"Hotel Rwanda" relembra o genocídio na África

Anne Thompson
Johanesburgo, África do Sul

A boa aceitação do filme "Hotel Rwanda", cujas filmagens foram visitadas pela reportagem do USA Today, despertou novas atenções sobre a violência que atualmente ocorre no Sudão.

AFP

Atuação de Don Cheadle lhe valeu a indicação ao Oscar de melhor ator
Joaquin Phoenix e o diretor Terry George estão no interior de uma réplica do famoso Hotel Mille Collines de Kigali (capital de Ruanda). Foi em Kigali que há 10 anos o gerente de hotel Paul Rusesabagina deu abrigo a 1.200 refugiados da etnia Tutsi, salvando todos eles da morte certa, que poderia ocorrer caso fossem pegos pelas milícias da etnia Hutu que atravessavam o país.

George, irlandês grandalhão de rosto avermelhado com um chapéu todo desengonçado, está filmando uma cena ambientada no bar do hotel. Na cena, Joaquin Phoenix, que interpreta um cinegrafista, está conversando com outro jornalista, enquanto duas mulheres ruandesas estão por perto.

"Qual a diferença entre um Hutu e um Tutsi?", pergunta o personagem de Phoenix. "De acordo com os colonizadores belgas, os tutsis eram mais altos e mais elegantes", responde o colega dele. "Eles escolhiam aqueles que tinham narizes mais finos e pele mais clara --costumavam medir a largura dos narizes-- para dirigirem o país."

"Ah, conta outra", diz o personagem de Phoenix, subitamente se dirigindo a uma das garotas. "Você é Hutu?"

"Não, Tutsi."

"Elas podem ser gêmeas", conclui o cinegrafista.

Com roteiro escrito por Keir Pearson e pelo próprio diretor Terry George, "Hotel Rwanda" acontece durante um golpe de governo em Ruanda, república localizada no centro da África, no mês de abril de 1994. Esquadrões da morte formados por hutus cruzaram o país, massacrando milhares de rivais tutsis.

O massacre durou cerca de 100 dias, até um total de 800 mil mortos. As Nações Unidas e o mundo observaram o ocorrido e pouco fizeram para impedir a matança.

George coloca seu filme na mesma linhagem de "The Killing Fields" ("Os Gritos do Silêncio", sobre o massacre no Camboja de Pol Pot), "onde um homem comum triunfa sobre o mal enorme e esmagador", diz o diretor. "É como "A Lista de Schindler" para a África. Eu quis que fosse uma história de amor e um suspense político, sobre um homem comum que encontra dentro de si uma coragem que não suspeitava ter, e que passo a passo consegue neutralizar todo um exército."

Para desnortear os matadores hutus, Rusesabagina se aproveitou da série de relacionamentos que tinha em toda a sociedade ruandesa, afirma o diretor. "Ele usava suas habilidades ao lidar com essas pessoas --todo seu charme, sua capacidade de barganha e um grande repertório de senso comum: 'Por favor aceite dinheiro por essas pessoas; elas não valem nada para vocês'. Por trás disso tudo havia um profundo compromisso dele com a própria família --um conceito que ele foi forçado a ampliar, para uma família cada vezmaior.

E ele teve que superar o medo."

O filme evita ir fundo no massacre propriamente dito. "Eu quis que as pessoas percebessem a história de amor e o drama individual, em vez de realizar um docudrama sobre o massacre", diz George.

"Quis proporcionar a dimensão do medo e a loucura que o envolvia. Essa história precisa ser contada, como numa crônica. É um dos maiores atos de heroísmo do Século 20."

Don Cheadle, bem à vontade como Rusesabagina em seu terno azul escuro, camisa azul e gravata vermelha, fica perplexo com o que seu personagem foi capaz de fazer na vida real. "Os seres humanos em determinadas situações fazem coisas inimagináveis", afirma Cheadle.

"E a conclusão do filme é absolutamente positiva --você vê o amor triunfar sobre tudo, e vê como a pureza do homem ainda é capaz de salvar a humanidade. Quando tudo lhe é retirado e você fica sem chão, o que resta? Resta tudo o que você terá no final do dia."

O coronel funcionário das Nações Unidas interpretado por Nick Nolte é um personagem baseado em vários militares da ONU, especialmente calcado no general franco-canadense Romeo Dallaire, autor de um livro de memórias sobre Ruanda, intitulado "Shake Hands With the Devil" ('Cumprimentando o Diabo"), que foi transformado num documentário.

"Alguns dizem que ele poderia ter impedido o massacre", diz Nolte, vestindo um uniforme khaki e uma boina azul. "Ele não chegou a desafiar as ordens vigentes no país. Isso teria sido algo muito corajoso, mas é uma atitude que precisaria ser tomada por alguém mais forte. Sim, porque essa atitude poderia render uma corte marcial."

O produtor do filme, A. Kitman Ho ("Ali", "Platoon"), levantou cerca de US$ 17 milhões (cerca de R$ 47 milhões) em financiamento independente. O dinheiro que foi economizado, ao não contratar grandes estrelas como Denzel Washington, Will Smith ou Halle Berry, foi investido na contratação de um total de cerca de 12 mil figurantes, às vezes até 950 por dia, só para mostrar a escala de produção desse drama.

"Oitocentas mil pessoas morreram", disse Ho. "E é preciso ver algumas dessas mortes, já que trata-se de um filme sobre um massacre. Seria totalmente diferente se fosse um filme com Denzel como herói --aí você saberia que ele se daria bem no final. Parte do encanto agora é que você não sabe exatamente o que irá acontecer."

Quanto aos figurantes, a participação deles no filme foi catártica, afirma Cheadle. "Há pessoas aqui com cicatrizes produzidas por facões, há vítimas de estupro. Era importante para elas participar e apoiar esse filme... Para essas pessoas, é como se sua história nunca tivesse sido suficientemente documentada ou contada para o mundo."

O filme concorre a três Oscars, na cerimônia do próximo dia 27 de fevereiro --Cheadle concorre a melhor ator; Sophie Okonedo, que interpreta Tatiana, a esposa de Rusesabagina, concorre a melhor atriz coadjuvante ; e Pierson e George disputam a estatueta de melhor roteiro (George e Jim Sheridan foram indicados ao Oscar em 1994, pelo roteiro de "Em Nome do Pai").

O verdadeiro Rusesabagina, que tem viajado com a equipe de "Hotel Rwanda" para promover o filme, diz que ele mesmo não tinha consciência da dimensão do massacre em seu país, até que viajou ao sul de Ruanda para conferir a situação de alguns parentes.

"No caminho, não havia gente em movimento", diz Rusesabagina. "Não se via sequer uma vaca. Não havia nada, o país inteiro fedia. Só se ouvia o ruído de cachorros lambendo cadáveres."

Ele veio a descobrir que a mãe de Tatiana fora assassinada com seis netos e uma cunhada, todos jogados numa grande vala.

"Foi aí que eu descobri a verdade sobre o que realmente ocorrera em Ruanda. Antes disso, era como se eu estivesse sonhando. Aquela viagem ao sul do país me despertou." Filme aborda a perseguição étnica e a morte de 800 mil pessoas Marcelo Godoy

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