas e outras que uma luz acendeu na mente de Jones. E não é que ele decidiu leiloar a água que sobrou da caneca de Elvis? Ele não só ficou com o copo como também resolveu que poderia leiloar 'imagens que se formavam" no copo.

Quem compraria um treco desses? Kyla Duffy, 26 anos, ex-esquiadora profissional que vive em Boulder, no Colorado. Ela deu o lance de US$ 305 e depois pagou mais alguns milhares de dólares para levar Jones e seu copo plástico a Boulder na semana passada, para comparecer a um evento que ela organizou para arrecadar fundos em benefício da pesquisa sobre doenças do ventre.

"Essa é uma maneira divertida de despertar atenção para a causa", diz Kyla. Ela diz, se divertindo: "Esse copinho trouxe alegria para a vida do Jones. E certamente trouxe muita alegria e boas risadas para mim nas últimas semanas, só de eu ficar contando as pessoas sobre isso."

É bom lembrar que os seres humanos têm feito coisas assim há muito tempo. A Igreja Católica colecionou partes representativas dos corpos dos santos por aproximadamente 2.000 anos, chamando-as de santas relíquias. Agora as celebridades substituíram os santos, já que a mídia faz com que elas estejam onipresentes e a Internet disponibiliza o acesso às tais figuras e suas traquitanas.

Algumas peças de celebridades realmente são vendidas por preço alto mesmo --e por bom motivo. Em dezembro, a Christie leiloou uma guitarra Gibson de 1964 que era de George Harrison por cerca de US$ 600.000. Há quatro anos, o piano de John Lennon foi vendido por US$ 2 milhões (ao cantor George Michael).

A maior parte dos fãs não pode pagar tanto assim, mas eles são capazes de pagar por ... meias sujas.

Antigamente o autógrafo de um famoso era o bastante para a maioria dos fãs, mas já não é mais assim. "Por mais idiota que pareça, depois da aquisição elas detêm um pedaço daquela celebridade", diz Joseph Maddalena, presidente e fundador da casa Profiles in History (Perfis na História), que leiloa memorabilia e figurinos de Hollywood. "As pessoas querem o bustier da Britney porque todas as vezes que olham para o objeto têm aquela mesma excitação."

Cuecas, calcinhas e cachecóis

No meio disso tudo, os benefícios dos "leilões de celebridades" são óbvios para as casas de leilão, que nesses tempos viam sua clientela tradicional diminuir. "Eles não recebem tanta atenção da imprensa quando vendem uma mesa da Chippendale, e os grandes colecionadores, que os apoiaram por décadas, estão desaparecendo", diz Maddalena. "A única maneira de atrair novas pessoas é através dessa badalação."

Da mesma forma como acontece com as vendas de antiguidades e pinturas dos Grandes Mestres, conhecer a procedência é tudo. Elvis Presley, por exemplo, muitas vezes atirava seus cachecóis do palco para a platéia. Qualquer um pode alegar que tem um deles, mas se a peça está acompanhada do selo de legitimidade e se existirem fotos do famoso portando o cachecol fora do leilão, por exemplo, aí fica mais fácil vender a peça por preços exorbitantes.

"É preciso que haja essa associação pessoal --algo que tenha sido usado, manipulado ou transportado por uma celebridade", diz Helen Bailey, diretora da seção de leilões de entretenimento na Christie's, que recentemente vendeu um livro supostamente lido por Britney Spears pela bagatela de US$ 1.600.

Outra coisa: famosos mortos valem mais que famosos vivos. O proprietário da casa onde o célebre apresentador de TV Johnny Carson viveu sua infância, no Estado de Nebraska, vinha tentando vender a propriedade no site eBay há alguns meses. Agora anunciou de novo e poderá ter melhores possibilidades, já que Carson morreu no dia 23 de janeiro. Elvis Presley, Marilyn Monroe, James Dean, integrantes dos Beatles --esses são os nomes mais quentes nesse mercado, não somente porque são ícones modernos, mas porque a maioria deles morreu jovem, e sem tempo de produzirem tantas peças colecionáveis.

Uma maneira cada vez mais difundida de ter o nome associado ao de alguma celebridade é possuir alguma peça de vestuário utilizada pelo famoso, ou até mesmo algo que a personalidade tenha utilizado em cena. Isso é mais fácil de ser encontrado, até porque geralmente não são peças realmente possuídas pelos famosos.

Mas também nesse caso há estranhos colecionadores. "Eu tenho um cliente que tudo o que ele coleciona são meias - meias de qualquer um", diz Dennis Riley, proprietário do serviço e site hollywoodmoviecostumes.com.

"Ah, e um nome quente do momento é Vin Diesel --se ele veste alguma coisa, os clientes querem. Nós temos uma espécie de ceroula dele, mas não iremos vendê-la. É meio esquisita e indecente." Fãs pagam caro pela ilusão de que têm alguma conexão com ídolo Marcelo Godoy

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