Irã volta-se novamente ao "capitão experiente"

Barbara Slavin
USA Today

TEERÃ, Irã - De alguma forma, a maior parte dos problemas de relacionamento entre os EUA e o Irã foram parar em suas mãos. Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, 70, foi presidente do Irã de 1989 a 1997. Em 1985, ele ajudou a fechar um contrato sigiloso com o governo Reagan, a troca de armas americanas pela a ajuda do Irã na libertação de americanos reféns de militantes libaneses patrocinados pelo Irã. Uma década depois, Rafsanjani intermediou o acordo multibilionário com a Conoco, que poderia ter marcado uma virada nas relações com os EUA -até que o presidente Clinton vetou-o, sob pressão do Congresso de maioria republicana.

Agora, Rafsanjani deve voltar ao poder. Apesar de não ter concordado em concorrer, seu nome é um consenso para as eleições presidenciais do Irã, no dia 17 de junho. Seu filho, Mehdi Hashemi, diz que o pai quer "resolver o problema americano. Porque, se ele resolver o problema americano, resolverá todos os problemas iranianos."

Um clérigo de nível médio de uma família de produtores de pistache em Rafsanjan, no centro-sul iraquiano, Rafsanjani (é comum iranianos usarem sua cidade natal como parte de seus nomes) foi uma figura central nos últimos 25 anos. Ele é um mestre em política que usou seu poder, habilidade e sorte para se tornar uma das figuras mais poderosas no Irã.

Em 1981, Rafsanjani escapou por pouco de um atentado na sede do Partido Republicano Islâmico. Ele tinha acabado de sair quando explodiu uma bomba plantada por um grupo de oposição islâmico marxista, matando 74 autoridades, inclusive o clérigo que era o segundo homem mais poderoso do Irã, depois do aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da revolução de 1979.

Atualmente, pode-se dizer que Rafsanjani é o segundo homem mais poderoso do país, atrás do atual líder religioso supremo, aiatolá Ali Khamenei, ex-presidente a quem Rafsanjani ajudou a nomear, depois da morte de Khomeini, em 1989.

Acredita-se que foi ele quem persuadiu Khomeini a aceitar um cessar-fogo na guerra de 1980-88 entre o Irã e o Iraque, que deixou 750.000 iranianos feridos ou mortos. Relativamente flexível na questão de liberdades pessoais, Rafsanjani é pró-corporações e pró-investimento estrangeiro, em parte porque sua família usufruiu de contratos de petróleo, automóveis e companhias aéreas.

Seu filho, entrevistado em Teerã na semana passada, diz que a família não está ansiosa em ver Rafsanjani concorrer novamente. "Nós já temos tudo", diz Hashemi, "mas o Irã precisa dele novamente".

De fato, os tempos são de incerteza para o Irã. EUA e Israel estão ameaçando o país com ação militar, caso não desista de seu programa nuclear. Dezenas de milhares de soldados americanos estão ao lado do Irã, no Afeganistão e no Iraque. Além disso, os radicais iranianos estão tentando revigorar a revolução enfraquecida, em parte desafiando os EUA com o programa nuclear.

A família de Rafsanjani não é a única que prevê sua volta. Nasser Hadian, professor de ciências políticas da Universidade de Teerã diz: Rafsanjani "é um capitão experiente, em uma época de turbulência no mar".

Rafat Bayot, membro independente do parlamento da província de Zanjan, a oeste de Teerã, chama Rafsanjani de "muito inteligente, muito corajoso e um dos pilares da revolução", que pode lidar com ameaças internas e externas.

Rafsanjani também tem um ponto negro em sua história. Ele foi acusado pela imprensa iraniana de estar associado às mortes de dissidentes durante sua presidência.

Em 2000, foi humilhado nas eleições parlamentares depois que um jornalista de Teerã, Akbar Ganji, acusou-o de envolvimento nas mortes de 80 escritores e dissidentes. Rafsanjani e sua família negam as acusações. Entretanto, um ex-membro da inteligência que poderia ter testemunhado contra ele, Saeed Emami, morreu na prisão sob circunstâncias suspeitas em 1999. Ganji foi condenado, no ano passado, a 10 anos de prisão por "disseminar propaganda contra o regime islâmico".

Em entrevista, o irmão de Rafsanjani, Mohammed Hashemi, disse que a maior parte dos assassinatos de dissidentes ocorreu depois de Rafsanjani, sob o comando do atual presidente, Mohammad Khatami. Mas Mohsen Kadivar, clérigo reformista e defensor de Khatami, diz que os assassinatos começaram sob Rafsanjani. Uma das vítimas foi o intelectual iraniano Ali Akbar Saidi Sirjani, que morreu na prisão em 1994.

O governo iraniano administrado pelo clero há muito tomou uma posição agressiva em relação a Israel e aos EUA, assim como aos dissidentes iranianos. Além disso, patrocinou agentes e grupos terroristas que executaram ataques fora das fronteiras do país -ações controversas ocorridas sob o governo de Rafsanjani.

Por exemplo, em 1996, a Alemanha emitiu um mandado de prisão para o ministro de inteligência de Rafsanjani, Ali Fallahian, por organizar o assassinato de três dissidentes curdos em Berlim em 1992. Rafsanjani também era presidente em 1994, quando agentes iranianos explodiram um centro cultural judeu em Buenos Aires, Argentina, matando mais de 80 pessoas. Em 1996, terroristas xiitas sauditas patrocinados pelo Irã explodiram o complexo residencial das torres Khobar, na Arábia Saudita, matando 19 membros da aeronáutica dos EUA. O possível envolvimento do Irã no ataque é uma das muitas razões de profunda hostilidade contra o Irã entre autoridades americanas.

Por outro lado, o primeiro jornal reformista do Irã islâmico, Salaam, começou durante o governo de Rafsanjani, diz Kadivar. Durante sua presidência, o regime aliviou sua censura na cultura e na vida privada dos cidadãos.

Rafsanjani "é melhor que os conservadores", diz Kadivar. Ele e outros reformistas dizem que apenas Rafsanjani é forte o suficiente para contrabalançar Khamenei e os radicais de linha-dura que tomaram o poder nas eleições parlamentares do ano passado, depois que os reformistas foram proibidos de participar.

Ironicamente, Rafsanjani teve um papel importante na vitória dos conservadores. Depois de ser atacado pelos reformistas por seu envolvimento nos assassinatos dos dissidentes, ele dedicou seu considerável apoio político aos radicais, quando proibiram a participação dos candidatos reformistas. No entanto, ele tem tamanha habilidade que não recebe o rótulo de linha dura.

"A única escolha que empurrará o Irã para a moderação é Rafsanjani", diz Mohammed Atrianfar, diretor editorial chefe do Shargh, um jornal que tende pela reforma e está fortemente apoiando a candidatura de Rafsanjani.

O filho do líder diz que, se eleito, seu pai proporá mudanças na constituição do Irã, com a intenção de reduzir o poder do líder religioso supremo do Irã, que se tornaria um cargo cerimonial, como o do "rei da Inglaterra".

Hashemi também diz que apenas seu pai pode impedir a perda do pluralismo, mesmo dentro de uma pequena elite religiosa.

"Se meu pai não concorrer, o país inteiro estará sob um grupo, e depois disso não teremos eleições livres", disse ele. Ex-presidente Rafsanjani pode levar a acordo com os EUA Deborah Weinberg

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